terça-feira, 22 de junho de 2010

POEIRA DAS ESTRELAS - PARTE 06/12

O CIENTISTA ESQUECIDO

Neste capítulo da série "Poeira das Estrelas", o físico Marcelo Gleiser encontra o homem que o Prêmio Nobel esqueceu.

Imagine que você é cientista e descobre a resposta para uma das perguntas mais antigas da humanidade: como foi que tudo começou? E, quando chega a hora do reconhecimento, como você se sentiria se toda a glória e todos os prêmios fossem para outra pessoa? Essa história é verdadeira.

Em ciência, muitas vezes, grandes descobertas nascem por acaso. E nem sempre a comunidade científica reconhece o mérito daqueles que tiveram uma grande idéia primeiro. Para uns, a glória; para outros, o esquecimento.

O ano era 1929. No observatório de Mount Wilson, ao norte de Los Angeles, havia sido construído o telescópio mais potente de todos os tempos.

O astrônomo americano Edwin Hubble apontou o telescópio para o céu e viu gigantescos conjuntos de estrelas -- as galáxias -- se afastando umas das outras. Era o universo em expansão, crescendo cada vez mais.

As conseqüências dessa descoberta foram profundas. Se as galáxias estão se afastando, isso significa que, no passado, elas já estiveram mais próximas. E mais: em um passado muito distante, as galáxias -- e as estrelas que elas contêm -- estavam tão próximas que ocupavam todas o mesmo espaço. Trata-se de uma região minúscula, menor do que a cabeça de um alfinete. O universo, então, tinha uma origem. Mas que origem era essa?

Ironicamente, a primeira pessoa a buscar essa resposta, a sugerir um modelo científico para a origem do universo foi um padre, o belga Georges Lemaître. Segundo ele, no início, o universo não passava de um enorme núcleo, ou "átomo primordial", como ele chamou. Mas o próprio Lemaître admitia que sua teoria não explicava tudo em detalhes, o que é essencial em ciência.

Só em 1948, inspirado pelas idéias de Lemaître, um dissidente soviético naturalizado americano pôs as mãos à obra. Ele se chamava George Gamow. Era um homem que não tinha medo de grandes desafios. Nascido na Ucrânia, Gamow chegou a tentar fugir duas vezes da antiga União Soviética, atravessando o mar negro em um barquinho a remo.

Para ajudá-lo na gigantesca tarefa de finalmente explicar a origem do universo, Gamow convocou dois alunos de doutorado, Robert Hermann e Ralph Alpher. Dos três, apenas Alpher está vivo. Encontramos com ele em um asilo para aposentados em Tampa, no estado americano da Flórida.

Alpher sofreu um derrame anos atrás e se movimenta com dificuldade, mas continua lúcido. Ele conta como era trabalhar com Gamow. "Ele era uma grande figura", diz Alpher. "Fechando os olhos, consigo imaginá-lo na sua motocicleta, um belo cachecol de lã no pescoço, voando ao vento", conta o cientista.

Gamow sabia das descobertas de Edwin Hubble, de que o universo está em expansão. Sabia também que o universo é extremamente frio. Gamow tinha um palpite: se voltasse no tempo, poderia contar a história do início de tudo.

E isso foi o que ele propôs: se o universo -- que está em expansão -- hoje, é frio e gigantesco, no seu início devia ser exatamente o contrário: muito quente e muito denso. Por isso, ele apostou que o universo começou comprimido, ao máximo, em uma única região.



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