sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Musicoterapia: A música ajuda no desenvolvimento cerebral


Estudo israelense mostra que, ao ouvir Mozart, prematuros ganharam peso mais rapidamente. A música ajuda no desenvolvimento cerebral e, também, no auxílio do tratamento de diversas patologias.

Uma boa dose de Mozart não faz bem só aos ouvidos, mas ajuda a normalizar o metabolismo de crianças prematuras. Depois de expor bebês nascidos antes do tempo previsto a músicas do compositor austríaco do século 18, pesquisadores da Universidade de Telavive, em Israel, notaram que eles engordaram e se tornaram mais fortes do que o esperado.

Durante a pesquisa, os nenéns ouviam meia hora de música por dia. Depois da sessão terapêutica, os médicos Dror Mandel e Ronit Lubetzky mediam o gasto energético das crianças e comparavam à média de energia consumida quando estavam deitadas. Eles descobriram que, ao ouvirem o “concerto”, os bebês gastavam menos energia do que em repouso e, com isso, precisavam de uma quantidade menor de calorias para crescer rapidamente. Segundo Mandel, professor da Universidade de Telavive, ainda não está claro como a música afetou os pequenos pacientes, mas ficou evidente que eles se acalmavam graças às composições.

Por que Mozart e não outros compositores, como Beethoven, Bach ou Vivaldi? Mandel explica que isso ainda é um mistério e precisa ser estudado melhor pela ciência. Mas ele tem um palpite: “As melodias de Mozart são repetitivas e podem afetar os centros organizacionais do córtex cerebral”, disse ao Jornal Correio Brasiliense. Essa área, embora pequena, abriga mais de 20 mil neurônios e é responsável pelas funções cerebrais complexas, como a percepção dos sentidos, a resolução de problemas e a detecção das qualidades básicas do som, como o tom e a intensidade.

Os pesquisadores, porém, logo começarão a explorar outros tipos de música para verificar se provocam efeitos similares em bebês prematuros. Como o rap, por exemplo, também tem uma frequência repetitiva e pulsante, médicos da equipe de Mandel e Lubetzky acreditam que o estilo pode evocar respostas semelhantes. Em breve, eles esperam estudar que tipo de música as mães dos prematuros ouviam quando estavam grávidas. Os especialistas pretendem expor outras crianças nascidas antes da hora às mesmas melodias para verificar se há algum efeito. Segundo Mandel, a segunda fase do estudo vai incluir peças de música étnica, pop, rap e clássicos, como Bach e Beethoven.

“Os médicos estão conscientes de que a mudança ambiental pode criar um novo paradigma no tratamento de bebês que precisam do cuidado neonatal. Nosso principal objetivo é melhorar a qualidade de vida dessas crianças”, afirma Mandel. Segundo ele, o foco da pesquisa desenvolvida na Universidade de Telavive é quantificar os efeitos da musicoterapia para, então, criar um protocolo médico baseado na técnica.

Estimulação

Embora não sofram de nenhuma patologia, os primos Felipe, 5 meses, e Catarina, 1 ano e 7 meses, são frequentadores assíduos das oficinas de musicoterapia do Centro de Desenvolvimento Passo a Passo, em Brasília. Uma vez por semana, eles participam das sessões, com o objetivo de estimular o desenvolvimento. O psicólogo e musicoterapeuta Bruno Cesar Fortes explica que, até os 5 anos, as sinapses neuronais estão em formação e, se houver incentivos externos nessa fase, a potencialidade para algumas funções cognitivas serão mais ativadas.

Mãe de Catarina, a advogada Ana Paula do Nascimento conta que, desde que estava grávida, discutia com o marido as atividades de que a menina iria participar na primeira infância. “Acho que a musicoterapia ajudou a Catarina a ser uma criança mais segura. Ela encara mudanças com muita traquilidade e se adapta superfácil”, conta. “Meu marido não acreditava muito, mas, depois que começou a ver a desenvoltura da Catarina, nem precisei convencê-lo”, diz a enfermeira Juliana do Nascimento Simão, mãe de Felipe.

Na terceira sessão de musicoterapia, o bebê já interagia com Bruno, vocalizando alguns sons e batendo as mãozinhas no tambor. De acordo com o psicólogo, porém, não adianta apenas estimular o desenvolvimento cognitivo das crianças, se não for feito um trabalho voltado à afetividade. “Temos de priorizar o emocional porque a pessoa não vive sem atenção, carinho, afeto e proteção. Isso é o mais importante”, diz. Nas aulas com os nenéns, 20 minutos são destinados aos acalantos, canções mais relaxantes, nas quais os nomes das crianças são citados para reafirmar a identidade delas. “Cantar para o bebê é a estimulação do amor”, diz.

Autismo

A musicoterapeuta Clarisse Prestes, que trabalha com crianças autistas, ensina que, para cada objetivo clínico, há um tipo de abordagem mais indicada. No caso dos pacientes que atende, por exemplo, sons repetitivos podem ser uma experiência negativa. “Nem sempre a música faz bem. O leigo pode ignorar algumas coisas e fazer mal a quem está ouvindo. O autista tem comportamentos fixos e repetitivos. Se é colocado um cd na frente dele, e ele ficar repetindo a mesma música, esse comportamento estará sendo reforçado”, afirma.

Há dois anos e meio, Clarisse atende crianças com o problema. Ela explica que o autismo é uma patologia cíclica — há picos de melhora e piora —, mas que com a musicoterapia tem apresentado bons resultados. “A música tem esse jeito de perguntar sem ser invasiva. Quando a criança tem autismo, a primeira coisa que os pais fazem é tentar que ela fale, então já levam para o fonoaudiólogo. Com a música, o autista consegue se soltar mais por meio da linguagem não verbal, porque sente que não há toda essa cobrança”, diz.

Com a psicóloga Carolina Leão, do Hospital Regional da Asa Sul, Clarisse pretende apresentar um projeto à Secretaria de Saúde do Distrito Federal para a expansão do atendimento público a diversos tipos de pacientes. Carolina, que atende crianças no hospital, participou de oficinas de musicoterapia para estimulação na Universidade de Brasília. Ela conta que havia crianças com lesões cerebrais, para as quais a atividade teve um efeito surpreendente. “Elas desenvolveram a linguagem muito mais, comparando-se às crianças que não participavam do programa. O desenvolvimento geral foi acima do esperado”, diz.

Na rede pública do DF, a musicoterapia ainda é recente e está presente em três unidades — em um centro de saúde para adolescentes de Santa Maria, na área de gestantes de alto risco do Hras e para pacientes terminais do Hospital de Apoio. A técnica foi incorporada ao Núcleo de Medicina Natural e Terapêuticas de Integração da secretaria em 2008, por intermédio da nutricionista e musicoterapeuta Soraya Terra Coury, coordenadora do serviço.

No fim de 2007, ela ajudou a implementar a pós-graduação na área, oferecida pela Escola Superior de Ciências da Saúde do GDF. Atualmente, há duas turmas formadas, sendo que oito profissionais que frequentaram o curso trabalham na rede pública. Segundo Soraya, a ideia é expandir o serviço, mas, como há poucos servidores especializados em Brasília, por enquanto, só será possível levar a musicoterapia à pediatria do Hospital de Base. “É possível que o Hospital Regional também aumente o serviço, estendendo às crianças”, diz.

Entusiasta da técnica, Soraya conta que as aplicações são diversas: vão da prevenção de doenças ao auxílio na reabilitação de paciente. Para idosos que sofrem de problemas neurológicos, como o mal de Alzheimer, é uma ótima opção, pois, segundo a especialista, o ritmo, a melodia e a harmonia ajudam a reaver as conexões neurais perdidas. “O ser humano tem uma ligação com o som desde a vida intrauterina. Por isso, a música tão um poder tão grande de mobilizar”, afirma.

Método simples e com baixo custo

Um outro estudo divulgado no ano passado nos Arquivos de doenças da infância, publicação científica de Londres, também mostrou a influência da música na recuperação de prematuros. Segundo os autores da pesquisa, as canções ajudaram os bebês a ganhar peso mais rápido, o que foi considerado por eles um método simples, barato e eficaz de tratamento nas UTIs neonatais.

Por Paloma Oliveto

Fonte:
Correio Brasiliense
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