domingo, 26 de setembro de 2010

O Caminho do Conhecimento / Antroposofia




Consideramos nosso dever proporcionar ao leitor alguns esclarecimentos, à guisa de respostas, à pergunta que ele certamente já vinha formulando desde os primeiros trechos deste livro:

Como é que se pode saber algo dos mundos superiores, com que grau de probabilidade podemos admitir as comunicações feitas por Rudolf Steiner e outros a seu respeito?

Cabe aqui uma primeira observação.


A própria Antroposofia indica os meios que permitem, em certas circunstâncias, verificar, pela própria experiência, os fenômenos ocultos por ela descritos.

Mas, talvez, a grande maioria dos homens não esteja interessada nem inclinada a seguir esse caminho.

Muitos procurarão conhecer e compreender a Antroposofia e suas realizações sem submeter-se a esse processo de iniciação.

Essa atitude é perfeitamente compreensível.

Em matéria de ciência, a "prova" da verdade (se é que podemos falar assim; na realidade, a ciência moderna passou a ser bem modesta em suas esperanças de descobrir a "verdade") se faz pela verificação dos fatos e princípios cuja existência é afirmada.


Não vamos entrar numa discussão estéril sobre o valor de tal "verificação", já que as próprias escolas filosóficas discordam veementemente sobre esse assunto.

Fatos supra-sensíveis podem ser observados e interpretados apenas pelo vidente. Mas qualquer pessoa dotada de inteligência e bom-senso pode compreender as descrições e interpretações fornecidas pelo vidente e indagar se elas se enquadram nos fenômenos normais da vida comum.


Essa atitude objetiva, isenta de preconceitos, permite a todo homem sensato constatar:

*Os fatos supra-sensíveis afirmados pela Antroposofia formam um todo coerente, sem contradição intrínseca.

*Não estão em oposição ou desacordo com nenhum fato da nossa ciência comum.

*Explicam inúmeros fenômenos, que a ciência comum é incapaz de explicar.

*De maneira idêntica ou semelhante, tais fatos foram afirmados por todos os grandes iniciados de épocas passadas.


Nada disso constitui uma "prova", no sentido comum do termo; mas não há dúvida de que a ciência espiritual antroposófica possa satisfazer qualquer espírito crítico, devido ao seu alto grau de verossimilhança, à seriedade de suas atitudes, ao caráter científico dos seus métodos e, principalmente, aos estupendos resultados obtidos por suas realizações práticas.

A vidência, que permite observar conscientemente fenômenos supra-sensíveis, não é, hoje em dia, uma faculdade comum; ela o era em tempos remotos, e o será novamente em tempos futuros.


Nesse intervalo, a capacidade de vivenciar a realidade dos mundos superiores pode ser adquirida mediante uma transformação que consiste no despertar de órgãos de percepção superior, órgãos esses que fazem parte dos corpos não físicos do homem.

"Iniciação" é o nome dado ao processo pelo qual se consegue esse despertar; existe uma vivência atávica e inata da qual não falaremos aqui.

O que caracteriza a iniciação antroposófica é o fato de que esta procura obter o despertar dos órgãos de percepção supra-sensível por um caminho inteiramente consciente.

Nada fica na penumbra de estados semi-conscientes ou inconscientes, ou no enlevo de estados extáticos ou orgiásticos.

O homem que se encaminha pela senda da iniciação tampouco fica na dependência de qualquer hierofante ou guru.

Na Antiguidade, a iniciação era conseguida nos Mistérios dos templos e oráculos.


O iniciado ou neófito recebia durante anos um ensinamento profundo e era submetido a um treino intenso da vontade, de perseverança, da coragem e outras qualidades.

Chegado o momento da iniciação propriamente dita, o seu mestre o fazia adormecer e, durante um sono de três dias e meio, manipulava o corpo etérico por praxes mágicas de maneira a quase separá-lo do corpo físico; isso o capacitava a acompanhar o "eu" em suas peregrinações pelos mundos espirituais.

Ao acordar, o candidato era um "iluminado", porque o corpo etérico que acompanhara o "eu" tinha agora a lembrança de toda a realidade espiritual vivenciada por este.

O iniciado sabia, nessa altura, por experiência própria, que o mundo espiritual existia.

Por meio de novos exercícios, ele aprofundava ainda mais esses conhecimentos.

A preparação anterior era necessária para permitir ao indivíduo suportar conscientemente tais vivências.

Essa iniciação era originalmente praticada no fundo dos Mistérios.


Mais tarde, estes degeneraram, e somente alguns círculos muito fechados e secretos passavam a uns poucos escolhidos a sabedoria iniciática, enquanto a maior parte dos homens já se tinha afastado do contato com os mundos superiores.

Havia sempre fraternidades ocultas, como os cabalistas, os cavaleiros do Graal ou os rosacruzes autênticos, ordens como a dos Templários, correntes heréticas como a dos cátaros, escolas filosóficas como a de Chartres e indivíduos "místicos" ou alquimistas, desacreditados e perseguidos pelas religiões oficiais.

A própria maçonaria era originalmente uma sociedade esotérica.

Hoje o indivíduo que pretende seguir uma evolução iniciática não precisa pertencer a nenhuma seita ou sociedade oculta.

Sozinho, com plena consciência, pode, por meio de certos exercícios espirituais, elevar-se pouco a pouco à clarividência.

Tais exercícios têm por finalidade o despertar gradativo dos órgãos de percepção supra sensível; por meio deles consegue-se uma transformação da substancialidade astral e etérica.

Como estamos aqui em domínios não-físicos, o leitor não estranhará que atividades não-físicas, como pensamentos, sentimentos, atitudes morais, etc., constituem instrumentos desta transformação.

Como no mundo físico, certos obstáculos desse domínio podem impossibilitar um processo qualquer a ele ligado; assim, certas atitudes ou atividades mentais, sentimentais ou morais erradas podem tornar qualquer evolução iniciática impossível, ou deturpar-lhe completamente o sentido e os resultados.

Erros, visões falsas e enganos são o resultado de quem quer forçar um desenvolvimento oculto sem a observação de uma série de regras básicas.

A não-observação de tais regras abre caminho à atuação de seres espirituais interessados em impedir uma evolução iniciática certa e harmoniosa.

Daí a possibilidade de ilusões e erros crassos, característicos de movimentos esotéricos charlatanescos e de práticas altamente condenáveis como o mediunismo e a vidência conseguida pela simples aplicação de substâncias químicas, como as drogas e os psicotrópicos modernos.

Nesta breve exposição devemos limitar-nos a alguns aspectos gerais e as linhas que se seguem pretendem apenas completar a imagem que o leitor já fez da Antroposofia.


Para maiores detalhes, deve-se estudar as obras de Rudolf Steiner sobre esse assunto.

Antes de começar os exercícios propriamente ditos, o aluno espiritual deverá conseguir o domínio e a harmonização consciente de todas as suas faculdades mentais e anímìcas. Isso parece fácil, mas o estudioso aplicado verá como é difícil essa harmonização.

Deve-se aspirar à perfeita serenidade dos sentimentos, vencendo qualquer impulso descontrolado de simpatia ou antipatia.

A mesma serenidade deve reinar no pensar, ou antes, o candidato deve esforçar-se por controlar, ao menos cinco minutos por dia, a sua atividade mental de tal maneira que pense somente naquilo em que quer pensar (tente o leitor dirigir os seus pensamentos durante dois minutos para qualquer assunto sem desvio algum, verá como esse exercício de aparência tão ingênua é, na realidade. difícil ...).

A vontade deverá ser treinada por exercícios de perseverança.

De maneira geral, o aluno espiritual deve abrir-se ao mundo, praticar uma atitude realmente positiva e igual frente ao mundo, impregnando de amor e de consciência todos os seus atos.

Nada, nesses exercícios, implica numa fuga do mundo ou em estados de enlevo.


Ao contrário, o aluno deve ser mais realista, mais positivo, mais consciente do que antes e continuar com zelo redobrado em todos os seus afazeres profissionais, familiares e sociais em geral.

Aliás, esses exercícios limitar-se-ao no começo a alguns minutos por dia.

É preciso, porém, regularidade e perseverança que, em si, já constituem um exercício.

Sem praticar esse treino de harmonização das suas faculdades intelectuais, sentimentais e volitivas, o candidato procurará em vão o desenvolvimento dos órgãos de percepção superior latentes, por meio de exercícios iniciáticos.

Estes começam pela representação mental de certos símbolos, frases ou versos, sem que o aluno se deixe influenciar por qualquer impressão sensível e sem que os seus pensamentos se desviem do objeto da representarão.

Essa concentração chama-se "meditação".

Como fruto das meditações, inúmeras vezes repetidas com paciência, com a maior humildade espiritual e sem qualquer curiosidade, embora com plena consciência mental, o meditante pode ter uma sensação fugaz e indescritível de visões não-físicas, quais sonhos conscientes, nos quais as imagens lhe vêm "de fora".

Como essa impressão se assemelha a uma imagem, esta primeira etapa se chama "consciência imaginativa" ou "imaginação".

Ela é caracterizada pela transformação constante das "imagens". Ao mesmo tempo o candidato verifica que está num estado de alerta mental, e que seu pensar Ihe parece realizar-se sem a intervenção do cérebro.

Mediante uma perseverança férrea, essas sensações, esporádicas no começo, podem tornar-se mais frequentes e regulares.

Ao mesmo tempo, notar-se-á que o sono se torna mais consciente e mais transparente.

Os sonhos parecem tomar um sentido mais concreto.

O vidente perceberá esse nascimento da clarividência num outro indivíduo através de uma transformação da aura.

Ao mesmo tempo "verá" que certos órgãos astrais do aluno se destacam mais que antes.

Trata-se de órgãos de forma "redonda" situados, na maior parte, no eixo do corpo, a alturas variadas.

Esses órgãos, os chamados "flores de loto" ou chacras, tornam-se mais "luzentes" e começam a apresentar movimentos rotativos.

Essa clarividência persistirá somente durante a meditação.


Nos intervalos, o homem voltará aos seus misteres costumeiros, procurando ainda mais o controle e a harmonização das suas faculdades.

Com efeito, estas se disjuntam de certa maneira sob a influência da iniciação; é como se o pensar, o sentir, o querer, fossem caminhar em direções diversas ou até opostas.

Já empregamos várias palavras como "redondo", "luzente" ou "visão" para descrever fenômenos supra-sensíveis.


Trata-se naturalmente apenas de equivalentes das nossas impressões sensoriais.

Pouco a pouco, o aluno terá também vivências comparáveis ao calor, ao frio, aos sons, à luz, e notará que essas impressões sensoriais superiores correspondem a uma realidade ainda mais elevada, que se manifesta através dessas sensações.

Para chegar a essa realidade subjacente, ele deverá elevar-se a um grau mais alto de vidência, a segunda etapa chamada "consciência inspirada" ou inspiração.

Para tal o aluno espiritual procura eliminar, por um ato de vontade, os símbolos ou frases, objeto da sua concentração, concentrando-se no "vazio" produzido por essa eliminação consciente.

Se tiver sucesso, "perceberá" seres espirituais que se escondiam "atrás" das imagens do primeiro grau de vidência.

É como se percebesse agora o vento, quando antes "via" só os objetos movidos pelo mesmo.

Nesse segundo grau de conhecimento superior ele começará a ter a capacidade de "ler" na crônica do Akasha; ele estenderá o seu campo de observação até a sua existência anterior ao nascimento; conseguirá também "acompanhar" os mortos em sua existência post-mortem.

Ao mesmo tempo, seu corpo etérico, sofrerá uma transformação e desenvolverá órgãos novos.


O iniciado verificará que correntes etéricas o preenchem, irradiando para fora do seu corpo.

A sua própria aura se transforma, e o seu corpo etérico cresce para além dos limites do corpo físico.

O terceiro grau de consciência superior é o da intuição.


O aluno tentará chegar a ele fixando a atenção em sua própria atividade mental, durante o tempo em que se concentrar na meditação.

A consciência intuitiva permitirá ao iniciado conhecer "de dentro" os seres que, na inspiração, percebeu "de fora".

Penetrará neles e, por assim dizer, vive-los-á, tornando-se "uno" com eles.

Isso lhe permite conhecer-lhes a vida interior e o estado de consciência.

Ao mesmo tempo, o iniciado, se torna pouco a pouco capaz de vivenciar as próprias encarnações passadas.

As três fases da iniciação - imaginação, inspiração e intuição - não se seguem necessariamente uma à outra.


Pode haver simultaneamente experiências pertencentes a vários graus de consciência.

Mas sempre, ao "voltar" à consciência cotidiana, o homem deverá viver uma vida normal, procurando fortalecer o seu eu que continua ameaçado pelas tendências "centrífugas" acima mencionadas.

Em seus estados de vidência, o iniciado vive agora nos mundos de seu eu iria percorrer normalmente apenas depois da morte.


Entre as experiências mais incisivas estão dois encontros:

*O primeiro coloca-o à frente do chamado "guarda do limiar": é a sua própria astralidade ainda imperfeita, o conjunto das suas forças anímicas impuras, o qual se lhe opõe, qual um sósia, barrando-lhe o caminho. Enquanto a visão desse monstro lhe aparece em sua meditação, o candidato sabe que ainda não está maduro para trilhar o caminho que leva às regiões superiores dos mundos espirituais.

*O segundo encontro não é menos terrível. Mas desta vez é uma visão sublime, que faz sentir ao homem a insignificância do seu ser. É um ente brilhante, puríssimo, poderosíssimo, que lhe aparece, aniquilando-o e elevando-o ao mesmo tempo. É uma visão do Eu Cósmico total, daquele ser que é como que a personificação do eu humano ideal: o Cristo.

Paramos aqui com essas breves indicações relativas ao caminho iniciático.


Palavras humanas não permitem descrever os mundos superiores.

As experiências relatadas pelos iniciados são, na realidade, indescritíveis.

Em tempos modernos houve só um que as traduzisse em termos terrenos acessíveis ao raciocínio comum.

Foi Rudolf Steiner, que cumpriu assim a tarefa histórica de ser o iniciador de um movimento que deverá levar o ser humano, em tempos futuros, a uma reintegração consciente nos mundos superiores.

Esse estado deverá ser alcançado quando o homem terminar sua missão terrena.


Livro: Noções Básicas de Antroposofia / Rudolf Steiner
Editora Antroposófica

Fonte:
sociedade antroposófica brasileira

sab
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