segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Meditação pela Antroposofia / Parte 1/2




No início, pode-se falar uma oração; nesse nível, oração e meditação são a mesma coisa.

Na oração, dirijo meu coração para o divino.

No caso da meditação, o ponto de partida é a consciência e como lido conscientemente com as coisas.

Steiner recomenda pelo menos 5 minutos para esse tempo de calma interior. Eu acho que hoje deve ser mais do que 5 minutos; contando o preparo, pelo menos 15 minutos.


Rudolf Steiner dá três âmbitos onde se pode iniciar o caminho de exercícios. Mas a criação do espaço interior de 15 minutos, mesmo sem o conteúdo meditativo, já enriquece a vida.

No caminho antroposófico, o próprio caminho é a meta.

Quando se consegue criar esse espaço interior diariamente, já houve um progresso. Hoje há uma fraqueza de vontade. Não se devem dar passos muito largos, deve-se achar a medida correta, nem demais, nem de menos.


Quando se percebe que nem esses 15 minutos são conseguidos, devem-se diminuí-los. Por exemplo, conseguindo-se isso sistematicamente de manhã antes do café da manhã, pode-se querer prometer-se uma vez mais durante o dia, depois duas vezes. Se a intenção inicial é fazer isso durante o próximo mês e depois de três dias pára-se, isso é paralisante.


Há três âmbitos de exercícios que não podem ser incluídos nesses 15 minutos, mas devem fazer parte do cotidiano.


1.      Um exercício é observar, no âmbito da vida, por um lado os processos de crescimento, floração, desenvolvimento e, de outro, os processos de fenecer, de desaparecimento.

Por exemplo, observar numa só planta folhas novas e tenras e outras que estão amarelando e murchando. Num bosque, folhas se decompondo no chão, outras novas nas plantas.

Não se trata apenas de observar esses fenômenos, mas de prestar atenção aos sentimentos que surgem nessa observação.


Pode acontecer que, ao se observar algo brotando, o primeiro sentimento é que simplesmente não há sentimento.

Isso se deve ao fato de se ter uma tal quantidade de percepções sensoriais que se esquecem os sentimentos. Ainda se é um bebê nesta vida. Por isso deve-se olhar todos os dias para essa planta florescendo, até que se tenha algum sentimento.


Se só se registra o que se vê, permanece-se apenas na cabeça; são processos instantâneos. O sentimento precisa de tempo; nele ocorre um retardo do tempo.

Na vida meditativa é necessário desacelerar, passar de segundos para minutos. Na velocidade atual das pessoas, vive-se nos segundos. Andando-se de carro em São Paulo não se pode ir com calma – correr-se-ia perigo de vida.


Deve-se, portanto, criar durante o dia um espaço interior em que o tempo seja lento.

Assim penetra-se no âmbito supra-sensível. O que vemos na planta fisicamente é a ação das forças plasmadoras, supra-sensíveis, que fazem a planta crescer e fenecer. Acompanhando-se esse processo penetra-se no âmbito supra-sensível. Para quem conhece a Antroposofia, esse é um exercício preparatório para o conhecimento imaginativo.


2.    Exercitar a audição de sons da natureza.

Nesse exercício tenta-se dar atenção às fontes acústicas, da mesma forma que se observou a planta. Por exemplo, os ruídos da chuva caindo, de um riacho, de galhos batendo.

Tudo isso revela qualidades que, num primeiro passo, devem ser vivenciadas.

Num passo seguinte, deve-se atentar para o som animal, como o cacarejar de um galo, o mugir de uma vaca, o balir de uma cabra.

Cada um desses sons tem qualidades muito diversas, vinculadas com a essência do ser.

Não se espera de uma vaca gorda ruminando no pasto que ela faça hi hi hi! O muuu é muito mais redondo. Aqui se trata também de descobrir o supra-sensível no sensível.


Esses dois exercícios mostram um ponto essencial do caminho do conhecimento antroposófico: sempre se vincular ao mundo sensório, mas se reconhecendo a manifestação do supra-sensível.

Esse caminho é o do cultivo dos sentidos para se chegar ao espírito.


Há caminhos iniciáticos que desprezam o mundo sensorial. Esse não é de modo algum o caminho antroposófico.


3.    Cultivo da audição e da fala.

Em geral, quando alguém ouve outra pessoa falar e entende o conteúdo, fica satisfeito. Muitas vezes, enquanto o outro está falando já se está procurando a resposta.


Neste exercício, trata-se de se imergir no ouvir, deixando de lado o entendimento do conteúdo. Assim que algo como uma crítica aflora, deve-se deixá-la de lado. Com isso penetra-se cada vez mais na esfera do que se relaciona com o outro, pois na voz de cada pessoa vive algo de individual, da essência do mesmo.

Quando se faz um cultivo interno dessa capacidade de ouvir o outro, de repente tem-se um raio instantâneo da essência dessa outra pessoa.


Ao julgar-se, está-se dentro de si próprio.

Escutando o outro, não está-se em si próprio, mas no outro, na periferia de si. Está-se um pouco fora de si; conscientemente, mediante a própria vontade, adormece-se dentro do outro.

O caminho do conhecimento do supra-sensível é adormecer conscientemente. Ao adormecer normalmente esquece-se tudo: de manhã não há lembrança das vivências tidas durante o sono. O caminho do autodesenvolvimento consiste em adormecer-se conscientemente, soltar-se do próprio corpo conservando a consciência. A prática meditativa consiste em conscientemente escarnar-se da própria corporalidade.


Passemos aos conteúdos da meditação. Há dois grupos desses conteúdos:


1. Meditações em imagens, concentrando-se em objetos ou símbolos. Abrange os conteúdos relacionados com imagens produzidas por representação mental.


2. Meditações no decorrer do tempo, usando-se versos, frases, pensamentos. Todas as formas que decorrem na sucessão do tempo.


Vamos nos concentrar no primeiro tipo, usando a "meditação da semente", dada por Rudolf Steiner, no livro Como se Adquirem Conhecimentos dos Mundos Superiores.


Primeiro passo: "Observemos uma pequena semente de uma planta." É importante tratar-se de semente de uma planta conhecida. "Convém, diante dessa coisa insignificante, intensificar os pensamentos corretos e, através desses pensamentos, desenvolver certos sentimentos."

Importante: partir de algo sensório e, depois, desenvolver pensamentos e sentimentos. "Em primeiro lugar conscientizemos o que se vê realmente. Descrevamos a nós mesmos forma, cor, todos os demais atributos da semente." Portanto, o primeiro passo é a observação.


Segundo passo: "Depois, reflitamos sobre o seguinte: dessa semente nascerá uma planta multiforme se for plantada na terra." Agora vejo algo novo – é um pensamento de que no futuro, a partir da semente, poderá surgir uma nova planta. "Conscientizemos essa planta, estruturando-a a seguir na fantasia. ‘O que agora represento em minha fantasia as forças da terra e da luz mais tarde farão realmente sair da semente.’ "


Terceiro passo: Atividade de formar imagem interior. É necessário ativar a capacidade de formar imagens, e representar algo que vai ser e que ainda não existe.


Quarto passo: Ter sentimentos ligados ao que se está imaginando.


Quinto passo: Concentração mental.


Agora já se pode notar que habilidades são necessárias para a meditação e que já foram exercitadas nos exercícios precedentes:


1. Capacidade de observar detalhadamente.

Exemplo: Qual o aspecto de uma semente conhecida? Pode-se imaginar claramente uma noz?

2. Concentrar-se numa seqüência de pensamentos e ainda acompanhá-los de sentimentos.

Percebe-se que, aquilo que foi executado com sentimentos ao observar plantas desenvolvendo-se e fenecendo, vai voltar.

3. Atividade de criar imagens interiores, como o desenvolvimento da planta.

4. A capacidade de se concentrar, de não permitir que advenham outros pensamentos.


Pode-se notar como muitas capacidades devem ser desenvolvidas:


1. Como exercitar a capacidade de observação.

2. Como desenvolver a fantasia baseada no pensar.

3. Como desenvolver os sentimentos.

4. Como desenvolver a capacidade de criar imagens interiores.

5. Como aumentar a capacidade de concentração.


Tudo isso é essencial para a meditação.

Fonte:
Parte do texto da Primeira Palestra, em 31/07/2005
H. Zimmermann (Membro da diretoria da Sociedade Antroposófica Geral no Goetheanum, Dornach, Suíça)
Transcrição de duas palestras proferidas no Espaço Cultural da Sociedade Antroposófica em São Paulo, feita por Valdemar W. Setzer a partir da fala original e da tradução consecutiva de Sonia Setzer; observações do transcritor grafadas com [...]
Versão de 24/08/05
sociedade antroposófica brasileira
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