terça-feira, 30 de novembro de 2010

As Doenças (Do ponto de vista Esotérico) / Parte 2/2 Doenças por Congestão e Inibição




DOENÇAS POR CONGESTÃO


O fenômeno da congestão verifica-se quando um indivíduo, por uma razão qualquer, não utiliza as energias, qualidades, potencialidades que já possui e estão prontas para ser usadas.


Não se trata de um fenômeno inconsciente como a inibição, que, como veremos, deve-se a fatores precisos como, por exemplo, traumas, complexos, sentimento de culpa, etc, mas de um fenômeno consciente, ainda que involuntário, devido não somente a causas externas como também a causas internas.


Antes de mais nada, examinemos as causas externas.


Devemos, em primeiro lugar, lembrar que a nossa personalidade é composta de três aspectos ou veículos:


o físico-etéreo,

o emotivo e

o mental,


veículos que são campos de energias. Estes três aspectos, ao se desenvolverem, reclamam expressão, pois representam "funções" (como as chama Jung) que, se não usadas, provocam bloqueios, distúrbios e mal-estares.


E como isso acontece? As vezes, é a própria vida que não nos concede a possibilidade de exprimir as nossas faculdades. Por exemplo, pode acontecer que o trabalho que desenvolvemos, que a profissão que escolhemos absorva somente uma ou duas de nossas funções, deixando a terceira, que na maioria das vezes e' a emotiva, sem ação.


Outras vezes, pelo contrário, um indivíduo desenvolve uma atividade prática em função da qual emprega os aspectos técnicos da mente, deixando de lado todas as outras possibilidades que, como a inteligência e a intuição, existem no corpo mental.


Em outros casos ainda, é a criatividade, a sensibilidade artística e a imaginação que são relegadas por uma atividade que nos absorve completamente numa dada direção já predeterminada.


A vida moderna freqüentemente obriga o homem à unilateralidade. A especialização em determinados campos é a característica dominante desta época, e se é que tal concentração sobre uma única linha chega a ser frutífera para o aprofundamento daquele setor específico, beneficiando portanto a sociedade, por outro lado não é benéfica ao desenvolvimento e à saúde do indivíduo.


O homem, como já dissemos, é um ser complexo, composto de muitos aspectos. É uma unidade que resulta do conjunto de muitas energias e funções, daí ser o caminho de sua harmonização e de seu bem-estar a integração e o uso coordenado destas energias.


Se uma pessoa é obrigada, sem o querer, a servir-se por um período consideravelmente prolongado de apenas uma de suas funções, todo o organismo físico-psíquico se ressente disso.


Um homem de negócios, por exemplo, também pode ter tendências afetivas ou artísticas, caso tenha desenvolvido também o lado emocional e sensitivo de sua personalidade, mas o que quase sempre ocorre é que ele "não tem tempo" de cultivar e exprimir tais tendências, pois a sua vida prática o absorve completamente, não lhe deixando a possibilidade de desenvolver a sua natureza emotiva, que assim permanece comprimida e congestionada. Visto que o lado emotivo tem como seu correspondente no corpo etéreo o plexo solar, e este, por sua vez, o aparelho digestivo, é óbvio que mais cedo ou mais tarde se verifiquem distúrbios e doenças neste lado físico, a princípio exclusivamente funcionais e a seguir "orgânicos".


São freqüentes os casos de úlcera péptica nos homens de negócio, fato que foi também comprovado pela medicina psicossomática, que acompanhou a formação de hipersecreção gástrica em indivíduos em quem a necessidade afetiva é continuamente frustrada pelas circunstâncias externas.


A medicina psicossomática interpreta esta correlação entre a necessidade de afeto e as funções digestivas como um fenômeno regressivo. Em outras palavras, o desejo de ser amado não é satisfeito e "regride" ao desejo de ser nutrido.


Para a medicina esotérica, entretanto, esta é uma explicação demasiado simplista e genérica, pois não leva em conta o conteúdo energético e dinâmico da afetividade, ignorando, como é óbvio, a existência de "centros de força" que acumulam e exprimem as diferentes energias do homem.


Já a explicação esotérica, pelo contrário, é muito mais clara e satisfatória, já que visualiza o homem como um agregado de energias, e a saúde como o funcionamento correto, harmonioso e coordenado destas energias sob a orientação do autêntico centro de consciência: o Si.


Voltando ao tema da congestão, as causas externas, portanto, são as geradas peias circunstâncias e pelo ambiente, impedem um equilibrado uso de todas as nossas faculdades, obrigando-nos à unilateralidade.


As causas internas, pelo contrário, são de natureza psicológica e se acham na dependência dos nossos defeitos de caráter, da nossa índole, das nossas próprias deficiências (preguiça, falta de vontade, egoísmo, desilusão, medo etc).


Pode acontecer, por exemplo, que uma pessoa seja muito sensível, afetiva, capaz de amor e de altruísmo, mas não se sirva destes dons por preguiça, falta de confiança em si mesma ou timidez. Ou então, é possível encontrar um indivíduo muito inteligente, com notáveis faculdades mentais, mas que não aproveita este seu desenvolvimento intelectual, por ser uma pessoa indecisa, débil, desconfiada...


Todavia, estas faculdades estão presentes, sob forma de "energias" que correspondem a ambos os veículos sutis do homem e tendem continuamente à expressão, pois a própria palavra com que as indicamos (energias) significa que não são passivas ou estáticas, mas vivas e dinâmicas.


Quero lembrar aqui que os três veículos da nossa personalidade são simplesmente instrumentos que devem receber e utilizar energias que provêm do Si e, de fato, refletem os três aspectos espirituais do Si, Vontade, Amor e Inteligência Criativa, justamente como os três centros superiores do corpo etéreo que examinamos no capítulo dois. E esta é a razão pela qual estes três corpos são também chamados veículos de expressão.


Portanto, quando estão suficientemente desenvolvidos e organizados, exigem a sua utilização.

Freqüentemente, o homem se sente infeliz, insatisfeito, deprimido sem saber por quê. Atribui a sua infelicidade a causas diversas e procura de qualquer maneira um remédio: porém, não consegue a tranqüilidade, ao passo que, se "conhecesse a si mesmo", no verdadeiro sentido da palavra, isto é, se soubesse efetivamente o que vem a ser o homem, a sua constituição psíquica, as verdadeiras exigências que o pressionam de dentro, poderia encontrar o verdadeiro remédio e evitar angústias e sofrimentos, que podem redundar em doenças físicas reais.


Uma pessoa que tem "congestões psíquicas" está sempre tensa, irritadiça e agitada. As regiões psíquicas onde as energias estão bloqueadas inflamam-se e esta inflamação vai se descarregar sobre as áreas físicas correspondentes, produzindo uma hiperatividade dos órgãos ou das glândulas envolvidas.


A hipertensão, por exemplo, é provocada pela congestão, como também o hipertireoidismo, a hipersecreção gástrica, a hiperglicemia, o hipersupra-renalismo ... São todos efeitos do mesmo erro.


À medida que o indivíduo progride e os centros etéreos começam a se tornar mais ativos em decorrência do contato com as energias da Alma, é possível que sobrevenham congestões devidas a assim chamada "estimulação". Este é um fato que deve ser levado em consideração, pois acontece com bastante freqüência naqueles indivíduos que gradualmente vão se tornando receptivos às energias espirituais, as quais, em virtude de uma lei oculta, ao afluírem para a personalidade, acabam por rejuvenescer todos os centros, a começar pelos inferiores.


E por que isso acontece?


Porque as energias espirituais individuais tornam a percorrer o mesmo caminho percorrido pelas energias emanadas do Absoluto no momento da manifestação, constituído por uma descida, a involução, e depois por uma subida, a evolução. Não devemos esquecer a verdade esotérica fundamental de que o homem é um microcosmo que reflete o macrocosmo, logo reflete e repete as mesmas leis universais do cosmo.


Portanto, as energias espirituais provenientes do Si "descendem" e vão reavivar os três centros inferiores, tornando-os mais ativos e radiantes, de modo que o homem não somente percebe a sua existência como também a sua força, sendo levado, pela aspiração para o alto que o move, a sublimar estas energias, visando a fins mais elevados e espirituais. Nesse ponto, as energias "ascendem" e são canalizadas para a sua verdadeira finalidade.


Dessa forma, no início do curso espiritual é possível verificar a existência de fenômenos de congestão devidos a este rejuvenescimento dos centros, especialmente se a transferência das energias encontra dificuldades ou se desenvolve lentamente, provocando a formação de bloqueios.


O estímulo pode se verificar em qualquer um dos centros e produz distúrbios diversos, dependendo da área atingida. Às vezes, isso pode acontecer até mesmo como resultado de uma meditação bem-sucedida, pela proximidade de uma pessoa altamente evoluída que irradia energias poderosas, ou em determinados momentos de nossa vida, quando conseguimos entrar em contato com o nosso Si.

O estímulo, e a conseqüente congestão, indica, por outro lado, que a purificação da personalidade ainda não se completou, que ainda persistem impurezas, defeitos e obstáculos internos, sendo por isso que se diz que a luz do Si pode inicialmente também evidenciar negatividades, produzir crises e sofrimentos. De fato, nada mais se pode esconder quando começa a afluir na personalidade a vibração poderosa e esclarecedora de nossa Essência Divina.


Quando se verifica este fenômeno de "estímulo" de qualquer um dos centros, a conseqüência não é geralmente uma obstrução ou um bloqueio de energias, mas a sua utilização excessiva, a sua dissipação e, portanto, uma "hiperatividade" desse aspecto.


Por exemplo, se o centro "estimulado" é o plexo solar e, conseqüentemente, o aspecto emotivo, o indivíduo que sofre esse estímulo sentirá aumentar a sua emotividade, a sua sensibilidade. Nunca será capaz de se controlar e terá reações emocionais súbitas e descontroladas, desproporcionais à causa ocasional que as produziu. Ele próprio se surpreenderá com esse seu estado de excitação, de hipersensitividade, de reação emocional anormal, que o manterá em constante estado de agitação e tensão. Todos os sentimentos parecem aumentar de intensidade e o indivíduo se sentirá como uma panela de pressão prestes a explodir...


Se, ao contrário, o centro estimulado é o mental, a mente estará em constante e excessivo movimento, agitada por uma idéia após a outra.

Os pensamentos se amontoarão uns sobre os outros e o próprio indivíduo terá a impressão de que é capaz de pensar mais, de que tem maiores possibilidades de gerar idéias e projetos, mesmo originais e novos, muito embora a velocidade excessiva da mente os torne caóticos e desordenados e, portanto, quase sempre inutilizáveis.

Além disso, esse estado de "congestão" e estimulação mental comunicar-se-á ao cérebro físico, provocando vários distúrbios, como hemicrania, insônia, distúrbios circulatórios e sensação de calor na cabeça.

Com o passar do tempo, se esse estado persiste ou se repete com freqüência, pode haver um agravamento dos distúrbios, os quais poderão tornar-se crônicos e por conseguinte gerar uma doença circulatória ou renal. Se um determinado centro está continuamente congestionado, ele passará a funcionar de maneira desordenada, podendo ocasionar até mesmo uma "proliferação" de células em toda a área circundante, isto é, um tumor.


Portanto, se as energias não forem corretamente utilizadas e direcionadas, elas poderão se tornar um perigo para o homem; daí, a necessidade de nos conhecermos, de alcançarmos a harmonia e exercermos um certo controle sobre a nossa personalidade.


O homem tende a atribuir os seus males e sofrimentos a forças exteriores, ou então a um destino adverso ao qual a humanidade estaria condenada, ignorando (ou não querendo saber) que, na maioria das vezes, é ele mesmo o artífice de seus males e que o destino nada mais é que a manifestação de uma lei de equilíbrio, por ele mesmo acionada. Além disso, desconhece que os homens, na realidade, estão todos relacionados por fios invisíveis, por correntes de energias que fluem de um para o outro, e que, portanto, o mal de um é também o mal de outro, e que o erro de um indivíduo pode contagiar os outros, pois na realidade não há separação no campo das energias sutis, mas um contínuo intercâmbio.


Retornando agora ao exame desse assunto, podemos concluir dizendo que a tendência a sofrer fenômenos de congestão depende, conforme mencionamos em outras oportunidades, da tipologia psicológica característica do indivíduo; nesse ponto, delineia-se o problema, enfrentado até mesmo pela medicina psicossomática, da correlação entre personalidade e doença. Podemos dizer que, genericamente, os extrovertidos são mais inclinados à "congestão" e os introvertidos à "inibição".


O remédio quase sempre é alcançar o equilíbrio e a harmonia e a sábia utilização de todas as energias que temos à disposição sob a orientação e o controle do Si.


Para chegar a isso é preciso passar por três fases:


1) o conhecimento de si mesmo;


2) a posse de si mesmo;


3) a transformação de si mesmo.


[Esta é a fórmula da técnica básica da Psicosintesi do Dr. Roberto Assagioli.]


A saúde física também é resultado desta harmonização, derivando do perfeito equilíbrio de todos os aspectos e energias entre si e com o centro.


A doença, como qualquer outro sofrimento do homem, é, portanto, um "sinal de alarme" que deveria ser examinado e estudado sobretudo como um fator indicativo de imaturidade de nossa parte, de um problema que precisamos resolver, e como uma possibilidade de purificação e de progresso.


Os distúrbios que derivam da "congestão", especialmente, revelam que não usamos as nossas energias de maneira correta e equilibrada, que há em nós funções já prontas para o uso que, no entanto, sufocamos e negligenciamos, ou então forças preciosas que desperdiçamos; e tudo isso porque não nos conhecemos ou não desejamos nos conhecer, já que estamos constantemente solicitados pela vida externa e continuamente voltados para o mundo objetivo: em outras palavras, somos demasiado extrovertidos.


É preciso, portanto, que nos habituemos a regular o movimento de progressão e regressão das energias que rege a vida psíquica, que mencionamos já no segundo ou terceiro capítulo, e a não nos excedermos de forma alguma, pois, como veremos, podemos incorrer também no erro oposto, o de ser por demais introvertido e produzir um outro tipo de distúrbio: o que deriva da inibição das energias.


DOENÇAS POR INIBIÇÃO

Antes de aprofundar-me na descrição dos vários distúrbios, mal-estares e doenças que podem ser causados pela inibição das energias, gostaria de me deter, ainda que brevemente, na palavra "inibição", a fim de tentar esclarecer satisfatoriamente o seu significado e as implicações nela contidas.


A definição dada a este termo pela Medicina esotérica é, conforme já mencionamos em outro capítulo, a seguinte: "Inédia psíquica, acúmulos de forças subjetivas que bloqueiam acorrente vital..." Todavia, como costumamos fazer, gostaríamos de relacionar a interpretação esotérica com a psicológica, para o que julgamos ser útil examinar também o ponto de


vista da psicanálise sobre o assunto. De acordo com a psicanálise, a inibição é um fenômeno que se verifica sob a camada da consciência, sendo por isso chamada de "inibição inconsciente" e definida como segue:


"Impedimento ou obstrução de origem psíquica, do qual o eu consciente não tem noção, de funções psíquicas e psicossomáticas."A inibição inconsciente de determinadas funções psíquicas tende a proteger o indivíduo de situações perigosas e, portanto, a preservá-lo do medo. A situação que gera medo pode também ser irreal ou não ser mais atual; nesse caso, a inibição inconsciente já não visa a uma finalidade racional. O perigo que se pretende evitar provém normalmente do Superego. Um instinto atingido pela inibição inconsciente não é mais percebido como tal. As representações e as lembranças que se relacionam ao instinto inibido permanecem no inconsciente: este fenômeno é denominado repressão." (De Princípios da psicanálise, de E. Weiss, p. 227.)


De acordo com o esoterismo, no entanto, a inibição tem um significado muito mais amplo, não resultando apenas dos mecanismos inconscientes de defesa ou dos temores relacionados a algum trauma do passado, mas podendo ser provocada pela tendência errada do indivíduo em reprimir-se, em controlar-se demasiadamente, seja por temperamento, seja por uma educação errada, seja por uma atitude imatura para com o ambiente...


Dissemos, num dos capítulos precedentes, que as pessoas introvertidas, por exemplo, são mais inclinadas à inibição do que as de outros temperamentos, justamente porque tendem a viver no mundo subjetivo, a evitar tudo o que significa exteriorização e expressão externa e, desse modo, a dirigir energias para o interior, num movimento de regressão.


De qualquer forma, seja qual for a causa da inibição, as conseqüências são sempre as mesmas, isto é, auto-intoxicação, perda de vitalidade ou bloqueio de energias que impede a função e a atividade de um órgão físico ou de uma faculdade psicológica.

Ao contrário da congestão, que ocasiona a hiperatividade de uma determinada função psíquica ou de um órgão físico, a inibição produz um estado de inércia, de frieza, de hipotonia geral e astenia. De fato, enquanto a congestão deriva de uma dissipação das energias ou da inutilização de uma faculdade já pronta para ser expressa, a inibição deriva de um "bloqueio" de energias e da manutenção de uma função, uma faculdade, um impulso para o estado imaturo e estático, impedindo o seu crescimento e a sua evolução


Não devemos esquecer que a inibição produz "regressão", ou seja, fuga para o inconsciente, e, portanto, eventualmente uma volta ao passado, como acontece com todos os distúrbios relacionados ao parassimpático, por isso os mal"estares e doenças provocados por esta atitude errada interessam sobretudo à vida vegetativa, à função da alimentação e à eliminação e digestão.


A anorexia nervosa, por exemplo, que é uma inapetência de origem psíquica, podendo ser ligeira ou então muito grave, é provocada por uma forma de inibição. Vejamos agora o que a medicina psicossomática tem a dizer a esse respeito. Alexander reconhece na anorexia nervosa "impulsos inconscientes de inveja e de ciúme inibidos pela consciência", devido a um forte sentimento de culpa que todos carregamos e que leva em seguida a uma espécie de auto-punição, que se exprimiria através do jejum.


A função da nutrição acha-se fortemente carregada de implicações simbólicas e de energias afetivas, pois na infância ela se relaciona com a necessidade de ser amado, protegido, curado. Além disso, pode haver em nosso inconsciente muitas lembranças traumatizantes que ainda exercem certa influência negativa, originando distúrbios não apenas na função de nutrição orno também na de eliminação, que, como se sabe, também se relaciona a estados afetivos. De fato, numa criança que acredita que não é amada pela mãe pode instaurar-se a prisão de ventre que tem um significado simbólico de protesto e rebelião. Tais distúrbios podem permanecer sem conseqüências graves, mas se se tornarem crônicos, poderão provocar verdadeiras doenças. A anorexia, por exemplo, quando demorada, leva a um estado de profunda astenia à anemia, a estados de desnutrição que podem desembocar na tuberculose, ou em outras doenças graves. Assim também a alteração das funções normais de eliminação pode levar à auto-intoxicação, a doenças do fígado e do pâncreas, a formas de colite etc.


De qualquer maneira, o processo de inibição de uma energia ou de uma função sempre gera uma profunda sensação de astenia, de abulia, de depressão, com ressentimento sobre o organismo físico, que o médico não sabe explicar, pois são somente funcionais... Tais ressentimentos são hipotensão, hipoglicemia, bradicardia, propensão para o cansaço etc.


É interessante observar o que se passa no sistema nervoso quando um dado impulso sofre inibição inconsciente. As várias fases do processo podem ser descritas da seguinte maneira:

1) Nos centros inferiores do cérebro (tálamo, hipotálamo e corpo estriado, que correspondem ao inconsciente) surge uma pulsão, isto é, um impulso instintivo que tende a chegar até o córtex cerebral, sede da consciência.


2) Uma barreira moral opõe-se a esta pulsão; reflexos condicionados inconscientes provocam o desvio dos impulsos nervosos (elétricos).

3) Tais impulsos elétricos nunca chegam, assim, ao córtex cerebral, e o sujeito não se dá conta deles.

4) Os impulsos, que atingem agora um formidável potencial, são então desviados para o sistema nervoso simpático, que passa a ser submetido a contínua excitação.


5) Entretanto, o impulso nervoso, cuja descarga consciente se vê impossibilitada, continua a pressionar o inconsciente. Provoca, então, novos impulsos, que são também recalcados... e que, por sua vez, são causadores de novas pulsões, novamente recalcadas.

Configura-se, assim, uma tensão interior. O sistema nervoso simpático é perturbado e provoca mal-estares a nível fisiológico (De O que é a psicologia, de Pierre Daco, p. 322).


Assim é o processo, tal como descrito pela medicina psicossomática. Segundo a medicina esotérica, a inibição, pelo contrário, atingiria não somente os impulsos instintivos inconscientes, mas também as faculdades de nível médio, e até mesmo as qualidades e energias de nível superior e espiritual, isto é, pode ser que ela venha a impedir a expressão não somente dos aspectos negativos da personalidade, mas também dos aspectos e energias inofensivas e lícitas, ou mesmo as de caráter elevado.


De fato, como já expusemos anteriormente, a doença pode-se instaurar em um organismo até mesmo em conseqüência da "inibição da vida da Alma".

E como pode se dar isso?

Isso acontece porque o indivíduo se identificou com o eu superficial e ilusório, tendo formado uma personalidade forte e integrada, que tem vontade própria e não abre mão do seu domínio às energias espirituais, à Vontade da Alma que tende sempre a fazer com que o eu inferior supere o egoísmo, a ambição, os interesses limitados e pessoais, e o levam a separar-se, a "sacrificar" o que é inferior pelo que é superior e universal...


Tal separação aparece como uma dolorosa renúncia à personalidade, quase como uma "morte".

Por isso, ela se rebela e se opõe encarniçadamente, sem compreender que não se trata de morrer, mas de nascer uma segunda vez. De fato, aqueles que despertam para a consciência do seu verdadeiro Eu, são os que se poderia chamar "nascidos duas vezes".


Mas o homem imerso na inconsciência prefere voltar as costas para a Luz, calar o apelo do Si e inibir os impulsos superiores, deixando-os cair no inconsciente.

Pode parecer estranho, mas existem pessoas que são mais maduras do que pensam e não querem aceitar essa maturidade, pois aceitá-la significaria mudar de vida, fazer escolhas, modificar atitudes, operar transmutações, renunciar ao orgulho pessoal...

Coisas que o eu pessoal, conforme já foi dito, recusa-se a fazer, pois, segundo as palavras de Sri Aurobindo formou-se já "o nó de obstinação do ego" (eu inferior), que opõe a maior das resistências à morte.


Assim são determinados conflitos internos, crises, com conseqüentes distúrbios e doenças, que se podem tornar também extremamente graves, a ponto de causar, em determinados casos, a morte, pois a Alma decide abandonar aquela forma que se opõe a sua evolução e que, portanto, não serve para as suas finalidades.


Podem-se portanto verificar:


I. Inibições de energias e aspectos inferiores;


II. Inibições de energias e aspectos de nível médio;


III. Inibições de energias e aspectos superiores.


A essa altura, nos perguntamos:


"A tendência à inibição indicaria um grau evolutivo superior ao das pessoas que têm tendência para a congestão?"

Não é nada fácil responder a essa pergunta, dada a dificuldade de julgar o grau evolutivo real de um indivíduo.

Além disso, existem aspectos inferiores e aspectos superiores tanto na inibição como na congestão.


Por exemplo, se a inibição se opõe aos instintos inferiores, é preciso saber se isso se deve a um mecanismo inconsciente de defesa e medo, portanto a um processo neurótico, ou então a uma escolha "consciente" do indivíduo, que reprime a exteriorização de determinados desejos e impulsos julgando-os negativos e nocivos à sua vida espiritual.


No primeiro caso, isto é, a inibição inconsciente devida à neurose, revela-se uma imaturidade, enquanto que, no segundo caso, a tentativa de superação, mesmo que parcial, indica um esforço evolutivo e aspiracional sem dúvida positivo.


Assim, no que diz respeito à congestão, se ela surge em conseqüência da utilização descontrolada e excessiva de energias e da incapacidade de autocontrole, indubitavelmente eta é sinal de um estágio evolutivo inferior; enquanto que se se verifica por um processo de "estimulação", de afluência de energias espirituais para um centro após uma meditação bem-sucedida ou um momento de grande elevação, ela indica que o canal está aberto, isto é, que o indivíduo se acha suficientemente evoluído por determinados amadurecimentos, necessitando somente de maior purificação e disciplina.


Portanto, há aspectos negativos e aspectos positivos tanto na inibição como na congestão, não sendo fácil dizer qual das duas indica maior maturidade espiritual.

Não devemos esquecer que a principal causa destas duas tendências, embora não a única, é o temperamento, o tipo psicológico a que o indivíduo pertence; este pode ser predominantemente extrovertido, com preponderância do consciente e do simpático (tipos simpaticotônicos), ou então predominantemente introvertido, com acentuação do inconsciente e do parassimpático (tipo vagotônico).


Esta subdivisão dos tipos psicológicos em duas únicas categorias, poderá parecer a alguns demasiado esquemática e simplista. De fato, ela deve ser encarada com certa elasticidade, pois existem também indivíduos, que poderíamos chamar "mistos", nos quais as duas tendências principais se alternam, com maior ou menor equilíbrio, além de "subtipos" difíceis de se catalogar, já que não têm um caráter bem definido por estarem ainda na fase de amadurecimento inconsciente...


O homem é um ser extremamente complexo, jamais estático; ele se acha continuamente em movimento, evolução e mudança, portanto também pode, no decorrer da própria vida, passar de uma tendência à outra.


De qualquer maneira, o único critério que, com amplas generalizações pode ajudar a nos entendermos e a resolver os nossos conflitos e problemas interiores, é o do movimento de introversão e extroversão da energia psíquica, que se baseia na polaridade psicológica do homem e reflete uma realidade universal.

A polaridade, de fato, pode ser encontrada em todos os níveis de manifestação, do microcosmo ao macrocosmo, e nos revela que tudo no universo corresponde a um grande ritmo, que é a batida do Coração do Cosmo, o "sopro de Brahma", como dizem os hindus.

O homem revive em si, psicologicamente, esta polaridade, experimenta-a, primeiramente com conflito e sofrimento, depois com equilíbrio e harmonia, alcançando a integração e a Unidade. Voltando agora à Inibição, é preciso considerar que:


a) a inibição pode ser consciente e voluntária, ou então inconsciente e involuntária;

b) a inibição pode atingir somente faculdades, energias e aspectos já ativos e desenvolvidos.

A inibição voluntária é a ação da vontade que explicita a sua faculdade inibidora, caso este em que ela deveria se chamar, para não ser confundida com a inibição inconsciente, "repressão consciente".


A inibição inconsciente, pelo contrário, é o efeito indireto dos mecanismos inconscientes de defesa, e instalou-se devido ao hábito da repressão, que pouco a pouco se tornou um automatismo inconsciente.


Freqüentemente, porém, pode acontecer que a inibição voluntária ou a repressão consciente se transforme em inibição inconsciente, justamente pela tendência inata da nossa psique de transformar toda ação repetida em hábito.


O que resulta destas noções sintéticas e incompletas sobre este erro na utilização de energias? Resulta que também neste caso, a origem do erro é a "falta de consciência", isto é, o fato de se julgar real o que é fictício, de se julgar autêntico o eu superficial, a máscara, que é justamente a personalidade, e confundir a falsa consciência deste eu, feita de condicionamentos e hábitos, com a "verdadeira consciência".


Por esse motivo, julgamos oportuno nos demorarmos no exame do complexo mecanismo da nossa consciência, a fim de tentar entender as relações que existem entre a região consciente da nossa psique e as suas áreas inconscientes razão porque dedicaremos o próximo capítulo a esse assunto.

Fonte:
Angela Maria La Sala Bata
Medicina Psico-Espiritual
Capítulo IV e V
Scribd


Ecologia Mental Por Leonardo Boff




A terceira, a Ecologia Mental, chamada também de ecologia profunda, sustenta que as causas do déficit da Terra não se encontram apenas no tipo de sociedade que atualmente temos.

Mas também no tipo de mentalidade que vigora, cujas raízes alcançam épocas anteriores à nossa história moderna, incluindo a profundidade da vida psíquica humana consciente e inconsciente, pessoal e arquetípica.

Há em nós instintos de violência, vontade de dominação, arquétipos sombrios que nos afastam da benevolência em relação à vida e à natureza.

Aí dentro da mente humana se iniciam os mecanismos que nos levam a uma guerra contra a Terra.

Eles se expressam por uma categoria: a nossa cultura antropocêntrica.

O antropocentrismo considera o ser humano rei/rainha do universo.

Pensa que os demais seres só têm sentido quando ordenados ao ser humano; eles estão aí disponíveis ao seu bel-prazer.

Esta estrutura quebra com a lei mais universal do universo: a solidariedade cósmica.

Todos os seres são interdependentes e vivem dentro de uma teia intrincadíssima de relações.

Todos são importantes.

Não há isso de alguém ser rei/rainha e considerar-se independente sem precisar dos demais.

A moderna cosmologia nos ensina que tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e em todas as circunstâncias.

O ser humano esquece esta realidade.

Afasta-se e se coloca sobre as coisas em vez de sentir-se junto e com elas, numa imensa comunidade planetária e cósmica.

Importa recuperarmos atitudes de respeito e veneração para com a Terra.

Isso somente se consegue se antes for resgatada a dimensão do feminino no homem e na mulher.

Pelo feminino o ser humano se abre ao cuidado, se sensibiliza pela profundidade misteriosa da vida e recupera sua capacidade de maravilhamento.

O feminino ajuda a resgatar a dimensão do sagrado.

O sagrado impõe sempre limites à manipulação do mundo, pois ele dá origem à veneração e ao respeito, fundamentais para a salvaguarda da Terra.

Cria a capacidade de re-ligar todas as coisas à sua fonte criadora que é o Criador e o Ordenador do universo.

Desta capacidade re-ligadora nascem todas as religiões.

Precisamos hoje revitalizar as religiões para que cumpram sua função religadora.

Por Leonardo Boff

Salutar só é quando... (Antroposofia)




Salutar só é, quando
No espelho da alma humana
Forma-se toda a comunidade;
E na comunidade
Vive a força da alma individual.

(Este é o motivo condutor da ética social)


Heilsam ist nur, wenn
Im Spiegel der Meschenseele
Sich bildet die ganze Gemeinschaft;
Und in der Gemeinschaft
Lebet der Einzelseele Kraft

(Das ist das Motto der Sozialethik)

Fonte: GA 40, p. 256. Trad. VWS.
sociedade antroposófica brasileira

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

As Doenças (Do ponto de vista Esotérico) / Parte 1/2




Do ponto de vista esotérico, as doenças, conforme já mencionamos, se devem a um estado de desarmonia e desequilíbrio entre "vida e forma", isto é, entre o Si, que é o Verdadeiro Homem, e os seus veículos de expressão.

Isso produz um desarranjo na sincronia vibratória entre as energias dos vários níveis psíquicos do homem.

Isso, no entanto, é inevitável, visto que o homem não tem consciência de sua verdadeira essência e, portanto, não se identifica com os veículos e é "vivido" pelas energias ao invés de vivê-las e usá-las conscientemente. Ele é como um robô, uma máquina, vítima de impulsos, desejos e exigências que provêm de sua natureza inferior, aos quais, portanto, está condicionado.

Semelhante ponto de vista do esoterismo concorda, de certa forma, com o da psicanálise, que afirma que o homem é vítima e sucumbe às instâncias que provêm do inconsciente até o momento em que ele toma consciência das camadas profundas de seu ser e se auto-realiza.

A via do progresso interior e da busca da harmonia, segundo um ponto de vista psicológico ou mesmo espiritual, é a do desenvolvimento da consciência.

Em outras palavras, é sair do estado passivo, condicionado e inconsciente de identificação com o eu superficial e ilusório para chegar ao estado de plena consciência, reencontrando-se autêntica do próprio ser.

A doença é, portanto, um dos efeitos inevitáveis do nosso estado de inconsciência e limitação, mas ela também é útil, visto que nos indica e nos revela os erros e as deficiências que se encontram em nós. Este é um aspecto extremamente importante do mal, aspecto que não deve ser deixado de lado.

De fato, a doença esconde uma "mensagem" que deve ser decifrada, já que, dependendo do órgão ou da função atingidos, há um problema específico, um conflito diferente, uma anomalia específica que deve ser localizada. Há, por assim dizer, uma "linguagem dos órgãos", um simbolismo que se deve interpretar.

Além disso, a doença, por seus efeitos, é purificatória e evolutiva, pois, uma vez resolvida, o conflito que a originou desaparece, e as energias mal dirigidas ou bloqueadas são canalizadas na direção certa, mesmo que temporariamente. De fato, poderia suceder uma recaída se tornássemos a cometer o mesmo erro ou não conseguíssemos dar um passo definitivo na direção de uma maior consciência.

O conceito básico que devemos sempre levar em consideração é o de que o homem é um agregado de energias de diferentes níveis vibratórios. Os veículos do homem, conforme já dissemos, são campos de energia utilizados pelo Si para fazer experiências sobre os vários níveis da manifestação.

O Si representa o centro estivei e firme em torno do qual "giram" os corpos sutis. O homem deve, portanto, encontrar um equilíbrio e uma harmonia entre as várias energias, e com isso fazer emergir este "centro" unificador.

Levando em consideração este conceito básico de "energia", poderíamos formular esta lei: "Todas as doenças derivam da utilização errônea das energias que se encontram em nós".

O erro na utilização das energias pode se verificar em qualquer um dos veículos: no corpo etéreo (contrapartida vital do físico denso), no corpo astral (veículo das emoções) ou no corpo mental. Todavia, as causas mais freqüentes localizam-se no corpo astral, que na humanidade média é o mais desenvolvido e o mais utilizado, sendo nele, portanto, que se geram os problemas e erros mais freqüentes.

Geralmente, a humanidade é movida pelo desejo e pelas emoções, reagindo emocionalmente, antes de mais nada, aos eventos. Por esta razão, o corpo é sempre agitado pelas emoções, perturbado e congestionado. Ansiedade, medo, paixões, desejos desordenados mantêm sempre em movimento as vibrações da natureza emocional do homem e se comunicam com o corpo físico denso através do corpo etéreo, e, como o centro de expressão das emoções no corpo etéreo é o "plexo solar", as perturbações que dele derivam interessam sobretudo à área que circunda o plexo solar, isto é, o aparelho gastrintestinal.

Sublinhamos as palavras ''através do corpo etéreo" porque são muito importantes. Elas nos indicam por que via se dá a relação entre corpo emotivo e corpo físico, e mais adiante veremos que esta via, que é o corpo etéreo, é extremamente importante. A relação entre Alma e corpo, entre Espírito e matéria se torna possível pelo corpo etéreo, que com as suas correntes de energia (nadis) e os seus centros corresponde exatamente ao sistema nervoso.

Sabe-se que os estados emotivos são estreitamente relacionados no sistema nervoso, sobretudo o vegetativo; existe até mesmo um ramo da medicina que estuda a relação entre as emoções e o sistema nervoso: a psicofisiologia.

A essa altura, é útil procedermos a um rápido exame de alguns dos pontos de vista da medicina psicossomática sobre os distúrbios derivados dos estados emotivos desordenados e agitados.

De acordo com Alexander, os estados emotivos têm grande influência sobre as funções vegetativas e podem provocar distúrbios, os quais se dividem em duas categorias principais:

1. Distúrbios que derivam de inibição da função do simpático.

2. Distúrbios que derivam de uma ativação desnecessária do parassimpático.

Sabe-se que as funções das duas partes do sistema nervoso vegetativo são respectivamente as seguintes: o simpático harmoniza as funções vegetativas internas com a atividade externa e prepara, portanto, o organismo para a luta, a fuga, a defesa etc. Ao fazer isso, inibe todos os processos anabólicos (por exemplo, a atividade gastrintestinal) e estimula a atividade cardíaca e pulmonar.

O parassimpático, ao contrário, rege a conservação e o acúmulo, isto é, os processos anabólicos (por exemplo, processos digestivos, o acúmulo de açúcar de reserva no fígado etc).

O simpático e o parassimpático, portanto, têm funções antagônicas que deveriam, no entanto, integrar-se e harmonizar-se reciprocamente, pois contribuem para manter o equilíbrio entre vida exterior e interior.

Em certo sentido, o simpático corresponde ao estado de vigília (e, portanto, ao consciente) e o parassimpático ao estado de sono (isto é, ao inconsciente).

Na verdade, até mesmo entre consciente e inconsciente há antagonismo, pois eles representam os dois pólos opostos da vida psíquica, os quais, porém, contribuem para manter o equilíbrio psicológico do homem.

Freqüentemente, porém, tal equilíbrio é perturbado por situações conflituosas, por estados de imaturidade, por complexos e repressões, por situações de estafa, a ponto de o estado emotivo ressentir-se disso e, conseqüentemente, também o sistema nervoso, do que geralmente derivam doenças psicossomáticas.

Sempre segundo Alexander, os mencionados distúrbios da função do simpático verificam-se quando ocorre uma situação de emergência na vida de um indivíduo, o que coloca o simpático em ação. As batidas cardíacas se aceleram, a respiração torna-se mais rápida, os músculos se tencionam como se preparando para uma luta etc. Às vezes, porém, quando se verifica a atrofia do instinto de auto-afirmação, a preparação esboçada não chega a se exteriorizar.

O organismo, caso este fato se repetir várias vezes, danificar-se-á com o tempo (distúrbios cardíacos, hipertensão, etc), pois não há um alívio para o estado de tensão.

Os distúrbios do parassimpático, ao contrário, verificam-se quando o indivíduo, ao invés de enfrentar a emergência com o preparo para a luta e para a atividade, sente impulso de pedir ajuda e proteção, agindo como quando era criança. Instaura-se nele uma regressão emotiva para um estado de dependência.

Em outras palavras, ao invés de ativar o simpático, que rege as relações com o meio ambiente, ativa-se o parassimpático, que tem uma função interna puramente vegetativa. É, portanto, um retrair-se do problema atual, quase uma volta à infância, e isto provoca distúrbios gastrintestinais (diarréia, colite, dispepsia, etc). Tal reação é chamada "síndrome regressiva".

Tais interpretações da medicina psicossomática são muito interessantes, pois nos confirmam o fato de que, analisando-se os nossos distúrbios e mal-estares físicos e remontando às causas psíquicas que os produziram, poderíamos ser ajudados no conhecimento de nós mesmos e tomar consciência das regiões ainda inconscientes da nossa psique.

De fato, como vimos, os distúrbios acima descritos derivam de mecanismos de defesa ou de repressão que se instalaram no inconsciente e que acarretam "uma utilização incorreta das energias" e, portanto, originam eventuais doenças.

Nos distúrbios em que se ativa o simpático e se produzem estados de tensão e preparação sem descarga, há uma congestão de energias.

Ao contrário, nos distúrbios em que predomina o parassimpático e há uma recessão emotiva, produz-se uma inibição de energias.

Estas duas palavras: congestão e inibição, sintetizam, de certa forma, todos os erros na utilização das energias.

Portanto, segundo a medicina esotérica, devem ser sempre levadas em consideração e compreendidas em todas as suas implicações.

A congestão é um acúmulo de energias que gera um estado de tensão e de conseqüente inflamação do órgão físico que se encontra naquela região, nas proximidades do centro correspondente e, conseqüentemente, todos aqueles distúrbios físicos e eventuais doenças que podem derivar de um estado de inflamação.

A inibição, ao contrário, que deriva da repressão e bloqueio das energias, impedindo a sua circulação e o seu livre fluxo, produz perda de vitalidade e, portanto, todos aqueles distúrbios que podem ser provocados por esta condição, até mesmo atrofia ou morte do órgão correspondente.

Na verdade, a inibição é definida do seguinte modo pela medicina esotérica: "... inédia psíquica e acúmulos de forças subjetivas que bloqueiam a corrente vital".

Toda vez que se verificar uma congestão qualquer, o estado psicológico correspondente é quase sempre o de uma tendência à irritação, à agitação, à ansiedade; sempre que, pelo contrário, houver inibição, o efeito psíquico é o de uma sensação de cansaço, de astenia, de depressão, de profunda inércia e indolência.

Não devemos esquecer que os dois ramos do sistema nervoso vegetativo, isto é, o simpático e o parassimpático, mesmo tendo funções aparentemente antagônicas, na realidade servem para manter o equilíbrio interno do homem sendo que nisso também se pode ver uma correspondência precisa, a nível fisiológico, daquilo que se verifica a nível psicológico.

De fato, neste nível temos o consciente e o inconsciente, os dois pólos da vida psíquica do indivíduo, que por suas funções correspondem, respectivamente, ao simpático e ao parassimpático.

Entre estes dois pólos deveria haver harmonia e equilíbrio, proporcionados por um fluxo e refluxo rítmico da energia psíquica semelhante às sístoles e diástoles do coração ou aos movimentos de expiração e inspiração.

O fluxo da energia psíquica que vai do inconsciente ao consciente é chamado progressão, e o que vai do consciente ao inconsciente regressão.

Em um indivíduo harmonioso e psicologicamente maduro, estes dois movimentos deveriam alternar-se ritmicamente segundo a lei de "enantio-dromia" (descoberta por Heráclito há centenas de anos).

Na realidade, este equilíbrio é muito raro, ocorrendo normalmente a preponderância de um ou de outro movimento, e conseqüentemente um estado de conflito, de desarmonia, de mal-estar, como acontece a nível fisiológico, devido ao desequilíbrio entre o simpático e o parassimpático, os quais exprimem justamente estas duas exigências do homem no sistema nervoso.

Esta polaridade reflete uma verdade universal. Na verdade, em todo o cosmo, em todos os níveis, existe uma dualidade e um ritmo de vida e morte, dia e noite, ativo e passivo, positivo e negativo, masculino e feminino...

É a grande respiração cósmica da criação, a batida do enorme coração universal a escandir o misterioso ritmo da vida.

Na realidade, o homem é um microcosmo que reflete em si o macrocosmo, e é por se conhecer que ele chega ao conhecimento das verdades universais e ocultas.

Voltando agora à medicina psico-espiritual, seria útil procurar saber se somos mais suscetíveis a distúrbios provocados por congestão ou por inibição, para o que deveríamos localizar em nós o movimento da energia psíquica e observar se nos inclinamos a dirigi-la mais para o exterior, no movimento de progressão (caso em que seríamos extrovertidos), ou mais para o interior, no movimento de regressão (caso em que seríamos introvertidos).

No primeiro caso, cometemos o erro de congestão que descrevemos acima. Neste tipo de erro de energias, podem incorrer não somente aqueles que tendem espontaneamente a usar o simpático para se prepararem para a luta, para a auto- afirmação, mas que em seguida não explicitam esta tendência por uma repressão inconsciente.

Os que não possuem autodomínio também incorrem nesse tipo de erro; os que não sabem controlar as emoções, as paixões e os desejos e, portanto, abandonam-se a eles descontroladamente.

A descarga exagerada de energia provoca distúrbios semelhantes aos originados pelo estado de "tensão sem alívio", isto é, inflamação, congestão e irritação do centro correspondente à energia utilizada.

De qualquer maneira, voltaremos a falar disso mais adiante, para nos de termos agora em algumas diferenças que existem nas conseqüências resultantes destas duas atitudes.

A utilização excessiva de uma energia não somente é nociva para nós como também para os outros, pois a hiperatividade de um centro e sua conseqüente congestão podem ser contagiosas. As vibrações agitadas, turbulentas, excessivas, irradiam e se propagam a outros, podendo gerar uma reação em cadeia, isto é, no nível físico, uma epidemia.

No segundo caso, já que as energias se dirigem predominantemente para o interior, há uma fuga da realidade, uma inadaptação à vida, um refugiar-se no inconsciente, além da possibilidade de regressão a estágios infantis e imaturos que deveriam ter sido superados.

Há uma inibição das energias, o que não chega, porém, a provocar congestão, pois a tendência é não colocá-las em atividade, do que resulta, portanto, astenia, perda de vitalidade, inércia e aridez psíquica. O indivíduo se fecha em seu mundo e evita os contatos, retirando as energias. Isso é muito nocivo, pois o homem também vive de relações, sendo o intercâmbio com o ambiente externo necessário e vital.

Tudo o que dissemos sobre a extroversão e a introversão limita-se naturalmente aos aspectos negativos destas duas tendências.

Como é óbvio, há também aspectos positivos e úteis em uma e outra. Por enquanto, todavia, nos interessamos pelos aspectos negativos, já que estamos examinando os erros na utilização das energias que podem provocar mal-estares e doenças físicas.

A meta do homem é alcançar o equilíbrio e a harmonia, portanto a condição de dualidade que o define é somente instrumental, pois a partir do atrito, da luta e, enfim, da harmonização das polaridades, surge o terceiro fator: a consciência.

A própria estrutura e constituição psico-espiritual do homem revela esta sua disposição para a síntese e a unidade. De fato, ele é uma criatura que pertence a dois reinos: o reino material e o espiritual, servindo de ponte entre os dois com os seus sutis veículos.

Eis por que é necessário que aprofundemos o conhecimento destes veículos, sobretudo do corpo etéreo, que por sua vez constitui uma ponte de natureza física, mas receptiva e sensível às energias dos outros níveis.

O que a ciência ainda hoje não consegue explicar, isto é, a relação entre corpo e alma, entre o psíquico e o físico, o esoterismo o faz pela teoria dos corpos sutis, que merece portanto ser atentamente examinada.

Fonte:
Medicina Psico-Espiritual
Angela Maria La Sala Bata
Capítulo III
Scribd

Quando uma criatura humana desperta...




"Quando
uma criatura humana
desperta
para um grande sonho,
e sobre ele lança
toda a força da sua alma,
todo o universo conspira a seu favor".

Goethe

domingo, 28 de novembro de 2010

Sono e Sonho pela Antroposofia




Durante o estado de vigília, os quatro membros da entidade humana fazem-se presentes: Podemos também dizer que o indivíduo, para constituir o seu ser, reúne, durante a sua vida, "substâncias" de quatro planos.

Essa aglomeração está longe de ser harmoniosa. Sabemos, por experiência própria, que nem o nosso corpo, nem a nossa alma, nem o nosso eu como ser moral, são perfeitos. Ao contrário, a nossa vida traz um desgaste constante dos vários membros da nossa entidade.

A própria consciência, os impulsos nocivos, as impressões feias, os alimentos impróprios, etc., prejudicam o organismo, ou seja, a parte constituída pelos corpos físico e etérico, produzindo perturbações dos sistemas digestivo, circulatório, etc., as quais podem até chegar à doença.

Mas também a parte anímico-espiritual pode sofrer efeitos nocivos: em contato com o mundo surgem desejos irracionais e impulsos negativos (ódio, inveja, cobiça) que prejudicam a própria "substancialidade" da alma e do espírito. Uma ação má deteriora o ego, uma cobiça excessiva afeta o corpo astral.

Para se regenerarem desse desgaste, os vários componentes do ser humano devem periodicamente afrouxar os laços que os unem, permitindo a cada um haurir forças renovadoras em seu próprio meio. Esse fenômeno constitui o sono. A inconsciência do sono é, pois, uma necessidade imperiosa para todo ser dotado de uma consciência desenvolvida.

Com efeito, durante o sono ocorre uma separação da parte anímico espiritual da parte físico-etérica. Aliviado da consciência, das sensações da vida anímica, o corpo descansa na cama, reduzido ao nível de uma planta, pois aparenta apenas funções vegetativas. Não se manifestam a consciência, a personalidade, os sentimentos e os pensamentos. Nesse estado inconsciente, forças e seres superiores penetram no organismo e o corpo etérico se regenera pela entrada de impulsos e forças provenientes do plano etérico universal.

O corpo astral e o eu se desligam do organismo durante o sono e voltam para as regiões das quais originalmente emanaram. Não devemos imaginar essa separação como simplesmente espacial. Durante essa sua permanência nos mundos superiores, o corpo astral e o eu recebem impulsos dos seres superiores que vivem nessas regiões. Ambos têm experiências notáveis, mas sem pensamento próprio porque o cérebro, instrumento do pensar ficou na cama e sem a possibilidade de se lembrar mais tarde dessas experiências (porque o corpo etérico, instrumento da memória, tampouco os acompanhou nessa viagem). Enquanto o homem aparentemente dorme, o seu eu está na realidade em plena atividade; mas só o clarividente pode observar esse fato.

Falei em seres superiores. Teremos ainda ensejo de ocupar-nos detalhadamente desses seres. Aqui bastará dizer que existem seres "bons" e "maus" - que a crença popular identifica como os anjos e demônios. Dos impulsos recebidos desses entes durante o sono dependerá o comportamento do indivíduo depois de despertar. Uma sabedoria antiga conhecia essas influências: os homens se deixavam inspirar durante o sono pelos deuses, pelas musas. Nos contos de fada autênticos encontramos a cada passo alusões à inspiração recebida nessas ocasiões.

Antes do adormecer e do acordar existe um estado de pouca duração, durante o qual o eu e o corpo astral estão "separados" do corpo físico, enquanto existe a ligação com o corpo etérico. O homem está, pois, em presença da sua "memória" (ligada ao corpo etérico) e pode exercer certas funções mentais (igualmente ligadas ao corpo etérico), mas faltam-lhe as percepções sensoriais claras, a plena consciência e o pensar racional que não podem prescindir do instrumento do corpo físico.

Certas experiências do eu durante esse estado, combinadas com reminiscências da memória, fazem surgir então os sonhos. O sonho constitui, pois, um estado intermediário entre o sono e a vigília. Ele é caracterizado por uma consciência reduzida, por imagens e formas do mundo exterior, porém sem lógica e clareza. O eu traduz suas vivências e recordações e em imagens simbólicas.

Desde tempos imemoriais o homem conhecia a natureza desse estado que possibilitava uma experiência velada de certas realidades espirituais. Daí a importância atribuída à arte de analisar os sonhos para conhecer a realidade espiritual ou para chegar à verdadeira personalidade do homem que se revela durante o sonho quando inexistem os tabus sociais e as barreiras que fazem com que o caráter se dissimule durante a vida normal.

Sem pretender sermos completos, podemos indicar alguns tipos relevantes de sonhos:

Em muitos sonhos, o homem é perseguido pelas reminiscências do dia. Preocupações e angústias o acompanham, problemas não resolvidos martelam seu espírito de maneira incoerente, certos impulsos (vingança, ódio, amor, cobiça) manifestam-se de modo irrefreado. Um sono repleto de sonhos dessa espécie não é regenerador, pois impede uma separação suficiente e benéfica entre o eu e a parte orgânica.

Muitos sonhos são determinados, no seu enredo, por influências do ambiente. Assim, podemos sonhar uma estória, que termina no tilintar agudo de uma flauta tocada por um dos personagens do drama onírico. Acordados, verificamos que o despertador provocou o tilintar no sono: eu recordo toda uma estória que o precede; e cujo final lógico é o tilintar. Isso prova que os sonhos não se desenrolam no tempo, mas são imagens instantâneas que somente ao recordar são mentalmente decompostas em várias fases sucessivas. Da mesma maneira, um incêndio no sonho pode ter por causa o calor excessivo provocado por um cobertor.

Há sonhos causados pelo próprio corpo. Uma refeição um pouco pesada, tomada antes de dormir, pode provocar pesadelos, e muitas vezes o próprio órgão pode aparecer sob uma forma simbólica (intestinos = serpente, dente = torre, sangue = água). Vemos mais uma vez que o sonho é simbolizador. A arte de interpretar os sonhos consiste, justamente, em descobrir a "realidade" que se traduz em símbolos.

Como já foi dito, os desejos mais íntimos do eu, reprimidos durante a vigília e sem possibilidades de subir à consciência, podem ter livre curso no sonho embora sob forma simbólica. Esse fenômeno figura nos fundamentos de muitas análises psicoterapêuticas.

Um tipo de sonho ainda mais significativo é aquele onde o indivíduo encontra pessoas vivas ou mortas, delas recebendo uma mensagem que amiúde se confirma, mais tarde, na realidade: uma pessoa ausente pode nos dizer no sonho que está doente ou morta; a notícia confirmatória chega poucos dias mais tarde. O que se torna patente, aqui, é uma experiência feita pelo eu, de uma realidade no mundo espiritual. Com efeito, a morte de qualquer pessoa é um acontecimento que se reflete naquele domínio. Transcendendo os limites do espaço, o eu vivencia esse fato e o sonho o transforma em imagem.

Finalmente, há pessoas que ao despertar sabem que no sonho lhes apareceu um ser espiritual superior com uma mensagem ou uma revelação, ou que elas "assistiram" a acontecimentos do futuro. São os chamados sonhos proféticos, que tamanho papel tiveram em tempos passados, desde os sonhos interpretados por José na Corte do Faraó (as vacas gordas e as vacas magras) até visões dos profetas (aparições de Serafins, Querubins, Anjos. etc.). Esses sonhos também têm papel importante na psicologia moderna (especialmente em C.G.Jung).

Não há adormecer ou despertar sem sonho; na maioria dos casos, porém, não o lembramos. Muitas vezes também, sem poder recordar um sonho concreto, acordamos com a certeza de ter passado um tempo num outro mundo.

Ao despertar, sonhamos muitas vezes com a volta ao corpo sob forma simbólica. Sonhamos, por exemplo, que voamos e nos aproximamos cada vez mais do chão, até bater nele. Nesse instante despertamos. Ou queremos entrar num edifício ou, por exemplo, numa torre. Não o conseguimos durante algum tempo, até que finalmente quase irrompemos nela à força e acordamos. Aqui o corpo é representado pelo símbolo da torre.

O sono, com a fase transitória do sonho, é, pois, um fenômeno que decorre de uma necessidade rítmica de todo o nosso ser. Compreende-se facilmente que sonos ou sonhos provocados artificialmente (narcóticos, hipnose, anestesia) não são, nesse sentido, "naturais", e perturbam o equilíbrio forças físicas e psico-espirituais.

Os três estados: vigília, sonho e sono correspondem a três graus diferentes de consciência.

Podemos dizer que o homem é homem somente quando, no estado de vigília, é plenamente consciente e lúcido.

A Antroposofia ensina que a consciência do animal é semelhante (embora não idêntica) à nossa consciência de sonho, enquanto a planta vive numa inconsciência total correspondendo ao nosso estado de sono. A consciência dos minerais - se é que podemos ainda falar em consciência - seria ainda mais apagada do que a do nosso sono mais profundo.

Existem também no próprio homem zonas ou sistemas diferenciados por vários graus de consciência; Rudolf Steiner teve a intuição genial da trimembração do organismo humano, cuja essência pode ser resumida da seguinte forma:

O homem é plenamente consciente em seu pensar e em suas observações sensoriais. A esse sistema, Rudolf Steiner chama de sistema neuro-sensorial, ensinando que ele está centrado na cabeça, muito embora o corpo todo possua percepções sensoriais. O pólo oposto é constituído pelas funções completamente inconscientes do metabolismo e da vontade traduzida em movimentos (o homem tem a representação clara dos motivos e do resultado almejado de um ato de vontade; mas o "funcionamento" e a realização do impulso volitivo lhe são completamente ocultos). Esse outro pólo constitui o sistema do metabolismo e dos membros. Ele atua em todo o corpo, mas seu centro está no abdome e nos membros.

Entre esses dois pólos, e com o grau de consciência intermediário entre a lucidez completa do sistema neuro-sensorial e a inconsciência do sistema metabólico-motor, acha-se o sistema circulatório (respiração, circulação), que tem por sede a parte torácica e que liga, por assim dizer, os dois extremos. A esse sistema corresponde a vida sentimental e um grau de consciência que equivale ao sonho.

Já que se falou, neste capítulo, de seres superiores, parece indicado dizer mais algumas palavras sobre esse assunto. O leitor desejoso de conhecer detalhes mais amplos deve consultar a obra de Rudolf Steiner.

Não existe religião que não fale de seres elevados possuidores de inteligência, conhecimentos e poderes superiores aos do homem. As divindades da mitologia hindu, grega e germânica são alguns desses seres; também nas religiões chamadas "monoteístas" (judaísmo, cristianismo e islamismo) existem arcanjos, anjos, demônios e diabos. Que são eles, uma vez serem nitidamente superiores aos seres humanos? O cristianismo, mantendo o dogma israelita "Deus é um", fala ao mesmo tempo de Anjos, Querubins, Serafins e outros seres respeitabilíssimos. Como explicar essa multidão de "deuses"?

Admitindo-se um caráter evolucionista do cosmo (voltaremos a esse assunto mais adiante) nada impede de imaginar, acima do homem, seres que possuam faculdades superiores, sem precisar, para sua existência, de um corpo físico. A experiência supra-sensível revela de fato, ao vidente, a existência de tais seres, e a Antroposofia contém descrições detalhadas dessas "hierarquias superiores". Com efeito, esses entes pertencem a vários níveis de evolução, cada um caracterizado por um novo grau de consciência, de faculdades e funções.

O nosso espírito humano é naturalmente incapaz de captar totalmente os estados de consciência desses seres. Apesar disso, é possível descrever-lhes certos aspectos. Mas em épocas passadas, certos indivíduos mais evoluídos tinham a capacidade de "perceber" esses seres e de ter contato com eles. A Antroposofia não pretende inovar nesse campo. O esoterismo cristão de um Dionísio Aeropagita já continha uma descrição pormenorizada dos "coros dos anjos", e o próprio São Tomás de Aquino repetiu essa doutrina com pleno endosso da sua própria sabedoria.

Rudolf Steiner soube completar os conhecimentos tradicionais a esse respeito, pela sua própria experiência. Ele mostrou a ligação íntima desses seres e da sua atuação no nosso mundo e sobre o homem. A "imanência" dessas entidades é total. Tudo o que se passa em nosso mundo resulta da ação e da influência de tais seres. Isso não impede que o homem, em determinado grau do seu desenvolvimento, consiga libertar-se de tal influência criando as condições para seu próprio livre arbítrio.

Imediatamente "acima" do ser humano encontram-se entidades que as várias religiões chamam de Anjos (em grego, Aggeloi). São entes cujo "corpo" mais baixo é o corpo etérico. Entre as suas múltiplas funções há aquela de constituírem elementos de ligação entre o homem e os mundos superiores. Cada homem tem, portanto, o seu "anjo", fato que se traduz no conceito popular de "anjo da guarda".

Os chamados Arcanjos (Archaggeloi) já não são dedicados a indivíduos, mas a povos e outros agrupamentos. Cada povo tem o "seu" arcanjo que lhe determina as características étnicas. Quando um povo se forma como tal (por exemplo, o povo suíço ou belga), o fato espiritual correspondente é que um arcanjo começa a atuar pouco a pouco sobre um certo número de indivíduos, fazendo nascer neles um espírito de comunidade e a sua diferenciação étnica e histórica dos outros povos.

Os Arqueus, ou "Espíritos de Época", são os líderes espirituais de toda uma época. Quando novos impulsos aparecem na história da humanidade, ao mesmo tempo, em todos os povos evoluídos, isso se deve à influência desses Arqueus.

Acima dos Arqueus existem os "Espíritos da Forma", ou Exusiai. São idênticos aos Elohim da Bíblia. Veremos. mais tarde. que o nosso "eu" nos foi originalmente "dado" pelos Exusiai.

Os "Espíritos do Movimento" ou Dynameis constituem a próxima hierarquia. São os regentes cósmicos de todos os ritmos e movimentos.

Os "Espíritos da Sabedoria" ou Kyriotetes permeiam de suas emanações tudo o que nos aparece como repleto de sabedoria, desde as formas harmoniosas da natureza até os grandes princípios da sabedoria cósmica que filósofos como Aristóteles ou astrônomos como Kepler ainda vislumbravam como que por intuição.

Os "Espíritos da Vontade" ou Tronos representam a vontade divina como impulso básico de todo o Universo.

Os dois grupos supremos, os Serafins (8) e os Querubins (9), fogem a qualquer análise humana. São os seres mais elevados ainda acessíveis ao ser humano e constituem a parte dos impulsos mais puros do amor, caridade e elevação da alma. O próprio Velho Testamento fala repetidamente desses seres por ocasião das visões dos grandes profetas.

Onde está "Deus" nesta hierarquia? Em que consiste a Trindade? O conhecimento humano não pode aspirar a abranger essas alturas da existência cósmica. Seria temerário fazer afirmações a esse respeito. Tentar descrever "Deus" já seria uma blasfêmia, e mesmo os maiores iniciados, como por exemplo, Rudolf Steiner, somente puderam aproximar-se dele com um balbuciar de humildade. Qualquer outra atitude seria de presunção e de prepotência. Aliás, a Antroposofia não promete revelar "tudo". Ela tem os seus limites e procura apenas alargar o nosso campo de observação. A Antroposofia é ciência, mas não onisciência. Se soubéssemos tudo, seríamos... Deus!

Mesmo assim, a obra de Steiner contém profundas revelações sobre o Mistério de Deus e da Trindade.


Texto:
R. Lanz
Noções Básicas de Antroposofia
sociedade antroposófica brasileira
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