sábado, 16 de fevereiro de 2013

O despertar da Consciência do nosso verdadeiro Eu






O DESPERTAR DO SI

O que é que, a certa altura, muda a situação interior do indivíduo que se encontra na condição que descrevemos, de sofrimentos e crise, de doença psíquica, e que produz a cura?

O que é que repentinamente faz cessar o conflito, que põe fim à tensão inconsciente entre as duas forças, a do passado e a do futuro, a da personalidade e a do Si, e conduz ao amadurecimento e à iluminação?

De fato, sem que aparentemente nada tivesse feito prever, de modo repentino e inesperado todas as angústias cessam, todos os conflitos desaparecem, todas as resistências são derrubadas: irrompe de súbito na consciência ordinária uma luz, uma chama, uma presença que subverte tudo, que torna tudo novo, maravilhoso, claro e, antes de mais nada, "reconciliado".

É o despertar da consciência do nosso verdadeiro Eu, do Si.

A pergunta, no entanto, permanece: que acontecimento interior levou à solução?

Foi porque prevaleceu a vontade do Si sobre a do eu inferior?

Foi devido à compreensão do equívoco por parte do aspirante espiritual, da inutilidade da luta?

Foi, como dissemos no capítulo anterior, a rendição, o abandono inapelável e a abertura à consciência superior "superconsciente"?

Na realidade, todos estes três fatores estão presentes e contribuem para a cura e a abertura, mas há um "quarto" fator, que poderíamos chamar técnico, decisivo, e que traz para a superfície a afluência repentina da nova consciência, ou melhor dizendo, o nascimento da nova consciência.

Este quarto fator é o contato efetivo entre as energias da personalidade, que venceram o sofrimento por via da elevação e da sublimação produzindo uma vibração mais alta, as energias espirituais do Si.

Este contato se verifica também, a nível físico, em certo ponto do cérebro, situado entre a glândula pineal (onde se diz que o Si está localizado no corpo físico) e a hipófise (centro ajna, onde se condensam as energias da personalidade integrada), ponto este chamado "tálamo".

Tal contato provoca uma centelha, uma espécie de "curto-circuito", que é o sinal revelador da fusão das duas energias, que produz o nascimento do "Filho", isto é, da consciência. As "bodas celestiais" entre o Pai-Espírito e a Personalidade-Mãe foram consumadas, e o produto é o nascimento da consciência.

Mesmo em sentido psicológico, no que diz respeito à neurose, fala-se da "tomada de consciência" que provoca repentinamente uma catarse no paciente e, portanto, a cura, como de um "curto-circuito" entre os dois pólos da consciência, isto é, o inconsciente e o consciente.

Tal curto-circuito produz o sentimento de uma iluminação repentina, semelhante a uma revelação.

De fato, segundo os inúmeros testemunhos daqueles que passaram pela experiência do "despertar", o sintoma mais comum é a instantaneidade, o sintoma mais comum é a instantaneidade, o seu caráter repentino e inesperado, semelhante ao de um relâmpago que, subitamente, ilumina a paisagem antes imersa na treva.

É como se alguém, repentinamente, se "lembrasse" de alguma coisa esquecida, reconhecesse subitamente um lugar, uma pessoa, após muito tempo...

É como se despertasse de um longo sono repleto de sonhos que havia julgado verdadeiros, einesperadamente acordasse e percebesse que a verdade é outra.

No entanto, o mais maravilhoso de tudo, aquilo que proporciona um sentimento profundo, quase uma surpresa, é a sensação de auto-reconhecimento.

Nesse preciso instante, somente, é que o indivíduo sente-se ele próprio, se auto-reconhece, se reencontra, lembra-se de si mesmo, como alguém que tivesse perdido a memória e de repente a recobrasse.

As escolas esotéricas vêm, através dos tempos, referindo-se à doutrina do despertar, levando sempre em consideração que o homem vive num estado de inconsciência e sono do qual, um dia, deverá acordar para se auto- reconhecer.

A primeira sensação que se tem no instante do auto-reconhecimento, como já disse anteriormente, é a de surpresa e perplexidade por tanta luta e sofrimento passado para se chegar àquilo que, naquele momento, se nos afigura a coisa mais simples, fácil e natural do mundo.

Quase todos os que passaram por esta experiência dizem a si mesmos:
"Esta realidade estava tão próxima e era tão simples e no entanto eu não sabia, nem me dava conta disso. Por quê? "

Ou então:
"Eu já era esta consciência, esta presença, esta alegria, e me obstinava em procurá-la noutra parte, em querer construí-la algures".

De fato, naquele momento, o indivíduo "desperto" prova a verdade proclamada pelo esoterismo com as palavras: "Devemos nos tornar aquilo que já somos".

Todavia, somente aqueles que já experimentaram isto podem dizer da maravilhosa e indescritível sensação que vem ao espírito quando nos tornamos o que somos, quando nos fazemos repentinamente conscientes do verdadeiro Eu, da profunda autenticidade do próprio ser, da totalidade, da unidade, da integração que daí decorrem.

O homem se sente enfim "realizado" e livre, plenamente livre, sendo esta luminosa e alegre liberdade o sinal divino para o homem.

Poderíamos indagar a essa altura:
"Que conseqüências tem para a vida do homem uma tão alta experiência? É ela duradoura e estável ou não passa de uma abertura momentânea que depois desaparece?"

A experiência do despertar não se dá sem produzir profundas e efetivas mudanças no homem, mas é preciso distinguir entre o "verdadeiro" despertar e as experiências místicas.



A diferença entre a experiência mística e o "despertar" ou "iluminação" consiste em que, na primeira, o contato com a Alma, com o Si, se dá por uma elevação "temporária" do corpo emotivo, por um impulso de amor em direção à Divindade ou pela fervorosa aspiração e devoção votadas a um Mestre.

Tal elevação produz uma sublimação das energias que compõem o corpo emotivo e uma aceleração de suas vibrações.

O nosso veículo pessoal é todo ele subdividido em sete subplanos, ou gamas vibratórias que exprimem qualidades, faculdades e inclinações que se tomam cada vez mais puras e refinadas à medida que se passa para os sub-planos mais altos do corpo emotivo, cuja vibração atrai a vibração do Si, até que se produz um contato com o aspecto correspondente, isto é, o do Amor.

Ao contrário, quando se trata da experiência que chamamos "despertar" ou "iluminação", são as vibrações de todos os três veículos que se elevam, sendo total o contato com o Si, isto é, com todos os seus aspectos:

Vontade, Amor e Inteligência Criativa.

O que sobrevém não é, na verdade, apenas, um sentimento de exaltação, de êxtase, de amor e devoção na experiência, como acontece no místico mas, como já dissemos, um "auto-reconhecimento", um alargamento de consciência, como também a visão e a compreensão de verdades cognoscitivas e metafísicas.

O sentido da vida torna-se claro, as leis universais são compreendidas e todas as dúvidas intelectuais desaparecem em favor de um maravilhoso sentimento de justiça, de harmonia e ordem.

Diz Allan Watts: "Ao indivíduo que passou por uma iluminação desse tipo, sobrevém a certeza vivida e arrebatadora do universo exatamente como ele é nesse momento, tanto em sua totalidade como em cada uma de suas partes, o universo como algo inteiramente justo, que prescinde de explicações e de justificações além do que ele simplesmente é". (Do ensaio Este é o Todo, p. 9.)

Além disso, uma outra diferença fundamental e bastante importante entre a experiência mística e o verdadeiro despertar é o fato de que a primeira não provoca uma mudança substancial na consciência do indivíduo que passou por ela, já que ele retorna à sua condição habitual, não conservando dela mais do que a lembrança, enquanto o segundo produz uma verdadeira transformação interior no homem, uma transformação total, uma reorientação completa, a ponto de, para descrevê-lo, se lançar mão de termos como "conversão", "segundo nascimento", ou a palavra grega "metanóia" (revira-volta).

Realmente, o homem desperto não é mais o de antes, pois o foco da sua consciência mudou.

Antes, o centro era o eu pessoal; depois, o Eu espiritual e autêntico.

Portanto, poderíamos dizer que antes "as coisas eram vistas de baixo" e agora são vistas do alto, a sua perspectiva mudou comple- tamente, ampliou-se, não é mais limitada pela identificação com o instrumento inferior.

Por isso, a quem indagasse: "Como reconhecer se passei por um efetivo despertar ou somente gozei de um momento de elevação, por maravilhoso que tenha sido?", se poderia responder: "O critério para reconhecer a autenticidade e a realidade da experiência do despertar é, antes de mais nada, a certeza interior, e em seguida a mudança do estado de consciência".

Se não ocorre mudança, isso significa que não houve um verdadeiro despertar.

De acordo com as doutrinas Zen, o ponto mais alto é o "satori", que significa iluminação, mas o Mestre Zen recomenda ao discípulo não confundir o falso satori com o verdadeiro, pois este último deve acarretar "uma transformação de caráter" e uma "orientação produtiva" para ávida, e não um estado de evasão da realidade ou de exaltação emotiva que se basta em si mesma.

Quanto à saúde física e psíquica, o despertar da verdadeira consciência opera uma cura integral pelo simples fato de que todos os conflitos, todas as desarmonias, todas as inibições e congestões desaparecem.

O indivíduo naquele momento, está "perfeitamente alinhado", isto é, todas as suas energias, pessoais e espirituais, vibram em sintonia, e ele alcança um estado de total harmonia entre "vida e forma", razão por que a doença, quer seja física ou psíquica, provocada pela desarmonia e o conflito, não mais se sustenta.

É lógico que se a doença havia-se somatizado a ponto de produzir lesões orgânicas, ela não vai ser curada de uma hora para outra; mas a partir daquele momento ela começa a regenerar, causando uma mudança imprevista nos sintomas e em suas manifestações, a ponto de surpreender os próprios médicos.

Há, na história da medicina, inúmeros casos como esse, de resolução repentina de doenças julgadas incuráveis ou mortais, deixando perplexos os cientistas mas demonstrando a força saneadora existente em nós mesmos, em nosso verdadeiro Si, a qual poderá entrar em ação se nos abrimos a ela.

Nas neuroses, como já mencionamos anteriormente, a revelação da "nova" consciência produz uma "catarse", isto é, primeiramente uma revivência emotiva da experiência traumatizante, de cunho dramático, ou uma vivida tomada de consciência do conflito, com participação integral de todo o ser, e em seguida o superamento libertador, do qual emerge triunfante o Eu verdadeiro do paciente, como que renascido, solto das ligações, das resistências, dos recalques e repleto de novas e frescas energias.

Poderíamos citar a este respeito, para entender melhor as possíveis manifestações dessa harmonia interior entre a personalidade e o Si espiritual, algumas características observadas e estudadas por Maslow nos indivíduos que conheceram as "peak experiences", isto é, os momentos de total auto-realização.

1. Unificação: o indivíduo se sente integrado, unificado, "inteiro". Sente- se "uno"

2. Superação do isolamento: a pessoa, ao tornar-se pura e simplesmente o que ela é, se vê mais capaz de fundir-se com o mundo e com o que antes era o não-si. Isso significa que "a máxima ipseidade constitui, de per si e simultaneamente, um transcender-se a si mesmo..."

3. Máximo regime: aquele que passou por uma "peak experience" sente- se na sua máxima potencialidade, empregando todas as suas faculdades da melhor maneira e da forma a mais completa. Em outras palavras, "exprime-se a si mesmo".

4. Espontaneidade: há nele um estado de graça, de alegria, que se exprime também pela facilidade, desnecessidade de esforço, humor, despreo- cupação, segurança etc.

5. Auto determinação: o indivíduo que se auto-realiza sente-se como "centro ativo, responsável, criativo da própria vida e das suas próprias ativi- dades. Sente-se autodeterminado, dono de si mesmo... dotado de livre-arbítrio, responsável, digno de confiança etc".

6. Liberdade: sente-se extremamente livre de bloqueios, inibições, temores, dúvidas, reservas etc.

7. Inocência: é ingênuo, honesto, cândido, semelhante a uma criança, privado de defesas, mais natural, simples, sincero, imediato, relaxado etc.

8. Criatividade: há no indivíduo uma maior criatividade espontânea, isenta de motivações, isenta de esforço, que flui livremente sem uma finalidade precisa.

9. Poesia, musicalidade: a expressão e a comunicação, nas "peak experiences", tendem a ser poéticas, míticas, rapsódicas, musicais...

Estas são apenas algumas das manifestações mais comuns que se verificam nos indivíduos que passaram por uma experiência de auto-realização que, na realidade, é contato, mesmo que momentâneo e parcial, com o verdadeiro Si, demonstrando-nos o estado de harmonia, de bem-estar, de inte- gridade, decorrente do fato de sermos enfim "o que somos" e nos revelando que a verdadeira natureza do homem é divina.

Agora, poderíamos indagar: "Essa experiência tão maravilhosa,regeneradora, determinante do 'despertar' põe fim aos sofrimentos do homem e representa o ápice de sua trajetória evolutiva?"

A resposta é: "não".

Ela é somente um início, um "novo nascimento", como dissemos, uma nova orientação consciente e lúcida para a consciência, mas há ainda um longo trabalho a ser efetuado para tornar estável tal contato, purificando, transmutando e sublimando todas as energias da personalidade que até então haviam se elevado apenas momentaneamente, permitindo assim o vislumbre e o brilho da centelha da verdadeira consciência.

É preciso estar muito atento e não se deixar levar por um estado de perigosa euforia, que faz com que as coisas sejam vistas como fáceis e "já resolvidas".

O indivíduo "desperto" percebe, então, que "a parte inferior da sua personalidade fora apenas momentaneamente paralisada, não eliminada ou transformada.

O 'Velho Adão' ressurge com seus hábitos, suas tendências,suas paixões e o homem compreende então que, para possuir duradouramente a luz espiritual, ele deve realizar um longo, paciente e complexo trabalho de purificação e transmutação.

"Deve empreender uma descida às profundezas da própria natureza para conhecê-la, sublimá-la e regenerá-la". (Assagioli: O despertar da Alma)

Além disso, o poderoso afluxo de luz e de energia provocado pela abertura de consciência em direção ao Si pode causar alguns inconvenientes e distúrbios nos veículos do aspirante, os quais seria bom conhecer para compreender a sua natureza e superá-los.

Portanto, o despertar é uma mutação interior que marca o início de uma nova fase evolutiva para o indivíduo, fase durante a qual ele pode acelerar o seu amadurecimento, tendo enfim consciência de si mesmo e de sua meta, mas também de que esta não é alcançada sem conflitos, crises, provações e ulteriores iluminações e aberturas a serem conquistadas.




Fonte:
Angela Maria La Sala Bata
Medicina Psico Espiritual
Tradução de Pier Luigi Cabra

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Transformação: liberte-se do sofrimento





No caminho interior do desenvolvimento da consciência, um momento muito importante é aquele no qual o homem descobre que a evolução no plano humano não é um processo de aperfeiçoamento, mas um processo de transformação.

O homem, na verdade, é um ser híbrido, que pertence a dois reinos da natureza: ao terceiro reino ( o reino animal) e ao quarto reino (o reino humano).

Como diz Sri Aurobindo em seu livro Il Ciclo Umano (O Ciclo Humano), o ser humano é "um anormal que não encontrou sua normalidade. (...) Não é perfeito pela própria natureza, como são as plantas e os animais. Essa imperfeição não chega a ser totalmente deplorável; antes, ela é um privilégio e uma promessa, porque abre ao homem uma visão ilimitada do autodesenvolvimento e da auto-superação".

Essa transformação gradual recebe ajuda do sofrimento, o qual possui um poder sublimatório e evolutivo que o homem descobre quando não apenas aceita o sofrimento mas também quando sabe interpretar seu significado e suas mensagens, focalizando a atenção no interior de si mesmo para tentar ver suas reações como sintomas e sinais daquilo que deve superar e abandonar.

É nesse momento que o homem, como diz Sri Aurobindo, "aciona a alavanca de sua evolução", o Agni, ou seja, o fogo purificador do sofrimento.

Alcançaremos esse "fogo purificador" se, toda vez que sofremos, em vez de fugir da dor e tentar escapar do tormento, mergulharmos neles, absorvendo-os e vivendo-os plenamente, não com a idéia de vítima ou com mórbido masoquismo, mas com a atitude forte, corajosa e consciente de quem aceita o trabalho e mergulha no fogo do sofrimento, sentindo seu poder criativo e transformador.

O homem é "o laboratório vivo e pensante" que deve produzir o super-homem, a criatura do quinto reino. Ele próprio é o crisol no qual se processa "o opus alquímico" que produzirá esse novo ser.

É esse o segredo do sofrimento, o segredo que temos de desvendar. Todavia, se adquirirmos o hábito de ser espectadores de nós mesmos quando sofremos, poderemos observar, quase que com olhar científico, aquilo que está acontecendo dentro de nós uma trasformação das energias psíquicas. É porque foi despertado o Agni, o fogo oculto na matéria do qual falam os orientais e que nos proporciona o poder evolutivo para realizarmos a nossa transformação.

Os antigos alquimistas procuravam trasformar os metais brutos em ouro, submetendo-os a um calor cada vez mais forte. Simbolicamente, eles estavam tentando extrair o Espírito da Matéria, sublimando-a por meio da combustão.

Para compreender melhor esse processo interior de transformação, talvez seja útil lembrar o que produz o fogo no plano material.

No nível físico, o fogo produz primeiro uma aceleração do movimento dos átomos que compõem a matéria submetida à combustão; depois, uma liquefação da própria matéria (como ocorre, por exemplo, com os metais quando submetidos a um calor intenso); e, por fim, uma volatização, ou seja, uma passagem ao estado aeriforme.

O fogo interior do sofrimento produz um efeito análogo sobre as energias psíquicas que compõem nossa personalidade. Essas energias, embora sendo mais sutis que a matéria física, continuam a ser sempre matéria quando comparadas com as energias espirituais.

A dor moral, entendida como chama, acelera a vibração das energias psíquicas e as faz passar de um estado mais denso e grosseiro para um estado mais luminoso, puro e livre, semelhante ao das energias espirituais. Essa "alquimia psicológica" produz não somente um amadurecimento ou um aperfeiçoamento moral como também uma verdadeira e legítima transformação, que tem suas fases, suas leis, seus sintomas e seus resultados.

Podemos agora perguntar: "O que é realmente esse fogo emitido pelo sofrimento?". Nesse momento podemos responder a essa pergunta dizendo que existe um fogo latente na própria matéria, como já sugerimos, o qual é liberado em função do atrito entre o impulso evolutivo do Espírito e a resistência da Matéria, a qual é estática e inerte por natureza. Esse fogo emitido pelo atrito é chamado, nas doutrinas esotéricas, de "fogo por fricção".

A dor que sentimos, portanto, é a manifestação emocional e moral desse atrito, que produz "combustão" e gradualmente transforma em consciência todas as energias existentes na complexa estrutura psicofísica do homem.

Sabemos que o homem - seja considerado em sua estrutura corporal, seja em sua complexidade psíquica - é realmente um conjunto de forças e energias, das quais nem sempre estamos conscientes.

Podemos, portanto, fazer nossas estas palavras de Sri Aurobindo: "A história da nossa evolução terrestre (...) é a história de uma lenta conversão da força em consciência e (...) todo o progresso evolutivo, no final das contas, é medido apenas e tão somente pela capacidade de libertar o elemento consciência do elemento força".

Todo o nosso ser deve transformar-se em consciência.

O que significam essas palavras?

Elas significam "reconstruir a unidade entre Espírito e Matéria". O homem, como já dissemos e repetimos, é uma dualidade, é o ponto de encontro de Espírito e Matéria.

Seu objetivo é o de superar essa dualidade, "espiritualizando a Matéria e materializando o Espírito". Esse processo faz emergir uma realidade total: a consciência do Eu, que é o Verdadeiro Homem.

Isso acontece lentamente e em degraus, por meio de um longo trabalho que não está isento de conflitos, crises e de todo aquele conjunto de sofrimentos que o homem durante longo tempo atribui a causas externas, até o momento em que se dá conta de que a verdadeira causa da dor está oculta dentro de si mesmo.

Na verdade, chega um momento em que o homem começa a passar por períodos de mal-estar, desconforto e sofrimento, os quais parecem se manifestar sem causa aparente. Essas perturbações se apresentam tanto sob forma psicológica e moral quanto sob a forma de distúrbios físicos que não têm qualquer causa orgânica real.

Todas essas perturbações - ou mesmo doenças - têm um caráter puramente "funcional", refratário às substâncias farmacológicas comuns, e são catalogadas como distúrbios psicossomáticos. Mas, o que são realmente essas perturbações? De que elas provêm?

Se elas se apresentam num indivíduo que já está trilhando um caminho de autoformação espiritual e desenvolvimento da consciência, poderiam ser o sintoma e o sinal de uma transformação em andamento, da qual o indivíduo não está consciente e à qual opõe, por isso, uma resistência inconsciente.

Essa pessoa deveria, então, tentar se analisar, observar-se, desidentificando-se de sua personalidade para compreender qual é o obstáculo, qual é o aspecto de si mesmo que não quer mudar, que não quer crescer e que se opõe, portanto, à transformação.

Todo tipo de sofrimento, seja ele emocional ou físico, como dissemos, é sempre o sintoma de um atrito e de uma resistência entre o passado cristalizado na matéria e o futuro que nos abre caminho para a realização.

O que podemos fazer para superar esses bloqueios à transformação, que produzem em nós sofrimento e desconforto?

Precisamos aderir ao impulso evolutivo, voltando-nos para a aspiração interior que nasce da consciência espiritual que está se manifestando em nós.

Devemos lembrar que toda a vida é regulada pela grande Lei do Sacrifício, que assim se enuncia: "Nada do que existe no nível inferior pode se manifestar sem o sacrifício daquilo que é superior, e nada do que é superior pode se manifestar sem o sacrifício daquilo que é inferior".

O sacrifício não deve ser interpretado como uma renúncia dolorosa, mas como um ato "sagrado", o que é bem expressado por estas palavras de Sri Aurobindo: "A verdadeira essência do sacrifício não é a imolação, mas a doação de si mesmo. Seu objetivo não é a anulação, mas o dar de si; seu método não é a mortificação, mas uma vida maior; não uma mutilação, mas uma trasformação dos nossos membros humanos naturais em membros divinos".

Ao nos transformarmos, na verdade, não apenas espiritualizamos a Matéria como também materializamos o Espírito, valendo-nos desse modo da lei do sacrifício. Enquanto a Matéria se eleva, transforma-se e é sublimada, o Espírito (a energia do Eu) desce, encarna na personalidade e se expressa. Existe na realidade uma interação, uma atração, um intercâmbio entre o pólo espiritual e o pólo material. Ambos se transformam e a matéria se purifica, se liberta da inércia, do mecanicismo, do peso de seus antigos condicionamentos. O Eu se expressa manifestando, por meio da personalidade, todas as suas qualidades, tornando-as ativas e eficazes na vida.

Ocorre, portanto, uma integração entre os dois pólos, levando à criação de um novo ser: o homem realizado.

Esse processo, como dissemos, acontece em degraus e por meio de sucessivas superações e transformações que nos libertam gradativamente do sofrimento e nos fazem experimentar estados interiores cada vez mais luminosos de PAZ, de serenidade e de alegria espiritual.

Fonte:
O Caminho para a Libertação do Sofrimento
Angela Maria La Sala Batà
Tradução de Merle Scoss

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Mulheres... e Lobos...




Mulheres que correm com os Lobos é livro de cabeceira de inúmeras de vocês.
Fiquei tão inspirada, que decidi traduzir o texto e colocar à disposição daquelas pessoas que não transitam pela língua inglesa. 

“Meus estimados: Não desanimem. Nós fomos feitos para estes tempos. Eu, recentemente, tenho ouvido de tantos que estão profundamente desnorteados e com razão. Eles estão desnorteados a respeito dos acontecimentos atuais em nosso mundo… Nosso tempo é de assombramento quase diário e de raiva muitas vezas justificada a respeito das recentes degradações daquilo que é o mais importante para pessoas civilizadas, visionárias.

Vocês estão certos em suas avaliações. O brilho e a arrogância a que alguns aspiraram, enquanto endossavam atos hediondos contra crianças, velhos, pessoas comuns, os pobres, os desprotegidos, os desamparados, é de tirar o fôlego. Contudo, eu recomendo, peço, solicito encarecidamente a vocês, para não secarem seu espírito lamentando estes tempos difíceis. Principalmente, não percam a esperança. Particularmente, porque fomos feitos para estes tempos. Sim. Por anos temos aprendido, praticado, sendo treinados e esperado para nos encontrar neste plano de engajamento…

Eu cresci na região dos Grandes Lagos e reconheço uma embarcação em boas condições de navegabilidade, quando a vejo. No que diz respeito a almas despertas, nunca houve tantas boas embarcações nas águas do que agora, em todo mundo. E elas estão plenamente equipadas e capazes de se sinalizarem mutuamente, como nunca na história da humanidade… Olhem por sobre a proa; há milhões de embarcações de almas íntegras nas águas com vocês. Mesmo que seus vernizes se arrepiem a cada onda nesta turbulência, eu lhes asseguro que as vigas que compõem suas proas e remos vêm de uma floresta maior. Esta madeira de veios profundos é conhecida por resistir às tormentas, permanecer junta, sustentar-se e avançar, indiferente.Temos estado em treinamento para um tempo obscuro como este, desde o dia em que concordamos vir para a Terra. Por muitas décadas, em todo mundo, almas como nós tem sido ceifadas e deixadas para morrer de tantas formas, repetidamente derrubadas pela ingenuidade, pela falta de amor, sendo encurraladas e assaltadas por vários choques culturais e pessoais, ao extremo. Temos uma história de termos sido devastados, mas, lembrem-se especialmente disto – nós também temos, por necessidade, aperfeiçoado a habilidade da ressurreição. Recorrentemente temos sido a prova viva de que aquilo que foi exilado, perdido ou soçobrado pode ser novamente restaurado à vida.

Em todo tempo obscuro, há uma tendência para o abatimento diante de quanto está errado ou quebrado no mundo. Não foquem nisto. Há também uma tendência para ficarmos enfraquecidos por perseverar naquilo que está fora do nosso alcance, naquilo que ainda não pode ser. Não foquem aí. Isto significa gastar o vento sem levantar as velas. Somos necessários, isto é tudo que podemos saber. E apesar de encontrarmos resistência, ainda assim vamos encontrar grandes almas que nos impulsionarão, amarão e guiarão, e nós as reconheceremos quando elas aparecerem. Vocês não disseram que tinham fé? Vocês não se comprometeram a ouvir uma voz maior? Vocês não pediram por graça? Vocês não se lembram de que estar na graça significa submeter-se à voz maior?

Compreendam o paradoxo: Se você estuda a física de uma bica d’água, você verá que o vórtice externo gira mais rapidamente do que o interno. Acalmar a tormenta significa aquietar a camada externa, fazer com que ela gire mais lento, para equiparar-se mais à velocidade de seu cerne – até que tudo que foi erguido em tal funil vicioso caia de volta na Terra, deite-se, torne-se novamente pacífico. Um dos passos mais importantes que vocês podem dar para ajudarem a acalmar a tormenta é não permitir que sejam tomados em uma comoção exaustiva de emoção ou desespero e assim, acidentalmente, contribuir para o afundamento e o turbilhão.

Não é nossa tarefa consertar o mundo todo de uma só vez, mas nos estendermos para consertar a parte do mundo que está ao nosso alcance. Qualquer pequena coisa calma que uma alma pode fazer para ajudar outra alma, para ajudar alguma porção deste pobre mundo sofredor, ajudará imensamente. Não nos é dado saber quais atos, ou de quem, farão com que a massa crítica emerja como um bem duradouro. O que é necessário para esta mudança dramática é o acúmulo de fatos, somando, somando a, somando mais, continuando. Sabemos que não serão necessários “todos na Terra” para trazer justiça e paz, mas apenas um pequeno grupo determinado, que não desistirá durante o primeiro, segundo ou centésimo temporal.

Uma das ações mais calmantes e poderosas que vocês podem fazer para intervir em uma tempestade é se levantar e mostrar sua alma. A alma no convés brilha como ouro em tempos obscuros. A luz da alma lança faíscas, pode levantar labaredas, construir sinais de fogo, causar matéria apropriada a queimar. Mostrar a lanterna da alma em tempos sombrios como estes – ser feroz e mostrar misericórdia a outros, ambos, são atos de imensa bravura e maior necessidade. Almas em conflito pegam luz de outras almas que estão plenamente acesas e dispostas a mostrá-lo. Se vocês quiserem ajudar a acalmar o tumulto, esta é uma das coisas mais poderosas que vocês podem fazer.

Sempre haverá momentos em que vocês se sentirão desencorajados. Eu também tenho sentido desespero muitas vezes em minha vida, mas eu não guardo uma cadeira para isto; eu não entretenho isto. Eu não permito que isto coma do meu prato. A razão é esta: até o âmago dos meus ossos eu sei algo, como vocês sabem. Que não poderá haver desespero, se vocês lembrarem porque vieram para a Terra, a quem vocês servem e quem enviou vocês aqui. As boas palavras que dizemos e os bons atos que fazemos não são nossos: eles são as palavras e atos do Um que nos trouxe aqui. Neste espírito, eu espero que vocês escrevam isto em seu mural: Quando um grande navio está no porto e ancorado, ele está seguro, não há dúvida. Mas não é para isto que grandes navios são construídos.

Isto vem com muito amor e oração para que vocês se lembrem de quem vieram e porque vocês vieram para esta bela e necessitada Terra.”

©Clarissa Pinkola Estes, Ph.D
Tradução de Monika Vonkoss

Para quem quiser acessar o texto em inglês, basta ir para http://www.huna.org/html/cpestes.html