quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O corpo conta uma história





A SABEDORIA DO CORPO 
O corpo nunca mente, já que sua forma reflete quem somos por dentro. Se levamos a cabeça baixa, temos os ombros encolhidos, o peito fechado e os pés pesados, tudo isso pode mostrar sentimentos de debilidade e resignação. Ao contrário, se portamos a cabeça erguida, os ombros abertos, respiramos com facilidade e caminhamos com passos ligeiros, isso geralmente indica confiança e vitalidade. 

O modo em que nos apresentamos diante do mundo está condicionado por nossas crenças, medos e emoções, e os tecidos corporais adotam uma forma determinada para apoiar este estado mental. Nossos traumas físicos e psicológicos, nossas experiências, nossos pensamentos e sentimentos mais profundos e nosso caráter se manifestam através do padrão estrutural adotado por nosso corpo. É como Marilyn Ferguson assinala – “ao longo dos anos nosso corpo se converte em uma autobiografia ambulante que fala, tanto a estranhos como a amigos, das cargas e tensões de nossa vida.” As impressões de qualquer experiência negativa a que nos submetemos permanecem contidas no corpo como inércia, que acaba se tornando fixa pela impossibilidade de acesso aos recursos que nos liberariam delas, afetando a capacidade do corpo de expressar sua Saúde intrínseca. 

COMO SE INTRODUZ A INFELICIDADE NA CÉLULA? 
O fato de que os pensamentos e sentimentos têm uma relação direta com o corpo é cada vez mais amplamente aceito. Através de estudos científicos no campo da psico-neuro-imunologia têm sido descobertos uma série de mecanismos corporais através dos quais se estabelecem estas conexões. Por exemplo, foi descoberta uma relação entre nossos estados psicológicos e o modo como se ativa nossa resposta imunológica. Atualmente se sabe que existem uma série de mecanismos de feedback que traduzem experiências psicológicas em funcionamento físico. Uma investigação realizada pelo Dr.Pritbin na Universidade de Stanford demonstra a forma como padrões habituais de pensamento podem criar sulcos neurais no córtex cerebral. Os padrões mentais se convertem literalmente em sulcos anatômicos no cérebro, que influenciarão o modo em que o sistema nervoso central expressa sua motilidade e, desta maneira, afetando o movimento dos tecidos e fluidos relacionados com ele. 

FEEDBACK CIRCULAR:
 A fragmentação do movimento respiratório primário se correlaciona com uma fragmentação do funcionamento da totalidade da pessoa. Os padrões fisiológicos e as experiências emocionais se perpetuam mutuamente. A influência da mente na matéria e da matéria na mente parece ser um sistema de feedback circular, na qual um afeta o outro. À medida em que deixamos adormecidas as experiências psicológicas, os padrões corporais correlacionados se tornam fixos e influenciam nossas experiências. O que chamamos de ”consciência” e nossa expressão corporal são um continuum. Quando nosso continuum mente-corpo-emoção se alinha harmoniosamente, o Sopro da Vida se manifesta com integridade e equilíbrio. 

EXPERIÊNCIA EMOCIONAL:
 As lesões físicas podem estar associadas com emoções particulares. Se os tecidos se contraem para proteger-nos da tensão ou do trauma, os sentimentos que temos nesse momento podem permanecer como elemento presente na contração. As emoções fortes contribuem no desenvolvimento da inércia. A impressão que temos de uma emoção, frequentemente tem um papel significativo na manutenção de um padrão inercial. Deste modo, um fulcro pode incluir tecidos, fluidos e potências que se tornaram inerciais e, ao mesmo tempo podem conter emoções, sentimentos, crenças e pontos de vista que se mantiveram retidos. 

EXPERIÊNCIAS CONGELADAS: 
Mesmo sendo natural e inevitável experimentar sofrimento em nossas vidas, este pode se manter preso no corpo e continuar mostrando-se em ciclos repetitivos como experiências congeladas, se não somos capazes de nos liberar delas. Assim, levamos nossas experiências físicas e emocionais como se fossem uma bagagem extra que formará uma parte intrínseca de nossas vidas. Isso geralmente ocorre num nível inconsciente. Qualquer nova tensão que tenhamos que enfrentar, será influenciada pelo nosso condicionamento prévio. Como é sabido, “enxergamos o mundo de acordo com a cor das lentes que usamos”. Por isso nossas respostas ante situações novas parece um “disco arranhado” que segue reações pré-estabelecidas que nos mantém presos ao passado em vez de permanecermos abertos, no presente. Como consequência disso, nossa matriz original de saúde ficará fragmentada. 

REAÇÕES DESMEDIDAS: 
Algumas vezes, nossos traumas anteriores são estimulados com um mínimo de provocação. Se existe muita potência ou energia acumulada por trás de um padrão inercial, nossas reações poderão ser muito fortes. Se há também emoções intensas associadas a esse padrão, nossa resposta poderá ser como uma “bomba-relógio” preparada para explodir a qualquer momento. Deste modo, ao reestimular velhos traumas, nossas reações emocionais podem vir a ser desmedidase e desproporcionadas. Casos de extrema sensibilidade e frequentes explosões emocionais são bons exemplos. 

O PAPEL DO TECIDO CONJUNTIVO: 
A pesar da inércia psicológica poder ser manifestada em qualquer lugar do corpo, parece que o tecido conjuntivo desempenha um papel particularmente importante no armazenamento dessas experiências, como “memórias tissulares”. A interligação das fáscias ao longo do corpo oferece, frequentemente, um meio muito apropriado para o armazenamento das energias emocionais que se encontram retidas. Por exemplo, a raiva contida pode transformar-se em um diafragma restringido, com tensão no plexo solar, que, por sua vez, pode originar problemas digestivos ou dores nas costas. A interconexão das fáscias mantém esta situação. Quando acessamos estados de equilíbrio nos tecidos fasciais, as forças inerciais que mantêm este tipo de contração podem dissipar-se. Em geral, neste momento, as emoções surgem na superfície.

A MEMÓRIA DOS TECIDOS: 
Para resumir, podemos dizer que nossas emoções, atitudes e padrões de estrutura e função corporais, se refletem, se estimulam e se mantém mutuamente. As experiências emocionais e as crenças psicológicas dão forma aos tecidos do corpo e estes, por sua vez, nos predispõe a manifestar certas emoções e atitudes. O corpo e a mente se apoiam mutuamente. Quando os pensamentos e as emoções fluem livremente, nossas experiências acontecem de forma livre também, sem apegos. Entretanto, as experiências psicológicas repetitivas ou as que nos sobrecarregam emocionalmente podem tornar-se inerciais e, deste modo, armazenar-se no corpo em forma de memória nos tecidos. Segundo Ken Dychtwald, o corpo se transforma em um “armazém de emoções e crenças”. As forças inerciais que permanecem retidas podem manter as memórias nos tecidos muito tempo depois que o evento estressante tenha ocorrido. Desse modo as emoções seguem repetindo-se ciclicamente sem se resolver. Consequentemente um fulcro inercial pode estar composto por uma série de camadas distintas: uma contração que afeta o movimento dos tecidos e fluidos junto com emoções associadas que ficaram envolvidas pelos tecidos e, por sua vez, tudo isso pode estar sendo mantido por forças subjacentes que se tornaram inerciais. Muitas vezes as emoções e atitudes são os elementos que desempenham o papel mais importante na dinâmica dos tecidos. Essa inércia só conseguirá se dissipar se encontrarmos os recursos, o espaço necessário e as habilidades para liberar as experiências retidas. O elemento fundamental do tratamento craniossacral está em criar as condições que permitem a liberação dessas experiências. Para isso é fundamental acumular e favorecer a expressão de nossos recursos intrínsecos. Esse processo, às vezes, envolve a consciência da emoção associada com a inércia, mas nem sempre isso é necessário. Muitas vezes as coisas se dissolvem… se estamos prontos ou preparados para isso. Por outro lado, a repetição vivencial das experiências traumáticas, em vez de ser uma ação terapêutica, pode vir a retraumatizar-nos, se não temos os recursos para reviver estas experiências mantendo um claro sentido de nós mesmos.

MICHAEL KERN é Terapeuta Craniossacral, Osteopata e Naturopata e atende em Londres. É co-fundador da Fundação Educacional para a Terapia Craniossacral, na Inglaterra, professor do Colégio de Osteopatas, da Associação Internacional Cranial e da Universidade de Westminster. Também promove cursos de Terapia Craniossacral nos Estados Unidos, Suíça e Itália.

Fonte: Livro “Wisdom in the body - A Craniosacral approach to essential health”, de Michael Kern 
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