domingo, 1 de abril de 2012

Meditação para a Semana Santa / Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa (Antroposofia)


A Semana Santa nos oferece uma das mais poéticas e terapêuticas imagens para o desenvolvimento humano, sobre a qual podemos meditar e na qual encontramos estímulos para o aprimoramento do nosso caráter.

Quais são as leis de desenvolvimento humano que se evidenciam nos acontecimentos da Semana Santa?

A semana como unidade de tempo tem sua origem no Gênesis onde encontramos, do ponto de vista da tradição esotérica a descrição da criação do mundo em sete dias. 

Os dias da semana receberam seus nomes dos sete planetas que, na visão dos povos ancestrais regiam a ordem do universo e impulsionavam o desenvolvimento do ser humano e de todas as coisas.

“Façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos; resplandeçam no firmamento dos céus para iluminar a terra.”

“Faça-se o homem à nossa imagem e semelhança e que ele reine sobre toda a terra.” (1)

No estudo das leis que regem a biografia humana a influência das forças planetárias torna-se visível no desenvolvimento de um indivíduo, na passagem da puberdade para a adolescência. Nesta fase ocorre o amadurecimento da vida emocional. Do ponto de vista das leis biográficas, isto significa que na adolescência a alma humana, ao mesmo tempo que torna-se refém dos instintos, inicia o seu processo de emancipação, orientando-se por aspirações de liberdade e aprimoramento pessoal. 

Os 21 anos é considerado como o marco deste desabrochar da vida anímica própria sendo comemorado como um segundo nascimento, o que inicia uma etapa de humanização do indivíduo que vai culminar na autoconsciência plena, aos 42 anos. Nesta etapa o indivíduo pode intensificar a consciência de si na medida em que educa e coloca sob sua liderança os potenciais associados às qualidades planetárias.

No ciclo de lendas do Graal que reúne as mais belas sagas medievais de desenvolvimento humano, os sete planetas são citados por seus nomes originais no momento em terminam as privações do heroi Parsifal :

“Zval, Almustri, Almaret, Samsi, Alligafir, Aklkiter e Alkamer, Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua."

“Eles são os esteios do firmamento, pois com seu movimento retrógrado impedem que sua rotação seja demasiada rápida. Tudo aquilo que está contido na trajetória dos planetas e iluminados por sua luz estará ao teu alcance. Tuas penas se desvanecerão. Mas, evita os excessos pois o Graal e sua força miraculosa rejeitam as pessoas sem autenticidade.”

“Parsifal rejubilou-se com tal notícia. Tão feliz ficou que as lágrimas – essa água viva que brota do coração – lhe afloraram aos olhos. ” (3)

Entretanto, embora todas as qualidades planetárias encontrem-se potencialmente presentes no firmamento da alma humana, uma se destaca, caracterizando um determinado tipo humano.

Esta qualidade desperta por volta dos 12 anos e se apresenta como a força de liderança típica daquele indivíduo. A abordagem de desenvolvimento humano orientada pela antroposofia estuda os sete tipos humanos fundamentados nesta sabedoria antiga e a dinâmica que se estabelece na relação de cada um destes tipos, com o mundo.

Algumas das características dos Sete Tipos Anímicos:

Saturnino (Saturno)

É o tipo responsável, autoconsciente, pesquisador nato, orientado por princípios. Encara tudo com seriedade e profundidade e busca até a exaustão a essência e verdade das coisas. A sua vida interior pode tornar–se tão rica e intensa que ele tende a negligenciar o contato com o mundo externo e a tornar-se enfático e sisudo. As forças saturninas são necessárias quando se trata de desacelerar os processos anímicos desenfreados e são consideradas forças de resguardo da vida interna da alma.

Lunar (Lua)

É o tipo intelectual, mentalmente ativo que se destaca pela memória e acúmulo de conhecimento, que gosta de contribuir com o bem estar do ambiente e que valoriza os laços familiares mais do que todos os outros. Sua tendência a elaborar teorias faz com que muitas vezes perca o pé na realidade tornando-o uma pessoa facilmente influenciável e sujeita a devaneios. As forças lunares são necessárias para a preservação da saúde e para sustentar a vitalidade anímica imprescindível para o aprendizado .

Jupiteriano (Júpiter)

É o tipo dominante, sensato, benévolo, o lider nato que tem visão global e gosta de ordenar o caos . Tende ao formalismo, ao perfeccionismo, à imponência e a guardar uma certa distância dos outros. As forças jupiterianas são forças anímicas que se tornam atuantes nos processos de ordenação de pensamentos e sentimentos. São essencialmente configurativas e se tornam necessárias na busca de justiça e organização do mundo.

Mercurial (Mercúrio)

É o tipo amável, dinâmico, bem humorado, espontâneo, que tem um pensamento bastante associativo e grande capacidade de adaptação. Sua tendência a se deixar levar pelos impulsos, improvisar e a ficar no muro podem entretanto, caotizar o ambiente. As forças mercuriais possuem o poder de associar as diferenças e colocar em fluxo os processos que estão enrijecidos e estagnados sendo necessárias em todos os processos de mediação.

Marciano (Marte)

É o tipo agressivo, pragmático, realista, que se posiciona e fala o que sente, indo direto ao ponto. Tem grande capacidade de atuar em embates e vencer as adversidades. Tende a ser belicoso e a desencadear conflitos pois através deles tem uma vivência mais concreta de si próprio. As forças marcianas são necessárias em processos de transformação e reformulação que exijam coragem, decisão e coesão.

Venusiano (Vênus)

É o tipo estético, caloroso, querido, aquele que costuma levar em consideração os sentimentos dos outros e tem inclinação para a arte e a beleza. Tende a exagerar nos sentimentos, perder a objetividade e emitir julgamentos baseados em simpatias em antipatias correndo o risco de seduzir ou se deixar seduzir facilmente. As forças venusianas são forças de empatia e compaixão que precisam estar presentes em processos onde se tornam necessárias forças humanitárias.

Solar (Sol)

É o tipo radiante, cordial, positivo que consegue se apropriar e integrar todas as demais qualidades colocando-as a serviço da sua essência e do seu ideal. É um tipo especial e raro! As forças solares são as forças morais, éticas, altruístas e são necessárias em processos de integração e harmonização quando torna-se imperativo ir além das versões e pontos de vistas individualistas para criar conexão com uma dimensão espiritual da existência humana.

Os acontecimentos da Semana Santa

A Semana Santa começa no Domingo de Ramos e vai até o Sábado de Aleluia. 

No Domingo da Ressurreição, denominado Domingo de Páscoa (do hebraico Pessach = passagem) é o primeiro dia da passagem para o Novo Sol que será a Terra vivificada pelo Eu do Cristo.

Os acontecimentos da Semana Santa compõem uma via sacra que mostra como o Cristo humanizou cada uma das suas qualidades anímicas e colocou-as a serviço do seu Eu.

Domingo de Ramos

Master of de Monogram

No primeiro dia da Semana Santa, Jesus Cristo entra na cidade santa de Jerusalém, montado em um burrinho branco. Com brados de “Hosana” o povo o saúda com ramos de palmeiras. Cristo atravessa em silêncio a vibração popular. A força que emana dele reascende no povo a antiga clarividência, vivenciada nas festividades em homenagem ao sol. Na antiguidade, a palmeira era considerada o símbolo do sol natural. Entrar em Jerusalém montado no burrinho, tinha para o Cristo, o sentido de deixar clara a transição da antiga exaltação visionária desencadeada pelos elementos externos da natureza, para uma atitude interiorizada, fruto da presença de espírito, do Sol interior na alma individualizada. Internamente o Cristo sabe que aquele entusiasmo logo passará. É como o entusiasmo natural que logo se transfere para outra novidade, para outro acontecimento externo.

Segunda-feira Santa – Dia da Lua

A Purificação do Templo 1650
Jacob Joardaens - Louvre

Betfagé era uma aldeia cercada por figueiras consideradas por seus moradores, sagradas. Fora de lá que Cristo, no domingo de Ramos, mandara Pedro e João trazer o burrinho, também considerado um animal sagrado. Ali cultivava-se uma antiga forma de clarividência, ou seja, praticava-se “o sentar-se sob a figueira”, bem como uma série de exercícios físicos e contemplativos através dos quais se atingia um estado de extase.

Na manhã de segunda feira, ao retomar de Betânia à Jerusalém com seus discípulos, Cristo se aproxima da figueira e pronuncia a sentença: “Para todo o sempre, ninguém mais comerá destes figos”. Isto significava que, no dia seguinte a árvore estaria seca. Chegara o tempo em que o ser humano deveria trilhar um caminho espiritual fundamentado na autoconsciência, no livre arbítrio e na liberdade individual. Com a condenação da figueira, Cristo quiz cessar o antigo dom lunar das visões de êxtase.

Chegando mais tarde ao Templo que fervilhava de atividades comerciais, Cristo expulsou os vendedores devolvendo ao Templo sua condição de lugar sagrado e, aos peregrinos que chegavam de todos os lados para as cerimônias de Páscoa, a consciência de que aquela era uma casa de Deus.

Terça-feira Santa – Dia de Marte

Michelangelo
Afresco - Capela Sistina - Roma

Jesus volta a Jerusalém trazendo as oferendas para o ritual que antecediam a festa pascal.

No Templo, enquanto o povo o ouvia, seus adversários o abordam com questões que são verdadeiras armadilhas, para fazê-lo cair em contradição.

Cristo responde a cada uma das questões com parábolas que caem como verdadeiros golpes de espada sobre os sacerdotes e escribas que nelas se reconhecem como protagonistas. A cada parábola, Cristo reafirma a natureza espiritual do seu Eu, assumindo seu lugar próprio e colocando os adversários no devido lugar. Sem temor, pergunta por pergunta, a identidade espiritual do Cristo, vai se revelando. Sua força se intensifica. É uma luta intensa, travada em palavras e em intenções. De um lado, a intenção dos questionadores que, por desconfiarem dele queriam desmacará-lo. De outro lado, a intenção poderosa do seu Eu manifestando-se em toda a sua inteireza .

Neste dia, Cristo mostra que a maior das lutas é a batalha travada no interior, entre o medo e a vontade de colocar o Eu no mundo. Nesta luta interna, conquistamos os dons de Marte: a autenticidade e a coragem para enfrentar as adversidades.

Quarta-feira Santa – Dia de Mercúrio

Donatello - Madonna di casa
Pazzi Staaliche Museen - Berlin 

Ao entardecer daquele dia em Betânia, Jesus se reuniu com o seu círculo mais intimo na casa de Simão. Aproxima-se do Cristo, Maria Madalena que após ungir os seus pés com um óleo precioso, os enxuga com seus próprios cabelos. O gesto de Madalena provoca uma reação de crítica nos presentes e desencadeia a revolta que se acumulava na alma inquieta de Judas. Argumentando contra o desperdício em detrimento dos necessitados, Judas sai para se encontrar com os sumo-sacerdotes e concretizar a traição que o levará mais tarde ao suicídio.

É a segunda vez que Madalena unge os pés do Cristo. Na primeira unção ele dissera aos presentes: “Calem-se. Ela muito amou e muito lhe será perdoado”. Em relação a Judas, Cristo compreende que ele não desenvolveu forças internas para ordenar as suas impressões exteriores. A agitação interna de Judas flui para o mundo como revolta. Maria Madalena, entretanto, interiorizara as forças de amor que antes a arrastavam para o mundano. Estas forças anímicas fluem então para o mundo como devoção. Ambos são tipos mercuriais sempre em contínua atividade externa, sempre mobilizando tudo ao seu redor.

Marta, a irmã de Maria Madalena, é a terceira pessoa com qualidades mercuriais, também presente à ceia. Está sempre fazendo algo pelos outros, sempre na lida da casa. “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas. Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada.”(3)

Na quarta feira santa, Cristo acolhe na sua alma as forças mercuriais metamorfoseadas em paz interior, devoção e transformadas em capacidade de cura.

Quinta-feira Santa – Dia de Júpiter


Cai a noite de Pessach. Lá fora reina o silêncio enquanto todos estão em casa reunidos para a ceia do cordeiro pascal.

No convento da Ordem dos Esseus, no Monte Sion, lugar antigo e sagrado, reunem-se o Cristo e os Doze Apóstolos para também celebrarem o Pessach.

Antes da ceia, Jesus realiza o ato de amor humilde e singelo que para sempre irá tocar o coração dos cristãos: o Lava Pés. Ajoelha-se e lava os pés de cada um dos seus apóstolos, num gesto que é a síntese de todos os seus ensinamentos: “amai-vos uns aos outros”.

Segue-se a ceia e Cristo tomando pão e vinho, os oferece aos discípulos: “Tomai, pois este é meu corpo e este é meu sangue.”

Com este ato sacramental, Cristo intensifica o esforço volitivo da alma humana que quer acolher em si a sua essência espiritual. Ele traz a interiorização do Eu até o nível da aceitação do destino, até a comunhão com o espiritual, no intimo do ser.

Sexta-feira Santa – Dia de Vênus


Ecce Homo – Caravaggio 1600
Palazzo Rosso, Genoa, Italy
 

Na madrugada de quinta para sexta-feira, Cristo, ao ser identificado pelo beijo traiçoeiro de Judas enquanto orava no Getsemane, é arrastado e preso.

Ironizado, flagelado e coroado com espinhos, carrega sua cruz sobre as costas e é crucificado na colina de Gólgota.

Tendo se tornado suficientemente firme na sua alma, por possuir algo imensamente sagrado, suporta todos os sofrimentos e dores e carrega seu próprio corpo em direção à morte; une-se à morte e deixa como legado a mensagem de que a morte não extingue a vida do Eu.

Sábado de Aleluia – Dia de Saturno

Caspar David Friedrich
O altar de Tetschen (1807) 115 × 110.5 cm.
Gemäldegalerie
Dresden – Alemanha
 

“Temos à volta da Terra uma espécie de reflexo da luz do Cristo. O que aqui reflete-se como Luz do Cristo, é o que o próprio Cristo denominou de Espírito Santo. A partir do evento de Gólgota a Terra começa a criar a sua volta um anel espiritual que mais tarde se tornará uma espécie de planeta ao seu redor. Estamos diante do ponto de partida de um Novo Sol em formação.”(4)

Domingo de Páscoa – Dia do Sol

Matthias Grünewald 1483-1528
Painel do Altar de Isenheimer
Unterlinden Museum
Colmar – França
 

O espírito de Cristo penetra na Terra criando nela um novo centro luminoso.

O Ente nascido do cosmos
Oh, vulto luminoso!
Fortalecido pelo Sol no poder da Lua.
Tu és doado pelo ressoar criador de Marte
E a vibração de Mercúrio que move os membros.
Ilumina-te a sabedoria radiante de Júpiter
E a beleza de Vênus, portadora do amor.
E a interioridade espiritual de Saturno antiga dos mundos
Te consagre à existência espacial e ao desenvolvimento temporal (5)


Rudolf Steiner

Texto de Edna Andrade

Referências
(1) Gênesis 14 (2) Parsifal de Wolfram von Eschenbach livro XV – Editora Antroposófica (3) Lucas 10.41 (4) Rudolf Steiner (5) Rudolf Steiner
O Evangelho de João – Rudolf Steiner – Editora Antropósofica / Os Acontecimentos da Semana Santa – Emil Bock – Editora Nova Jornal / Seven Soul Types de Max Stibbe – Hawthorn Press
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