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terça-feira, 6 de março de 2012
Apego x Desapego
Os apegos são os anexos. Quanto mais anexos em um e-mail, mais peso.
Os anexos surgem com a palavra 'meu'.
Tornar-se desapegado é considerar que nada disso me pertence.
Acabar com a consciência de meu é acabar com todas as escravidões.
Considere-se apenas um tutor de tudo que lhe é dado em confiança.
Para ficar livre de situações indesejáveis e pensamentos negativos preciso desenvolver desapego.
Desapego não é indiferença, apatia ou falta de energia.
Desapego é um estado que vem da força e da paz interior.
Posso ser amoroso, feliz, cooperativo e ainda ter desapego.
O verdadeiro desapego interior é a habilidade de pensar com clareza e estar imune ao que as pessoas pensam e falam sobre mim.
Desapego me capacita a ter mais controle sobre o humor e o estado da minha mente.
Também me ajuda a ser mais eficiente no trabalho e diante das situações difíceis ou emergenciais.
Para ser desapegado preciso conhecer meus pensamentos e seus resultados.
Desapego co-existe com autocontrole, autodisciplina, e uma mente focada.
Desapego traz tal tranquilidade que circunstâncias externas não conseguem mais me perturbar.
Nem tudo acontece conforme o planejado.
Planos às vezes não funcionam.
Pessoas não agem como o esperado.
Tudo isso pode afetar meu espírito e enfraquecer minha motivação e fé.
Mas um estado emocional e mental desapegado me previne disso.
A pessoa que tem desapego não fica afetada diante dos obstáculos.
Ela continuará tentando a superação sempre.
Amar sem possuir, envolver-se sem depender.
O desapego abandona os rótulos e respeita a sinfonia das personalidades ao redor.
Elas revelam as riquezas da vida, desimpedidas dos nossos próprios desejos.
Desapego é como o sol que ilumina mas não domina as qualidades de cada um. À distância ele tenta libertar os conflitos da diversidade, mas permanece livre do efeito do resultado.
Brahma Kumaris
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Tai Chi
Tai Chi é uma arte marcial não combativa que contém em sua prática meditação e exercícios para beneficiar a saúde global do organismo.
É um dos componentes da medicina chinesa, composta também por acupuntura, acupressura, fitoterapia e massagem.
Utilizado na manutenção da saúde e alívio do estresse, o Tai Chi é também um meio de se buscar a longevidade e a consciência espiritual.
Indicação: O Tai Chi proporciona amplos resultados contra distúrbios ligados ao estresse. Pressão arterial, tensão e ansiedade são amenizadas pela sua prática. Há pacientes que se beneficiaram da prática do Tai Chi com melhoria de artrites e lesões.
Em longo prazo, diminui a incidência de problemas ósseos e da coluna.
Método: A base do Tai Chi é a prática da "forma", que consiste em um conjunto de exercícios lentos, harmoniosos e padronizados. Estas diferem-se de acordo com o estilo praticado - uns mais lentos e constantes, outros com ritmo variável. Assim, há formas breves e outras mais longas.
Os movimentos estimulam o relaxamento geral e a harmonia entre mente, corpo e espírito. Com caráter de autodefesa, todos são planejados para equilibrar o fluxo do CHI pelos meridianos bem como harmonizar o fluxo da linfa e do sangue.
Fonte:
verdor
Os ideogramas que compõe a palavra Tai Chi Chuan significam:
太, Tai significa "o maior", "o mais alto", "supremo", "absoluto".
極 (ou 极, em chinês simplificado), Chi (ou Ji) significa, original e literalmente, a parte mais alta do telhado - "cumeeira".
拳, Chuan (ou Quan) significa Punho, aqui simbolizando "soco", "luta à mãos livres" (desarmadas), "boxe"
Portanto, algumas das possíveis traduções literais de Tai Chi Chuan são: "Punho da Suprema Cumeeira", "Punho do Limite Supremo" ou simplesmente "Punho do Tai Chi". Como cada ideograma pode ter mais de um sentido, há outras formas de traduzir o termo além destas.
No Taoísmo, onde o Tai Chi Chuan teve sua origem, a "Suprema Cumeeira", ou "Limite Absoluto" tem a conotação filosófica de "Elevação", "Sublimação", "Purificação", resultante, entre outras, do desenvolvimento de um mecanismo de defesa emocional pelo qual tendências ou sentimentos inferiores se transformam em outros que não o sejam.
O Tai Chi também simboliza o "Cosmos" e a interação, dos princípios energéticos Yin e Yang, em constante mutação, sendo conhecida a sua representação pelo Tai Chi Tu (Diagrama do Tai Chi), mais conhecido no Ocidente como o "Símbolo do Yin-Yang".
O Tai Chi Chuan (em chinês: 太極拳 pinyin: Taiji Quan) é uma arte marcial interna chinesa, categoria nomeada em chinês de neijia (內家).
Este estilo de arte marcial é reconhecido também como uma forma de meditação em movimento. Os princípios filosóficos do Tai Chi Chuan remetem ao Taoísmo e à Alquimia Chinesa. A relação de Yin e Yang, os Cinco Elementos, o Ba Gua (Oito Trigramas), o Livro das Mutações (I Ching) e o Tao Te Ching de Lao Zi são algumas das principais referências para a compreensão de seus fundamentos.
Os textos clássicos do Tai Chi Chuan escritos pelos mestres orientam a:
Vencer o movimento através da quietude (Yi Jing Zhi Dong) 以靜制動
Vencer a dureza através da suavidade (Yi Rou Ke Gang) 以柔克剛
Vencer o rápido através do lento (Yi Man Sheng Kuai) 以慢勝快
Apesar de ter suas raízes na antiga China, o Tai Chi Chuan é atualmente uma arte praticada em todo o mundo. É apreciado no ocidente especialmente por sua relação com a meditação e com a promoção da saúde, oferecendo aos que vivem no ritmo veloz das grandes cidades uma referência de tranquilidade e equilíbrio.
Os criadores do Tai Chi Chuan basearam sua arte na observação da Natureza - não apenas na observação dos animais, mas no estudo dos princípios da interação entre os diversos elementos naturais.
Fonte: Wikipédia
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
A observação de si mesmo: a auto observação
A Auto Observação íntima de si mesmo é um meio prático para lograr uma transformação radical.
Conhecer e observar são diferentes. Muitos confundem a observação de si mesmo com o conhecer. Temos conhecimento que estamos sentados numa cadeira em uma sala; mas isto não significa que estejamos observando a cadeira.
Conhecemos que, num dado instante, nos encontramos num estado negativo; talvez com algum problema ou preocupados por este ou aquele assunto; em estado de desassossego ou incerteza, etc. Mas isto não significa que o estejamos observando.
Sente você antipatia por alguém? Cai-lhe mal certa pessoa? Por quê? Você dirá que conhece essa pessoa... Por favor!! Observe-a; conhecer nunca é observar, não confunda o conhecer com o observar.
A observação de si, que é cem por cento ativa, é um meio de mudança de si; enquanto conhecer, que é passivo, não o é.
Certamente, conhecer não é um ato de atenção. A atenção dirigida para dentro de nós mesmos, para o que está sucedendo em nosso interior, sim, é algo positivo, ativo.
No caso de uma pessoa pela qual se tem antipatia, assim porque sim, porque nos vem na gana e, muitas vezes, sem motivo algum, advertimos a multidão de pensamentos que se acumulam na mente, o grupo de vozes que falam e gritam desordenadamente dentro de nós mesmos, o que estão dizendo, as emoções desagradáveis que surgem em nosso interior, o sabor desagradável que tudo isto deixa em nossa psique, etc., etc., etc.
Obviamente, em tal estado nos damos conta, também, de que interiormente estamos tratando muito mal a pessoa pela qual temos antipatia.
Mas para ver tudo isto, se necessita, inquestionavelmente, de uma atenção dirigida intencionalmente para dentro de si mesmo; não de uma atenção passiva.
A atenção dinâmica provém, realmente, do lado observante, enquanto os pensamentos e as emoções pertencem ao lado observado.
Tudo isto nos faz compreender que o conhecer é algo completamente passivo e mecânico, em contraste evidente com a observação de si, que é um ato consciente.
Não queremos, com isto, dizer que não exista a observação mecânica de si; mas tal tipo de observação nada tem a ver com a auto observação Psicológica a que nos estamos referindo.
Pensar e observar são, também, muito diferentes. Qualquer sujeito pode dar-se o luxo de pensar sobre si mesmo tudo o que quiser, porém isto não quer dizer que se esteja observando realmente.
Necessitamos ver os diferentes "Eus" em ação, descobri-los em nossa psique; compreender que dentro de cada um deles existe uma porcentagem da nossa própria consciência, arrepender-nos de havê-los criado, etc.
Então exclamaremos: "Mas que está fazendo este EU? O Que está dizendo? O que é o que quer? Por que me atormenta com sua luxúria? Com sua ira?", etc., etc., etc.
Então veremos dentro de nós mesmos, todo esse trem de pensamentos, emoções, desejos, paixões, comédias privadas, dramas pessoais, elaboradas mentiras, discursos, desculpas, morbosidades, leitos de prazer, quadros de lascívia, etc., etc., etc.
Muitas vezes antes de dormir-nos, no preciso instante de transição entre a vigília e o sono, sentimos, dentro de nossa própria mente, diferentes vozes que falam entre si. São os diferentes Eus que devem romper, em tais momentos, toda a conexão com os diferentes centros de nossa máquina orgânica, a fim de submergir, logo, no mundo molecular, na "Quinta dimensão".
Os dois Mundos
Observar e observar-se a si mesmo são duas coisas completamente diferentes; com tudo, ambas exigem atenção.
Na observação, a atenção é orientada para fora, para o mundo exterior, através das janelas dos sentidos.
Na auto observação de si mesmo, a atenção é orientada para dentro; e, para isso, os sentidos de percepção externa não servem. Motivo este mais que suficiente para que seja difícil ao neófito a observação de seus processos psicológicos íntimos.
O ponto de partida da ciência oficial, em seu lado prático, é o observável. O ponto de partida do trabalho sobre si mesmo é a auto observação, o auto observável.
Inquestionavelmente, estes dois pontos de partida nas linhas acima citados levam-nos em direções completamente diferentes.
Poderia alguém envelhecer, engarrafado nos dogmas intransigentes da ciência oficial, estudando fenômenos externos, observando células, átomos, moléculas, sóis, estrelas, cometas, etc., sem experimentar dentro de si mesmo, nenhuma mudança radical.
A classe de conhecimento que transforma interiormente a alguém jamais poderia ser conseguida mediante a observação externa.
O verdadeiro conhecimento que realmente pode originar em nós uma mudança interior fundamental tem por baseamento a auto observação direta de si mesmo.
É urgente dizer aos nossos estudantes gnósticos que se observem a si mesmos e em que sentido se devem auto observar e as razões para isso.
A observação é um meio para modificar as condições mecânicas do mundo. A auto observação interior é um meio para mudar intimamente.
Como sequência, ou corolário, de tudo isto, podemos e devemos afirmar, de forma enfática, que existem duas classes de conhecimento: o externo e o interno; e que, a menos que tenhamos, em nós mesmos, o centro magnético que possa diferenciar as qualidades do conhecimento, esta mescla dos dois planos, ou ordens de ideias, poderia levar-nos à confusão.
Sublimes doutrinas pseudo-esotéricas, com marcado cientificismo como pano de fundo pertencem ao terreno do observável; não entanto, são aceitas, por muitos aspirantes, como conhecimento interno.
Encontramo-nos, pois, ante dois mundos: o exterior e o interior. O primeiro destes é percebido com os sentidos de percepção externa; o segundo só pode ser percebido mediante o sentido da auto observação interna.
Pensamentos, ideias, emoções, anelos, esperanças, desenganos, etc., são interiores, invisíveis para os sentidos ordinários, comuns e correntes; e, todavia, são para nós, mais reais que a mesa de refeições ou as poltronas da sala.
Certamente, nós vivemos mais em nosso mundo interior que no exterior; isto é irrefutável, irrebatível.
Em nossos Mundos Internos, em nossos mundos secretos, amamos, desejamos, suspeitamos, bendizemos, maldizemos, anelamos, sofremos, gozamos, somos defraudados, premiados, etc., etc.
Inquestionavelmente, os dois mundos, interno e externo, são verificáveis experimentalmente. O mundo exterior é o observável. O mundo interior é o auto-observável em si mesmo e dentro de si mesmo, aqui e agora.
Quem, de verdade, quiser conhecer os "Mundos Internos" do planeta Terra, do Sistema Solar ou da galáxia em que vivemos deve conhecer, previamente, seu mundo íntimo, sua vida interior, particular, seus próprios "Mundos Internos".
"Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses". Tales de Mileto - Inscrição no Templo de Delfos.
Quanto mais se explore este "Mundo interior", chamado "si mesmo", mais se compreenderá que se vive simultaneamente em dois mundos, em duas realidades, em dos âmbitos: o exterior e o interior.
Do mesmo jeito que nos é indispensável aprender a caminhar no mundo exterior, para não cair num precipício, não nos extraviar nas ruas da cidade, selecionar nossas amizades, não associar-se com perversos, não comer veneno, etc.; assim, também, mediante o trabalho psicológico sobre nós mesmos, aprendemos a caminhar no "Mundo Interior", o qual é explorável mediante a auto observação de si mesmo.
Realmente, o sentido de auto observação de si mesmo encontra-se atrofiado na raça humana decadente desta época tenebrosa em que vivemos.
Na medida em que perseveramos na auto observação de nós mesmos, o sentido de auto observação íntima irá se desenvolvendo progressivamente.
Fonte:
sábado, 19 de novembro de 2011
sábado, 27 de agosto de 2011
A Vida como um Jogo e um Desempenho de Papéis
Como regra geral, nós vivemos a vida mais ou menos como ela vem. Contudo, viver é na realidade uma arte e deveria ser a maior de todas as artes.
Cada arte tem suas técnicas específicas; do mesmo modo, a arte da vida tem suas próprias técnicas, e dominá-las é indispensável para praticá-la com sucesso.
Uma dessas técnicas é considerar a vida como um jogo e uma atuação teatral. Lidar com jogo não é fácil. O conceito de jogo é complexo, multi-facetado e difícil de compreender, ao ponto em que se poderia dizer que se brinca de esconde-esconde com quem quer que seja que tente identificá-lo e defini-lo. Huizinga, em seu livro "Homo Ludens" (Gallimard, Paris, 1951) lista os pontos de vista de vários escritores sobre o assunto.
Assim, o jogo foi considerado:
- Uma forma de descarregar um excesso de vitalidade;
- Uma maneira de encontrar relaxamento;
- Um treinamento para preparar-se para alguma atividade séria;
- Um meio para desenvolver o auto-controle;
- Um meio para dominar os outros;
- Uma tomada para o competir;
- Um método inofensivo de descarregar tendências prejudiciais;
- Uma atividade compensatória;
- Um substituto fictício e imaginário para a gratificação de desejos inatingíveis.
Cada um desses pontos de vista enfatiza um aspecto dos jogos, mas cada um é parcial, e este fato chama para uma observação preliminar: as funções de um jogo devem ser distinguidas a partir de sua natureza. Na verdade, a mesma atividade é ou não é um "jogo" de acordo com a atitude psicológica, a intenção, a finalidade que motiva o "jogador".
O esporte oferece um exemplo claro disto. Considerado etimologicamente, e em sua natureza pura e significado original, o esporte é jogo, lúdico, algo feito para a diversão. Mas hoje em dia muitas pessoas envolvem-se com o esporte de uma maneira cada vez mais "séria", e por razões como ambição ou recompensa financeira, que são incompatíveis com sua natureza intrínseca. Perde-se assim a qualidade do jogo e assume-se o caráter de trabalho. Quando se transforma em uma profissão, o esporte não é mais verdadeiramente esporte. Na realidade, não há nenhuma clara linha divisória entre o "jogo" e o "não-jogo" ou, mais precisamente, em qualquer atividade ostensivamente lúdica a proporção do que é jogo e do que é "sério" (no sentido estrito da palavra) é variável. Certamente, pode mudar durante a própria atividade. Isto é externalizado claramente no caso de crianças que, começando a lutar de brincadeira, ficam irritadas e a lutar pra valer. Jogar jogos de azar (de apostar) fornece um exemplo impressionante em que a proporção elevada da seriedade tende a minimizar o elemento do jogo. Onde o impulso de apostar se transformou em opressão, paixão obsessiva, o aspecto "brincadeira" desaparece.
Uma atitude verdadeira, uma atitude esportiva, visa "o jogar bem" ao invés do "vencer". São dois aspectos diferentes: ganhar pode depender de diversos fatores contingentes, tais como uma habilidade inferior do adversário ou condições favoráveis de um tipo ou de outro. O mesmo se aplica ao perder. O desportista genuíno não se sente obrigado a vencer às expensas do estilo, da boa forma e do "fair play". E, como nos demais campos do esforço humano, estar livre da preocupação de ganhar ou não, pode contribuir para a vitória!
Poderia ser acrescentado muito mais ao assunto de jogar jogos e suas funções na educação, na psicoterapia e na psicossíntese, mas eu me deterei em discutir um aspecto particular do jogo, interpretado em seu sentido mais amplo, isto é como um desempenho, ou uma atuação. O jogo e a atuação têm afinidades e diferenças. Uma afinidade é indicada pelo fato de que vários idiomas, além do Inglês, usam a mesma palavra ora com o sentido de jogar, ora com o sentido de atuar em produção teatral. O "jouer" francês e o alemão "spielen" são exemplos. As diferenças serão mostradas a seguir.
Atuar uma parte ou um papel na vida, na verdade vários papeis, constitue uma técnica da Psicossíntese de importância fundamental.
Pode-se certamente considerar como a técnica pivot da arte de viver, com a qual todas as outras são ligadas e na qual, em algum sentido, elas são dependentes. Inicialmente, esta afirmação pode causar surpresa e mesmo ser considerada como chocante, ou considerada uma atitude demasiadamente frívola.
Contudo, a observação desapaixonada de nós mesmos e dos outros, sem preconceitos e ilusões, revela - certamente forças acima de nosso reconhecimento - que cada um de nós desempenha, ou "atua" uma variedade de "papéis" na vida. Isto é inevitável, e tais papéis constituem o "enredo" de nossas relações interpessoais e sociais. Mas na maioria das vezes, nós interpretamos nossos papeis inconscientemente, sem estar cientes deles e nós os desempenhamos mal, desajeitadamente, como péssimos atores amadores.
Entre povos primitivos e em civilizações antigas, o jogo e os desempenhos teatrais tiveram um caráter sagrado e foram considerados como a maneira em que os deuses atuavam. Na continuidade desta tradição, a Representação da Paixão da Idade Média sobreviveu até hoje em alguns lugares, tais como Oberammergau, enquanto outras cidades, como Grassina, perto de Florença, as fizeram re-viver. A história deste caráter sagrado da "atuação" é amplamente documentado no livro de Huizinga.
Wagner também conferiu um significado profundo e uma finalidade espiritual ao teatro musical. Ele denominou alguns de seus dramas musicais "Buhnenweishestsiele", isto é, performances alegres e sagradas (ou consagradas).
A concepção da vida como uma performance no palco é antiga e difundida. Apesar de esta não ser a ocasião de seguir sua origem histórica, um ou dois pontos sobre ela tem uma relevância especial neste contexto. A própria manifestação cósmica tem sido considerada como um jogo, uma performance, uma dança divina. Assim, a "Dança de Shiva" aparece frequentemente em esculturas de templos indianos. A Bíblia, um trabalho de grande solenidade, contem a passagem: "Deus ludit in orbe terrarium".
Um soneto do filósofo Tommaso Campanella está numa linha similar. Aqui estão seu começo e fim:
"No teatro do mundo, nossas almas performam um disfarce,
escondendo-se atrás de seus corpos e de seu efeitos."
"Quando no final nós entregamos nossas máscaras à terra, ao céu e ao mar,
Em Deus nós distinguiremos quem fêz e disse a melhor coisa."
O escritor e dramaturgo russo moderno, Nicholas Evreinoff, enfatizou este aspecto da vida em seu livro "O Teatro da Vida", em que se detém em boa parte do texto sobre o que ele denomina o "instinto teatral". Ao dirigir-se ele prório ao "My God Playwright" (Meu Deus Dramaturgo), ele diz:
"Meu rosto e corpo são senão máscaras e fantasias com as quais o Pai Celestial vestiu meu ego antes de conduzi-lo paro o palco deste mundo, onde está destinado a atuar uma dada peça. Este verso, a peça a mim confiada pelo meu Produtor cósmico "Playwright", é uma peça difícil. Contudo, não negligenciarei minha tarefa nem queixar-me-ei. Como convém a um nobre e leal ator, eu devo invocar todas as minhas forças e desempenhar meu papel neste palco da melhor forma possível. E eu estou certo que o "Playwright" não deixará de recompensar meu esforços."
Em várias de suas peças, Pirandello explorou este tema, mas sua abordagem é pessimista. Ele caracteriza os aspectos fictícios, ilusórios e dramáticos da interação entre os papeis. Hermann Keyserling, ao contrário, na sua décima segunda "Meditação Sul-Americana", intitulado significativamente como "Divina Comédia", [Hermann Keyserling "Méditations Sud-Améncaines", Estoque, Paris - 1932] interpretou mais profundamente do que qualquer outro autor as relações entre jogo, performance e vida real.
Como uma técnica da Psicosíntese, a arte de atuar na vida é fundamentada na estrutura psicológica do ser humano. Isto é descrito em meu livro Psicossíntese: Manual de princípios e técnicas, Ed. Cultrix, São Paulo - 1982 [ou Psychosynthesis: A Manual of Principles and Techniques, Hobbs Dorman, New York - 1965 / Paper back Edition: Viking Press, 1971].
A produção de uma peça no teatro requer contribuições de três agentes principais e suas mútuas colaborações:
- o autor,
- o diretor e
- os atores.
No caso da "peça" que cada um de nós tem que interpretar no palco da vida, o autor é, ou deveria ser, o Ser mais Elevado ou "Transpessoal". Ele seleciona o tema, a tarefa, ou melhor, a peça que o personagem deve assumir e as cenas que deveria "representar". Deve ser notado que, via de regra, isso acontece sem a clara consciência do ego, ou "eu", uma vez que o "Self Transpessoal" opera a partir do nível da superconciência.
O "eu" consciente, o centro da consciência, é o diretor. Sua função é levar adiante o plano de vida que é revelado ao "eu" por etapas, através da inspiração, o alerta interior e as revelações das circunstâncias da vida. O sucesso da produção depende em grande parte do diretor, da compreensão do enredo da peça e situações, da sua aceitação destes e do cuidado e habilidade com que ele dirige o seu elenco.
Quem são esses atores? São as várias sub-personalidades criadas por cada e todo ser humano durante o curso de suas vidas.
No diagrama abaixo, três sub-personalidades são descritas. O círculo central representa a área do "eu" consciente, no qual uma parte de cada sub-personalidade penetra enquando sua maior parte opera sobre em um de seus níveis inconscientes.
1. O Inconsciente Inferior
2. O Inconsciente Médio
3. O Inconsciente Superior ou Supraconsciente
4. O Campo da Consciência
5. O Self Consciente ou "Eu"
6. O Self Transpessoal
Deve ser observado que as respectivas áreas do inconsciente descritas como ocupadas não são fixas na sua extensão, podendo cada sub-personalidade "subir" ou "descer" durante a atividade na qual está envolvida. Além disso, cada nível acomoda não somente uma sub-personalidade (como mostrado no diagrama para melhor esclarecimento) mas uma variedade delas.
Cada sub-personalidade executa uma função específica, ou, melhor dizendo, ela desempenha seu próprio "papel" na família e na vida social. A família cria os "papéis" do filho ou da filha, do marido ou da esposa, do pai ou da mãe. No ambiente da sociedade, os "papéis" correspondem à carreira ou ocupação de uma pessoa nas várias funções públicas às quais pode servir.
Expandindo a analogia teatral, vamos examinar primeiramente a relação autor-diretor, isto é, a abordagem entre o "Transpessoal" e o "eu" consciente. Estas relações são variadas. Infelizmente, até que certo estágio do desenvolvimento do indivíduo seja alcançado, esse relacionamento é distorcido geralmente pela falta da compreensão, das interpretações errôneas, da resistência e dos conflitos por parte do "eu". Este palco pode gradualmente permitir que o “eu” consciente reconheça seu próprio interesse em compreender a intenção do "Autor", para pôr-se de acordo com o ' Self ' e para cooperar com Ele.
Em seguida, há as relações entre o diretor e os atores. O sucesso da "produção" depende da autoridade e habilidade do diretor em realizar suas responsabilidades específicas: treinar os atores a melhor interpretar suas peças, traçar suas interações, etc. Em termos de vida, isto corresponde ao trabalho do "eu" consciente em desenvolver, em treinar e em harmonizar suas várias sub-personalidades de modo que aprendam a arte da cooperação uma com a outra.
Vem então os "ensaios" que correspondem ao "treinamento imaginativo"; isso deve ser submetido antes de executar qualquer "papel" na vida. Tais "ensaios" têm uma função aparentada àquela do jogo como uma preparação para a vida; este é um método que deveria ser empregado muito mais - e especialmente na família e na educação escolar.
De um ângulo um tanto diferente, um dos mais importantes e clareadores aspectos da analogia entre a atuação e a vida refere-se às relações entre a personalidade do ator, como ser humano, homem ou mulher, e os personagens que ele interpreta sucessivamente, sua "máscara" num sentido psicológico. Isto traz à tona uma importante e muita discutida pergunta: o quanto deve um ator se identificar com o personagem que está interpretando? Ou ele deveria manter-se psicologicamente - ou seja, emocionalmente - destacado da peça para permiti-lo aplicar seus recursos técnicos completos para o controle de sua interpretação? Que método faz o melhor ator?
Diderot despertou discussões vívidas sobre esta pergunta com a posição que ele tomou em seu livro, "The Paradox of the Comedian". Ele defendeu que a "sensibilidade extrema (no sentido emocional) pertence ao ator medíocre, enquanto a sua total ausência contribui para a formação de um ator sublime". Expresso dogmaticamente desta forma, essa posição incorreu em muita desaprovação, e deu forma a um tema de investigação científica. Entre vários investigadores, os professores Marzi e Vignoli entregaram um questionário a dezoito atores italianos proeminentes e publicaram os resultados de seu exame num artigo "The Expression of the Emotions on the Stage" (A Expressão das Emoções no Palco) publicado na Rivista di Psicologia - 1944-1945. Esses resultados indicaram que a extensão com que os atores se envolvem no contexto emocional dos personagens que eles interpretam varia amplamente. Alguns deles responderam que eles experimentam uma identificação parcial com o personagem. De acordo com Renzo Ricci, a emoção que um autor sente no palco assemelha-se às emoções reais, com suas reações psicossomáticas. Ele afirma que:
"Após preparar-se, o ator está no personagem, ou o personagem está nele. A fusão não está completa entretanto... até os momentos mais dramáticos, em que o ator abandona-se completamente ao papel do personagem".
Outros declararam que durante suas performances mantêm uma atitude de observação e crítica, e uma clara consciência deles próprios. Anna Proclemer vai além ao dizer:
"o ator deve sentir o personagem, mas não durante a atuação, quando o controle deve ser estabelecido para impossibilitar qualquer entrega à emoção".
Alguns como Ruggero Ruggeri e Elena da Venezia falam de uma separação, e a observação de Anna Torrieri carrega um significado particular a esse respeito:
"Para controlar a sim mesmo em qualquer situação de emergência na vida, para habituar-se a sim mesmo a um controle contínuo, é necessário tornar o "controle" no teatro algo habitual, quando o papel será vivido com o equilíbrio e o auto-controle que caracterizam a vida real".
Seria mais realísta dizer "deveria caracterizar".
Assim, estes atores mantêm sua auto-consciência individual distinta, apesar dos papeis que eles encenam no teatro, porém em diversos graus. Por meio da habilidade de preservar um estado de auto-controle e de auto-observação, eles estabelecem uma dicotomia entre a parte deles que observa e dirige e a parte que atua, e assim atingem a desidentificação. Suas afirmações são significativas por que elas são espontâneas e representam o fruto de sua experiência profissional, ao invés de opiniões guarnecidas de pesquisa psicológica técnica.
Vamos agora examinar como isso pode ser aplicado às funções que desempenhamos na vida, e quais conclusões podemos tirar disso. Nesta esfera também, podemos observar que os graus de identificação do "ator" com o "personagem" variam amplamente. Em geral, um ator "vive" o seu papel "instintivamente" (usando a palavra no sentido usual e não no sentido científico), ou seja, sob comando de impulsos interiores ou por reações ou respostas a estimulos externos e condicionamentos. Este fato provê a base para as concepções psicológicas que dizem respeito a seres humanos ativados por necessidades, direcionamentos e reflexos condicionados. Estas concepções, à quais as teorias comportamentais e reflexológicas estão enraizadassão, são extremamente unilaterais no sentido que elas importam somente ao que é menos "humano" na natureza do homem. Ainda assim, eles devem receber crédito por focarem este aspecto da natureza humana, e por nos tornar atentos a ela, ajudando-nos - intencionalmente ou não - a lidar com ela.
É verdade que a vasta maioria dos homens e mulheres se permite de ser controlados pelos seus "papéis", e frequentemente são tão influenciados por eles, que virtualmente não têm nenhuma vida autônoma, genuína e auto-consciente fora deles. Exemplos típicos são aquelas mulheres que se identificam inteiramente com sua função maternal e aqueles homens que apenas se sentem genuínos e importantes quando realizam sua função como oficial comandante, magistrado, diretor, e assim por diante. Existem também aqueles que se identificam com suas posses. Um proprietário de terras francês uma vez disse: "eu sou minha terra".
Existem razões importantes, entretanto, para não nos identificarmos tão proximamente com um único papel ou uma única função. Se nos restringirmos a um papel apenas, nos comprometendo totalmente a ele e concentrando todo o nosso interesse nele, limitamos gravemente toda a nossa capacidade de atender adequadamente outras funções que devemos realizar. O funcionário público, o profissional que dedica todas as suas forças ao trabalho terá pouco tempo e energia sobrando para atender propriamente à sua função como marido ou pai. Da mesma forma, a mulher que se identifica totalmente com a função materna não será capaz de preencher propriamente seu papel de esposa e arriscará o atrofiamento das suas potencialidades de experiência e expressão como um ser humano no meio social. Além disso, quando a realização da função à qual a pessoa tem se dedicado quase que exclusivamente torna-se impossível por força das circunstâncias (doenças, idade, perda ou separação do parceiro matrimonial ou do filho), uma séria crise pode ocorrer, um colapso que pode conduzir a doenças psicossomáticas ou mesmo suicídio. Em contraste, uma pessoa que tenha adquirido habilidade em distribuir os interesses vitais, auto-estima e energias entre os papeis que a vida lhes tenha atribuído, e que ela voluntariamente tenha aceito, estará em posição de encontrar compensações e, em alguns casos, de fazer um uso ativo de seus talentos e de assumir atividades que até então haviam sido negligenciadas ou deixadas de lado.
Por outro lado, há aquelas pessoas que mantém uma constante auto-observação durante suas atividades, e se submetem a uma frequente auto-crítica. Algumas delas, de fato, praticam isso em excesso permitindo, dessa forma, que sua auto-análise e criticismo inibam ou mesmo paralisem suas ações. Estas estão entre os extremamente introvertidos.
Também existem aqueles que conscientemente exercem um papel por motivos utilitários, para enganar e explorar ou por diversão. Mas isso não deve encorajar a crença de que a forma instintiva de viver é a única genuína, e que toda "atuação" consciente é vergonhosa. Essa noção falsa pode ser chamada de "falácia da hipocrisia", uma vez que iguala sinceridade com impulsividade descontrolada.
Em vez disso, existe uma maneira de "atuar" na vida que não somente é genuína e real, mas que o é num padrão tão elevado que às vezes pode se constituir numa obrigação.
Em geral, a diferença entre os dois estilos de vida pode ser comparada à diferença entre natureza e arte. Um estilo é viver "naturalmente", de acordo com os ditados do instinto, o outro é exercer a arte de viver, ou "vivendo como arte".
O correto relacionamento entre as duas formas é sinteticamente expressa no ditado: "A arte é baseada na natureza, mas a aperfeiçoa".
De um outro ponto de vista, pode ser dito que o valor ético e espiritual genuíno, e portanto o humano, de nossa conduta repousa na intenção que a anima, no objetivo ao qual é direcionada, e finalmente na sabedoria e na habilidade técnica que informa nossas ações.
Vamos agora aplicar o que tem sido dito acima para descrever o método que pode conduzir alguém a "desempenhar" bem o seu "papel" no palco do mundo.
O passo essencial consiste em tomar conhecimento do nosso ser verdadeiro, com o nosso "Self" e com o que realmente somos. Mas, a fim de atingirmos isso, devemos fazer uma viagem de descobertas para colocar em ordem os vários elementos que compreendem nossa personalidade, tomar conhecimento da "anatomia" e "psicologia" da nossa estrutura psicológica.
Esse é o significado real da velha, mas sempre tópica, injunção: "Conheça a ti mesmo". Sua realização demanda a desidentificação de nós mesmos dos muitos conteúdos da nossa psique e das nossas várias subpersonalidades. Isso nos habilita a reconhecer-nos como "uma identidade auto-consciente e permanente": o "eu" pessoal (auto-conhecimento) e o "eu" transpessoal (ou espiritual).
Há um exercício, o "Exercício de Desidentificação e de Auto-identificação", que é de muita ajuda no cultivo dessa atitude de "observador gentil". Este exercício é publicado no meu livro Psicossíntese: Manual de princípios e técnicas, Ed. Cultrix, São Paulo - 1982, capítulo IV [ou Psychosynthesis: A Manual of Principles and Techniques, Hobbs Dorman, New York - 1965, chapter IV, page 116].
Terminando a analogia teatral, a segunda fase é aquela na qual as sub-personalidades existentes são transformadas e treinadas pelo "diretor". É a esse estágio que as duas outras "senhas" adotadas pela psicosíntese se referem: Possua a ti mesmo e Transforme a ti mesmo. Todos as técnicas da Psicossíntese tem isso como objetivo.
Mas alguém pode perguntar: qual é o grau - a porcentagem, por assim dizer - de identificação parcial durante a ação?
Isso varia amplamente de acordo com o tipo de ação e o tipo psicológico da pessoa em questão; mas, em cada caso existe uma proporção ideal e pode ser encontrada e adotada.
Uma regra geral a aplicar quando uma nova função ou habilidade é desenvolvida é de dedicar a máxima atenção para ela no início, aprendendo-a e realizando-a com o melhor de nossa capacidade.
Como o inconsciente toma controle gradativamente, a prática reduz progressivamente a necessidade de acompanhar de perto a sua realização, enquanto a qualidade da performance melhora, com cada vez menos envolvimento emocional. Isso é análogo à forma com a qual os atores, tornando-se gradativamente familiares com o seu papel na peça, podem sustentar o decréscimo do seu envolvimento pessoal nela. Existe também um método eficiente, análogo aos ensaios de uma peça, que consiste na ação preparatória por meio de exercícios de "Treinamento Imaginativo".
O uso de todos esses métodos, no entanto, pressupõe uma auto-consciência clara e estável, o uso de uma vontade firme e decidida, e um senso de auto-conhecimento constante, como sujeito passivo e, ao mesmo tempo, como agente. Essa atitude pode ser tomada ao nível do "eu" pessoal, o ego, mas a forma mais eficiente é de estabelecer o contato e relacionamento com o "eu" Transpessoal, do qual o "eu" pessoal é uma emanação ou reflexão. A partir dessa Realidade elevada, nós podemos constantemente tirar a luz e a força requeridas para resistir a toda atração interna e externa, toda tentação e indução que costumam desviar-nos da nossa tarefa: para realizar a melhor atuação de que somos capazes no desempenho do papel que nos é atribuído, ou que nos escolhemos, no grande drama humano.
Por Dr. Roberto Assagioli
Artigo "Life as a game and stage performance: (role playing)" publicado por Roberto Assagioli em 1973. O artigo foi traduzido para o português por Luizete dos Santos Camargo.
(#) Roberto Assagioli, Dr.: (Veneza, Itália, 27 de fevereiro de 1888 - Capolona d'Arezzo, 23 de agosto de 1974). Médico, especializou-se em neurologia e psiquiatria. Estudou e manteve contatos pessoais com Sigmund Freud e Carl Jung. Em 1910, em Veneza, apresentou os ensinamentos de Freud à comunidade médica, sendo um dos pioneiros do movimento psicanalítico na Itália.
Na mesma época, por volta de 1910, Assagioli estabeleceu os fundamentos da Psicossíntese. Ele percebeu que havia a necessidade de alguma coisa além da análise. Era a necessidade de reconhecer as diversas partes da pessoa e de integrá-las num todo mais amplo, harmonizando-as através da síntese. Assagioli afirmava que, da mesma maneira que havia um inconsciente inferior, havia também um superconsciente. Ele o descreve como a Fonte Superior do Ser, que contém nosso potencial mais profundo, a fonte na qual se encontra o Projeto que o Ser veio desenvolver e manifestar nesse Planeta. Assagioli formulou suas descobertas numa abordagem que ele chamou de Psicossíntese.
Em 1926, fundou em Roma o Istituto di Psicosintesi. Com o advento do Fascismo na Itália, o Instituto teve que ser fechado. Logo após a guerra, Dr. Assagioli reabriu o Istituto di Psicosintesi em Florença (onde se encontra até hoje), além dos 14 Centros de Psicossíntese em diversas cidades italianas.
A partir de 1958 foram fundados, a nível mundial, o Psychosynthesis Research Foundation, nos EUA, o Centro de Biopsicossíntese, na Argentina e numerosos outros Centros na Índia, Califórnia, Canadá, Europa e Brasil.
domingo, 21 de agosto de 2011
A importância do Silêncio
Um dos nossos verdadeiros presentes numa vida corrida é um longo período de silêncio, um momento em que intencionalmente voltamos nossa atenção para longe da pressa das conversas e compromissos, imagens e mensagens, listas e obrigações, e silenciosamente nos sintonizamos com um espaço interior.
Para alguns de nós, o silêncio imposto foi uma punição em nosso passado; por exemplo, um pai pode ter dito: "Cale-se e vá para o seu quarto". O silêncio do qual tratamos aqui é uma escolha.
Esse silêncio é uma oportunidade para a descoberta, para encontrarmos coisas novas e diferentes. A ausência de fala é bastante diferente quando escolhemos não falar.
Silêncio não é falta de comunicação. Há uma linguagem sutil que nos conecta com os outros através dos olhos, com um sorriso, ou um gesto.
A fluência nessa linguagem sutil demanda nossa habilidade de observar os pequenos detalhes da vida.
Quando desenvolvemos nossa habilidade com essa linguagem sutil, descobrimos que somos menos dependentes dos instrumentos mecânicos que podem nos conectar, mas isso também pode fazer com que nos sintamos mais separados.
Ao entrarmos num espaço interno de silêncio, estamos nos sintonizando com o espírito da natureza e abandonando a tendência de sermos críticos.
O silêncio oferece a oportunidade para que eu identifique em mim mesmo as qualidades que possuem a capacidade de me transformar.
No silêncio, posso me conectar com a qualidade mais elevada do meu pensamento mais leve, mais claro.
A ação nasce das sementes do pensamento. As ações são os frutos dessas sementes.
O que será que existe no solo onde escolho plantar as sementes dos meus pensamentos? Violência ou paz? Raiva ou amor?
Essas escolhas são transformadoras.
O estado de consciência que atinjo no silêncio se conecta diretamente com a qualidade do meu entendimento.
Entender "no som" é um processo cognitivo, enquanto que entender "no silêncio" é mais sutil, resultando nas realizações que surgem de dentro.
Essas são experiências muito diferentes.
No silêncio, descubro minhas qualidades inatas, as qualidades que são intrínsecas de quem sou.
Aqui no silêncio posso tocar em meu eu eterno e passo a confiar nessa essência mais profunda.
A experiência do reconhecimento de minhas qualidades intrínsecas e singulares aumenta meu poder de receber.
No silêncio, toco em minha força interna e sinto confiança, fé, segurança, beleza, dignidade.
É a partir dessa base de força interna que minhas ações evoluem.
No silêncio, posso escutar o chamado de Deus, o chamado da natureza, o chamado daqueles que precisam.
O silêncio é um espaço interno de aprendizagem. Quando não entendo algo, continuo a me prender a isso.
Quando a aprendizagem acontece, posso me liberar e seguir adiante.
No silêncio, descubro a verdade ao me conectar com meu eu verdadeiro.
O silêncio aumenta minha capacidade de manter a fé internamente.
O silêncio é uma oportunidade de descansar no colo de minha própria grandeza.
Lembre-se de cuidar de si com a atenção especial que você daria a qualquer grande alma.
O silêncio é uma disciplina, não do fazer, mas do ser.
Usem esses pensamentos sobre o silêncio como uma bandeja de petiscos de entrada, pegando o que quiserem para sustentá-los ao entrarem num espaço de silêncio interior.
Texto de Mohini Panjabi
Brahma Kumaris
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
Meditação Atenciosa
Descubra sua sabedoria interior... ou apenas descanse...
Trata-se de uma técnica simples de desencadear um estado de relaxamento profundo de corpo e mente.
À medida que a mente se aquieta e permanece desperta você vai se beneficiar de um estado de consciência mais profundo e tranquilo.
1. Antes de começar, encontre um local silencioso em que não vá ser perturbado.
2. Sente-se e feche os olhos.
3. Concentre-se na respiração, mas inspire e expire normalmente. Não tente controlar ou alterar a respiração deliberadamente. Apenas observe.
Ao observar a respiração, vai ver que ela muda. Haverá variações na velocidade, no ritmo e na profundidade, e pode ser que ela pare por um momento. Não tente provocar nenhuma alteração. Novamente, apenas observe.
Pode ser que você se desconcentre de vez em quando, pensando em outras coisas ou prestando atenção aos ruídos externos. Se isso acontecer, desvie a atenção para a respiração.
Se durante a meditação você perceber que está se concentrando em algum sentimento ou expectativa, simplesmente volte a prestar atenção na respiração.
Pratique esta técnica durante quinze minutos.
Ao final, mantenha os olhos fechados e permaneça relaxado por dois ou três minutos.
Saia do estado de meditação gradualmente, abra os olhos e assuma sua rotina.
Sugiro a prática da meditação atenciosa duas vezes ao dia, de manhã e no final da tarde. Se estiver irritado ou agitado, pode praticá-la por alguns minutos no meio do dia para recuperar o eixo.
Na prática da meditação você vai por uma de três experiências.
Mas deve resistir à tentação de avaliar a experiência ou sua capacidade de seguir as instruções, porque as três reações são "corretas":
Você pode se sentir entediado ou inquieto, e a mente vai se encher de pensamentos. Isso significa que emoções profundas estão sendo liberadas. Se relaxar e continuar a meditar, vai eliminar essas influências do corpo e da mente.
Você pode cair no sono. Se isso acontecer durante a meditação, é sinal de que você anda precisando de mais horas de descanso.
Você pode entrar no intervalo dos pensamentos... além do som e da respiração.
Se descansar o suficiente, mantiver a boa saúde e devotar-se todos os dias à meditação, você vai conseguir um contato significativo com o self.
Vai poder se comunicar com a mente cósmica, a voz que fala sem palavras e que está sempre presente nos intervalos entre um pensamento e outro.
Essa é a sua inteligência superior ilimitada, seu gênio supremo e verdadeiro, que, por sua vez, reflete a sabedoria do universo. Tudo estará a seu alcance se confiar na sabedoria interior.
Fonte:
Deepak Chopra
Livro Saúde Perfeita
domingo, 9 de janeiro de 2011
Alimentação Consciente
Qualquer atividade pode ser meditativa, se você prestar total e cuidadosa atenção no que está fazendo.
Tome, por exemplo, um ato comum como o de se alimentar.
O método da alimentação consciente consiste em prestar cuidadosa e total atenção a cada aspecto da experiência.
Comece por se sentar imóvel, prestando atenção na sua respiração, observando a inspiração e a expiração.
Quando sentir que chegou a um estado de tranquilidade, comece a comer.
Procure comer muito lentamente, dividindo cada movimento, para que possa acompanhar cada nuance de sensação, som, sabor e gesto.
Por exemplo, ao colocar o alimento na boca, faça isso em uma velocidade que lhe permita observar o alongamento e a tensão dos músculos do braço e da mão, e a sensação da comida ou do garfo contra a pele.
Evite a tendência de preparar automaticamente a garfada seguinte enquanto não terminar de engolir o alimento que está na boca.
Explore a natureza visual e tátil do alimento que está comendo.
Se for um alimento que possa ser comido com a mão, sinta a sua textura contra as pontas dos dedos, observe a sua forma, cor e contorno.
Ele é duro ou mole? Áspero ou macio? Leve a comida lentamente até a boca.
Note o instante em que consegue sentir o seu cheiro pela primeira vez.
Se prestar atenção, vai notar que começou a salivar antes mesmo de ela chegar à sua boca.
Tome consciência do primeiro roçar do alimento em seus lábios.
A seguir, mastigue a comida lenta e deliberadamente.
Observe a sensação de seus dentes mordendo-a.
Registre o sabor, os sons, a infinidade de sensações criadas por cada mastigação.
Mastigue muitas vezes, até o alimento se tornar uma papa em sua boca, e só coloque mais comida no garfo depois de engolir.
Continue comendo com a mesma cuidadosa deliberação.
Mantenha a calma e a concentração durante todo o processo.
E..Bom Apetite!
Fonte:
Daniel Goleman
scribd
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A Natureza do Homem (Antroposofia) / Parte 1/2
As seguintes palavras de Goethe caracterizam admiravelmente o ponto de partida de um dos caminhos pelos quais se pode vir a conhecer a natureza do homem:
Tão logo o homem se apercebe dos objetos em seu derredor, considera-os com relação a si mesmo; e com razão, pois todo o seu destino depende da alternativa de que eles lhe agradem ou desagradem, atraiam-no ou o aborreçam, sejam-lhe úteis ou prejudiciais.
Este modo naturalíssimo de ver e julgar as coisas parece tão fácil quanto necessário e, no entanto, nisso o homem está exposto a mil enganos, que por vezes o envergonham e lhe amarguram a vida.
Tarefa muito mais árdua empreendem aqueles cujo vivo impulso para o conhecimento dos seres da natureza leva a apreciá-los em si mesmos e em suas relações recíprocas; pois logo dão por falta da norma que lhes vinha em auxílio quando, como homens, apreciavam as coisas com relacão a si mesmos.
Falta-lhes a norma do agrado e desagrado, da atração e repulsa, do proveito e dano.
Eles têm de renunciar totalmente a essa norma e como seres equivalentes e por assim dizer divinos, buscar e investigar o que é, e não o que agrada.
Assim, ao genuíno botânico não deve tocar nem a beleza nem a utilidade das plantas, mas sua formação, sua correlação com o restante mundo vegetal; e, da mesma forma como elas são atraidas e iluminadas pelo sol, ele deve contemplá-las e abrangê-las todas com um olhar sereno e imparcial, extraindo a norma para esse conhecimento, os dados para julgamento não de si mesmo, mas do âmbito das coisas que observa.
Esse pensamento expresso por Goethe chama a atenção dos homens para três coisas.
A primeira são os objetos cujas impressões lhe afluem continuamente pelos portais dos sentidos, objetos que ele apalpa, cheira, degusta, ouve e vê.
A segunda são as impressões que esses objetos causam nele, e que sob forma de agrado ou desagrado, cobiça ou nojo, caracterizam-se pelo fato de ele achar um simpático e outro antipático, um útil e outro nocivo.
E a terceira são os conhecimentos que ele alcança sobre os objetos “como se fossem um ente divino”; são os mistérios da atuação e da existência desses objetos que se lhe desvelam.
Esses três domínios distinguem-se nitidamente na vida humana; e assim o homem se apercebe de estar entretecido ao mundo de tríplice maneira.
A primeira maneira é algo com que ele se depara, aceitando-o como fato dado; pela segunda maneira ele faz do mundo seu assunto próprio, algo que tem importância para ele; a terceira maneira ele considera como uma meta à qual deve aspirar incessantemente.
Por que o mundo se apresenta ao homem dessa forma tríplice?
Urna simples consideração pode explicar isso:
Venho por um prado coberto de flores; as flores anunciam-me as cores por meio de meus olhos.
Esse é um fato que eu tomo como dado.
Alegro-me com a magnificência das cores; com isso transformo o fato em meu assunto próprio.
Por meio de meus sentimentos, ligo as flores ao meu próprio existir.
Passado um ano, percorro novamente o mesmo prado.
Outras flores estão ali novas alegrias me são proporcionadas.
Minha alegria do ano anterior apresenta-se como lembrança.
Ela está em mim; o objeto que a despertou esvaiu-se.
Mas as flores que eu hoje contemplo são da mesma espécie que as do ano passado; cresceram segundo as mesmas leis que aquelas.
Se eu tiver formado urna noção dessa espécie e dessas leis, irei reencontrá-las nas flores deste ano, tal qual as conheci nas do ano passado.
E talvez reflita: as flores do ano passado esvaíram-se; a alegria que me proporcionaram ficou apenas em minha lembrança, achando-se ligada apenas à minha existência.
Porém o que no ano passado eu reconheci nas flores, e torno a reconhecer este ano, permanecerá enquanto tais flores crescerem.
Isso é algo que se revelou a mim, porém não depende de minha existência da mesma forma como minha alegria.
Meus sentimentos de alegria situam-se dentro de mim; as leis e a essência das flores situam-se fora de mim, no mundo.
Assim, o homem se associa continuamente às coisas do mundo dessa tríplice maneira.
Do ensaio Der Versuch als Vermittler von Object and Suhject (1793).
Não juntemos a esse fato interpretação alguma, mas aceitemo-lo tal qual se apresenta.
Dele decorre que o homem tem três faces em sua natureza.
E isso, e nenhuma outra coisa, que por ora indicaremos com as três palavras:
corpo,
alma e
espírito.
Quem associar essas três palavras a quaisquer opiniões preconcebidas, ou mesmo hipóteses, fatalmente entenderá mal o que será exposto em seguida.
Por corpo entende-se elemento pelo qual as coisas em redor do homem se apresentam a ele — como, no exemplo acima, as flores do prado.
Por alma deve-se entender o elemento pelo qual o homem associa as coisas ao seu próprio existir, sentindo nelas agrado e desagrado, prazer e desprazer, alegria e dor.
Por espírito entende-se o que se revela nele quando, segundo a expressão de Goethe, ele contempla as coisas “como se fosse um ente divino”.
E nesse sentido que o homem consiste em corpo, alma e espírito.
Por meio de seu corpo o homem pode colocar-se momentaneamente em relação com as coisas; por meio de sua alma ele guarda em si as impressões que as coisas produzem nele; e por meio de seu espírito lhe é apresentado o que as coisas conservam em si.
Só considerando o homem segundo essas três faces é que se pode ter a esperança de alcançar uma elucidação de sua natureza — pois essas três faces mostram-no relacionado de modo triplamente diverso com o resto do mundo.
Por meio de seu corpo o homem tem afinidade com as coisas que, de fora, se apresentam aos seus sentidos.
São as substâncias do mundo exterior que compõem esse seu corpo; as forças do mundo exterior também atuam nele.
E tal qual observa as coisas do mundo exterior com seus sentidos, assim também ele pode observar sua própria existência corpórea.
Porém é impossível observar do mesmo modo a existência anímica.
Tudo o que em mim constitui processos corpóreos pode ser também percebido com sentidos corpóreos; porém meu agrado e desagrado, minha alegria e minha dor não podem ser percebidos, nem por mim nem por mais ninguém, com sentidos corpóreos.
O anímico é um domínio inacessível à observação corpórea.
A existência corpórea do homem acha-se manifesta aos olhos de todos; a anímica, ele a traz em si como sendo seu mundo.
Por meio do espírito, no entanto, o mundo exterior lhe é revelado de uma forma superior.
E em seu íntimo, sem dúvida, que se lhe desvendam os segredos do mundo exterior; porém no espírito ele sai de si e deixa as coisas falar sobre si mesmas, sobre o que tem significado não para ele, mas para elas.
O homem levanta o olhar para o céu estrelado: o encanto que sua alma vive pertence a ele; as leis eternas dos astros, que ele discerne no pensamento, no espírito, pertencem não a ele, mas aos próprios astros.
O homem é, assim, cidadão de três mundos.
Por meio de seu corpo, pertence ao mundo que ele percebe com esse mesmo corpo; por meio de sua alma, edifica para si seu próprio mundo; por meio de seu espírito se lhe manifesta um mundo elevado acima dos outros dois.
Ante a diferença essencial entre esses três mundos, parece evidente que só se poderá obter clareza a seu respeito, bem como a respeito da participação do homem neles, mediante três dife- rentes tipos de observação.
I. A natureza corpórea do homem
É por meio dos sentidos corpóreos que se vem a conhecer o corpo do homem; e o modo de observar não pode ser, nesse caso, senão aquele pelo qual se conhecem outras coisas perceptíveis aos sentidos.
Tal como se observam os minerais, as plantas e os animais, pode-se também observar o homem.
Ele tem afinidade com essas três formas de existência.
À semelhança dos minerais, ele edifica seu corpo com as substâncias da natureza; à semelhança das plantas, ele cresce e se reproduz; à semelhança dos animais, apercebe-se das coisas em seu redor e estrutura vivências interiores com base em suas impressões.
Pode-se, portanto, atribuir ao homem uma existência mineral, uma vegetal e uma animal.
A diversidade na estrutura dos minerais, plantas e animais corresponde às três formas de sua existência.
E essa estrutura — a forma — é o que se percebe com os sentidos, sendo unicamente o que se pode chamar de corpo.
Entretanto, o corpo humano é diverso do corpo animal.
Essa diversidade deve ser reconhecida por todos, sejam quais forem as concepções quanto ao parentesco do homem com os animais.
Nem o materialista mais radical, que nega tudo o que seja anímico, poderá deixar de subscrever a seguinte declaração de Caruso, em sua ‘Organografia do conhecimento da natureza e do espírito’: Carl Gustav Carus (1789—1869). (N.T.) Organon der Erkenntnis der Natur and des Geistes (Leipzig, 1856), cap. ‘Von dem Erkennen’, p. 89 s. (N.E. orig.)
A estrutura mais íntima e sutil do sistema nervoso, e especialmente do cérebro, permanece um enigma insolúvel para o fisiólogo e anatomista; porém é um fato perfeitamente estabelecido que aquela concentração de formas vai-se elevando cada vez mais no reino animal, alcançando no homem um grau mais alto do que em qualquer outro ser; para o desenvolvimento espiritual do homem esse fato é da maior significação — aliás, podemos justamente declarar que já constitui uma explicação suficiente.
Nos casos em que a estrutura do cérebro não se haja desenvolvido devidamente, denunciando uma certa pequenez e imperfeição, como nos microcéfalos e nos idiotas, é natural que nem se possa falar de elaboração de idéias e conhecimentos próprios, como tampouco de reprodução da espécie em pessoas cujos órgãos geradores tenham ficado atrofiados.
Por outro lado, se é bem verdade que uma construção vigorosa e harmoniosa da pessoa em seu todo, e do cérebro em particular, não substituirá por si só o gênio, em todo o caso constitui a primeira condição indispensável para o conhecimento superior.
Tal como se atribuem ao corpo humano as três formas da existência — a mineral, a vegetal e a animal —, deve-se atribuir-lhe ainda uma quarta, a especifica mente humana.
Mediante sua forma mineral de existência, o homem tem afinidade com tudo o que é visível; mediante sua forma vegetal, com todos os seres que crescem e se reproduzem; mediante sua forma animal, com todos os que percebem seu mundo circundante e, com base em impressões exteriores, têm experiências interiores; mediante sua forma humana ele constitui, já no sentido corpóreo, um reino em si.
II. A natureza anímica do homem
A natureza anímica do homem distingue-se de sua corporalidade como um mundo interior próprio.
Esse âmbito próprio se apresenta tão logo dirigimos a atenção à mais simples impressão sensorial.
Ninguém pode saber a priori se outra pessoa experimenta essa mera sensação exatamente do mesmo modo como ela própria.
É sabido que existem pessoas cegas em relação a cores; elas só vêem as coisas em diversos matizes de cinza.
Outras são parcialmente daltônicas, e por isso não conseguem perceber determinadas nuances de cores — a imagem do mundo proporcionada por seus olhos é completamente diversa daquela das pessoas ditas normais.
E algo similar é mais ou menos válido para os outros sentidos.
Já de partida fica evidente que a mais simples impressão sensorial pertence ao mundo interior.
Com meus sentidos físicos posso perceber a mesa vermelha que outra pessoa também percebe; mas não posso perceber a sensação que a outra pessoa tem do vermelho.
Deve-se, portanto, designar a impressão sensorial como algo anímico.
Quem se esclarece inteiramente sobre esse fato deixa logo de considerar as experiências interiores como meros processos cerebrais ou algo semelhante.
À impressão sensorial junta-se de início o sentimento.
Uma sensação dá ao homem prazer, outra desprazer.
Trata-se de emoções de sua vida interior, anímica.
Em seus sentimentos o homem acrescenta um segundo mundo àquele que o influencia de fora; e a isso vem agregar-se ainda um terceiro: a vontade, mediante a qual o homem reage ao mundo exterior, imprimindo assim a esse mundo exterior seu ser interior.
Em seus atos volitivos, a alma do homem como que jorra para o exterior.
Os atos do homem diferem dos fenômenos da natureza externa por serem portadores de sua vida interior.
Assim sendo, é a alma que se contrapõe ao mundo exterior como o elemento próprio do homem.
Este recebe os estímulos do mundo exterior; porém constrói, de acordo com esses estímulos, um mundo próprio.
A corporalidade torna-se o alicerce do anímico.
III. A natureza espiritual do homem
O elemento anímico do homem não é determinado somente pelo corpo.
O homem não vagueia sem direção e sem objetivo de uma impressão sensorial a outra; nem tampouco age sob a impressão de um estímulo qualquer exercido sobre ele, seja por algo exterior ou pelos processos de seu corpo.
Ele reflete sobre suas percepções e sobre suas ações.
Refletindo sobre as percepções, adquire conhecimentos sobre as coisas; refletindo sobre suas ações, introduz em sua vida uma coerência racional.
E sabe que sua missão como ser humano só é cumprida dignamente quando, tanto no processo cognitivo quanto no agir, ele se deixa conduzir por pensamentos corretos.
O elemento anímico se defronta, pois, com uma dupla necessidade.
Por necessidade natural, ele é determinado pelas leis do corpo; pelas leis que conduzem ao correto pensar, ele se deixa determinar por reconhecer livremente a necessidade das mesmas.
E por obra da natureza que o homem se acha sujeito às leis do metabolismo; já às leis do pensamento ele se submete espontaneamente.
Com isso o homem se torna participante de uma ordem superior à que pertence por seu corpo; e essa ordem é a espiritual.
Tão diverso quanto o corpóreo é do anímico, tão diverso é este, por sua vez, do espiritual.
Enquanto se fala simplesmente das partículas de carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio que se movimentam no corpo, não se tem em vista a alma.
A vida anímica só começa quando, em meio a esse movimento, surge a sensação: eu sinto o sabor doce ou sinto prazer.
Tampouco se tem em vista o espírito quando se assiste apenas às experiências anímicas que perpassam o homem quando este se entrega completamente ao mundo exterior e à vida de seu corpo.
Esse elemento anímico constitui, muito mais, somente a base para o espiritual, do mesmo modo como o corpóreo constitui a base para o anímico.
O pesquisador da natureza lida com o corpo, o pesquisador do anímico (psicólogo) com a alma e o pesquisador do espiritual com o espírito.
Obter clareza sobre a diferença entre corpo, alma e espírito refletindo a respeito de si mesmo é uma exigência a quem queira esclarecer-se, de modo pensante, sobre a essência do homem.
IV.Corpo, alma e espírito
O homem só pode esclarecer-se corretamente acerca de si mesmo quando se dá conta da importância do pensar na natureza humana.
O cérebro é o instrumento corpóreo do pensar.
Da mesma forma como o homem só pode ver cores com olhos normalmente desenvolvidos, um cérebro adequadamente formado serve-lhe para pensar.
Todo o corpo humano está disposto de modo a encontrar seu coroamento nesse órgão do espírito que é o cérebro.
Só se pode compreender a estrutura do cérebro humano observando-o com vistas à sua tarefa, que consiste em ser a base corpórea do espírito pensante.
Um olhar comparativo sobre o mundo animal demonstra isso.
Entre os anfíbios, o cérebro é ainda pequeno diante da medula espinhal; entre os mamíferos se torna relativamente maior, e no homem alcança suas máximas dimensões frente ao resto do corpo.
Contra tais observações sobre o pensar, aqui apresentadas, reina muito preconceito.
Muitas pessoas tendem a subestimar o pensar e enaltecer, acima desta faculdade, a “vida íntima dos sentimentos”, a “sensibilidade”.
Chegam a dizer que não é pelo “árido pensar”, mas pelo calor do sentimento, pela força imediata das emoções que o homem se eleva aos conhecimentos superiores.
As pessoas que assim se manifestam temem embotar os sentimentos ao pensar de modo claro.
No caso do pensamento cotidiano, que se refere tão-somente às coisas de utilidade prática, certamente é isso o que ocorre; mas no caso dos pensamentos que conduzem a regiões superiores da existência, sucede o contrário.
Não há sentimento ou entusiasmo que possa comparar-se em ardor, beleza e elevação àqueles despertados pelos puros e cristalinos pensamentos referentes aos mundos superiores.
Os sentimentos mais elevados são, justamente, não os que se instalam ‘por si’, mas os que são conquistados num enérgico labor do pensamento.
O corpo humano possui uma estrutura adequada ao pensar.
As mesmas substâncias e forças que existem no mundo mineral acham-se estruturadas no corpo humano de modo tão peculiar que, graças à sua combinação, o pensamento pode manifestar-se.
Essa construção mineral, que atende à finalidade a que foi destinada, terá neste estudo a designação corpo físico do homem.
A estrutura mineral, ordenada em função do cérebro como seu ponto central, surge por meio de reprodução e recebe sua forma desenvolvida por meio do crescimento.
Reprodução e crescimento, o homem os tem em comum com as plantas e os animais.
Pela reprodução e pelo crescimento o ser vivo se distingue do mineral inanimado.
O vivo nasce do vivo por meio do germe.
O descendente segue-se ao ascendente na série dos seres vivos.
As forças que dão origem a um mineral visam às mesmas matérias que o compõem.
Um cristal de rocha forma-se pelas forças inerentes ao silício e ao oxigênio que nele se acham associados.
As forças que dão forma a um carvalho, devemos buscá-las indiretamente, por intermédio do germe, nas plantas materna e paterna; e aforma do carvalho conserva-se de ascendente para descendente mediante reprodução.
Existem condições inerentes, inatas ao ser vivo.
Foi uma concepção grosseira da natureza aquela que acreditava poderem os animais inferiores, até peixes, formar-se da lama.
A forma do ser vivo reproduz-se por hereditariedade.
O modo como se desenvolve um ser vivo depende de qual tenha sido seu ente paterno ou materno, ou, em outras palavras, da espécie a que ele pertença.
As substâncias que o compõem se alteram continuamente; a espécie continua existindo durante a vida e transmite-se à prole.
Com isso a espécie é o que determina a combinação das substâncias.
Essa força geratriz das espécies deve ser denominada força vital.
Assim como as forças minerais se manifestam nos cristais, a força vital plasmadora se exprime nas espécies ou formas de vida vegetal e animal.
As forças minerais são percebidas pelo homem graças aos sentidos corpóreos — e ele só pode perceber o que lhe facultam tais sentidos.
Sem olhos não há percepção ótica, sem ouvidos não há percepção acústica.
Dos sentidos existentes no homem, os organismos inferiores só possuem uma espécie de tato.
Para eles, só existem similarmente à percepção humana as forças minerais que se dão a conhecer pelo tato.
Conforme o grau de desenvolvimento alcançado pelos sentidos entre os animais superiores, o mundo ambiente— que o homem também percebe — é mais rico e variado para eles.
Depende, portanto, dos órgãos de um ser vivo se aquilo que existe no mundo exterior também existe para ele como percepção, como sensação.
O que ocorre no ar como determinado movimento torna-se, no homem, sensação acústica.
As manifestações da força vital não são percebidas pelo homem mediante os sentidos comuns; ele vê as cores das plantas, cheira-lhes o perfume; a força vital permanece oculta para esta observação.
Todavia, da mesma forma como não cabe ao cego nato o direito de negar a existência das cores, tampouco cabe aos sentidos ordinários negar a força vital.
As cores passam a existir para o cego nato assim que ele é operado; similarmente, passam a existir para o homem, também como percepção, não apenas os indivíduos, mas as espécies de plantas e animais plasmadas pela força vital, uma vez descerrado nele o órgão para tal.
Um mundo totalmente diverso descortina-se ao homem com o descerramento desse órgão.
Agora ele não mais percebe meramente as cores, os aromas e outras características dos seres vivos, mas também a própria vida desses seres vivos.
Em cada planta, em cada animal ele passa a perceber, além da forma física, a forma espiritual plena de vida. A fim de expressar isto, chame-se essa forma espiritual de corpo etérico ou corpo vital.
Ao pesquisador da vida espiritual, estas coisas apresentam-se do seguinte modo: para ele, o corpo etérico não é simplesmente um resultado das substancias e forças do corpo físico, mas uma entidade real e autônoma que conclarna à vida as citadas substâncias e forças.
É no sentido da Ciência Espiritual que se fala ao dizer que um corpo puramente físico por exemplo, um cristal — tem sua forma graças às forças físicas formativas inerentes ao ser inorgânico; um ser vivo não tem sua forma em virtude dessas forças, pois se desagrega logo que a vida o abandona e fica entregue somente às forças físicas.
O corpo vital é uma entidade por cujo intermédio, a cada momento da vida, o corpo físico vai sendo preservado da desagregação.
Para ver esse corpo vital, percebê-lo em outro ser, necessita-se justamente de olhos espirituais despertos.
Sem estes pode-se admitir, por motivos lógicos, a existência do corpo etérico; contudo só é possível vê-lo com os olhos espirituais, tal qual se podem ver as cores somente com os olhos físicos.
Ninguém deveria chocar-se com a expressão ‘corpo etérico’.
O autor do presente livro, ainda muito tempo após a redacão do mesmo (cf. periódico Das Reich, tomo IV, ano I [janeiro de 1917]), chamou também o que vem aqui designado como corpo etérico ou vital de ‘corpo das forças formativas’[Bilde- Kräfte-Leib].
Viu-se induzido a dar-lhe esse nome por acreditar nunca ser bastante o que se pode fazer para evitar a possível confusão entre o corpo etérico, aqui indicado e a ‘força vital’ das antigas Ciências Naturais.
Mas quando se trata de repetir essa velha concepção com argumentos da moderna Ciência Natural, em certo sentido o autor se coloca no ponto de vista dos opositores detal força; pois com esta eles queriam explicar o modo peculiar pelo qual as forças inorgânicas atuam no organismo.
Mas o que atua inorganicamente dentro do organismo não exerce, nele, ação diversa do que no mundo inorgânico.
As leis da natureza inorgânica não são, no organismo, nada diversas do que o são no cristal, etc.
Porém no organismo existe algo que não é inorgânico: a vida formativa.
Essa vida tem por base o corpo etérico ou corpo das forças plasmadoras.
Sua aceitação não constitui, de modo algum, um empecilho à justa missão das Ciências Naturais: observar no mundo dos organismos aquilo que elas observam na natureza inorgânica em matéria de atuação de forças.
E recusar-se a imaginar essa atuação de forças sendo alterada, dentro do organismo, por uma força vital específica é algo que uma uma verdadeira Ciência Espiritual também considera justificado.
O pesquisador do espírito fala de corpo etérico na medida em que no organismo se manifesta algo diverso do que no inanimado.
Apesar de tudo isso, o presente autor não se sente de modo algum induzido a substituir neste livro, o termo ‘corpo etérico’ pelo outro — ‘corpo de forças formativas’ —, pois dentro de todo o presente contexto está excluído, para quem queira ver, algum mal-entendido.
Tal mal-entendido só pode ocorrer quando o termo é utilizado numa explanação incapaz de mostrar este contexto.
‘Éter’ designa aqui algo diverso do hipotético éter da Física.
Aceite-se o termo simplesmente como designação para o que é descrito aqui.
E tal qual o corpo humano, em sua estrutura, é uma imagem de sua tarefa, assim também ocorre com o corpo etérico do homem, que também só é compreendido quando relacionado com o espírito pensante.
Por sua ordenação no sentido do espírito pensante é que o corpo etérico do homem se diferencia do das plantas e animais.
Assim como por meio de seu corpo físico o homem pertence ao mundo mineral, por meio de seu corpo etérico ele pertence ao mundo vital.
Depois da morte o corpo físico dissolve-se no mundo mineral, e o etérico no mundo vital.
Com ‘corpo’ pretende-se designar o que proporciona ‘configuração’, ‘forma’ a um ser de qualquer espécie.
Não se deveria confundir a expressão ‘corpo’ com a forma corpórea sensorial.
No sentido aqui tencionado, a designação ‘corpo’ pode também ser utilizada para aquilo que se configura como anímico e espiritual.
O corpo vital é ainda algo exterior ao homem.
Com o primeiro vibrar da sensação, o próprio ser interior do homem responde aos estímulos do mundo exterior.
Por mais que se procure naquilo que é justificado denominar mundo exterior, não se poderá encontrar nele a sensação.
Os raios luminosos penetram nos olhos e, uma vez dentro deles, propagam-se até a retina.
Ali desencadeiam (no chamado pigmento ótico) processos químicos; o efeito desses estímulos transmite-se pelo nervo ótico até o cérebro, onde têm origem ainda outros processos físicos.
Caso fosse possível observar esses processos, ver-se-iam simplesmente processos físicos, como em qualquer outra parte do mundo exterior.
Se, porém, me for dado observar o corpo vital, aí perceberei como o processo físico cerebral é simultaneamente um processo vital.
Porém a sensação da cor azul, que o receptor dos raios luminosos experimenta, eu não posso encontrar em parte alguma por essa via.
Ela surge tão-somente dentro da alma do receptor.
Se, portanto, a natureza deste receptor se limitasse aos corpos físico e etérico, não poderia existir a sensação.
A atividade pela qual a sensação se torna um fato é essencialmente diversa da atuação da força vital plasmadora.
Mediante essa atividade, uma vivência interior é obtida daquela atuação.
Sem tal atividade existiria um simples processo vital, observável também na planta.
Fonte:
Teosofia
Rudolf Steiner
scribd
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