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sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Rosa de Paracelso






Em sua oficina, que ocupava os dois aposentos do porão, Paracelso pediu a seu Deus, a seu indeterminado Deus, a qualquer Deus, que lhe enviasse um discípulo. A tarde caía. O escasso fogo da lareira projetava sombras irregulares. Levantar-se para acender a lamparina de ferro era demasiado trabalho. Paracelso, distraído pelo cansaço, esqueceu sua súplica. A noite apagara os alambiques empoeirados e o atanor [2] quando alguém bateu à porta. O homem, sonolento, levantou-se, subiu a breve escada em caracol [3] e abriu uma das folhas. Entrou um desconhecido. Também estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco; o outro se sentou e esperou. Durante algum tempo não trocaram palavra.
            
O mestre foi o primeiro a falar.

- Lembro-me de rostos do Ocidente e de rostos do Oriente - disse, não sem certa pompa. Não me lembro do teu. Quem és e o que queres de mim?

- Meu nome é o de menos - replicou o outro.  - Três dias e três noites caminhei para entrar em tua casa. Quero ser teu discípulo. Tudo o que possuo, trago para ti.

Puxou um taleigo e emborcou-o sobre a mesa. As moedas eram muitas e de ouro. Fez isso com a mão direita. Paracelso lhe dera as costas para acender a lamparina.[4] Quando se virou, percebeu que a mão esquerda segurava uma rosa. A rosa o perturbou.[5]
           
 Recostou-se, uniu as pontas dos dedos, e disse:

- Acreditas que sou capaz de elaborar a pedra que transforma todos os elementos em ouro e me ofereces ouro. Não é ouro o que me interessa, e se o ouro te interessa, nunca serás meu discípulo.

 - O ouro não me interessa - respondeu o outro. Estas moedas não são mais que uma prova de meu desejo de trabalhar. Quero que me ensines a Arte. Quero percorrer a teu lado o caminho que conduz à Pedra.

            Paracelso disse com vagar:

 - O caminho é a Pedra. Se não compreendes estas palavras, ainda não começaste a compreender. Cada passo que deres é a meta.

            O outro fitou-o com receio. Disse com outra voz:

 - Mas existe uma meta?

            Paracelso riu.

 - Meus detratores, que não são menos numerosos que tolos, dizem que não e me chamam de impostor. Não lhes dou razão, mas não é impossível que seja uma ilusão. Sei que “existe” um Caminho.

            Houve um silêncio, e o outro disse:

 - Estou disposto a percorrê-lo contigo, mesmo que tenhamos de caminhar muitos anos. Deixa-me atravessar o deserto. Deixa-me divisar mesmo de longe a terra prometida, ainda que os astros não permitam que eu a pise. Quero uma prova antes de empreender o caminho.

- Quando? - disse Paracelso inquieto.

 - Agora mesmo - disse o discípulo com brusca determinação.

Haviam começado a conversa em latim; agora, falavam alemão.

            O rapaz ergueu a rosa no ar.

 - Corre - disse - que és capaz de queimar uma rosa e fazê-la ressurgir da cinza, por obra da tua arte. Deixa-me ser testemunha deste prodígio. É o que te peço, e depois te darei minha vida inteira.

 - És muito crédulo - disse o mestre. Não tenho uso para a credulidade; exijo a fé.

            O outro insistiu.

 - Precisamente por não ser crédulo quero ver com meus olhos a aniquilação e a ressurreição da rosa.

            Paracelso pegara a rosa e brincava com ela enquanto falava.

 - És crédulo - disse. Dizes que sou capaz de destruí-la?

 - Ninguém é incapaz de destruí-la - disse o discípulo.

 - Estás enganado. Imaginas, porventura, que alguma coisa possa ser devolvida ao nada? Imaginas que o primeiro Adão no Paraíso poderia ter destruído uma única flor ou um talo de relva?

 - Não estamos no Paraíso - disse o jovem, teimoso -; aqui, sob a lua [6], tudo é mortal.

            Paracelso se erguera.

 - Em que outro lugar estamos? Acreditas que a Divindade é capaz de criar um lugar que não seja o Paraíso? Acreditas que a Queda é outra coisa que não ignorar que estamos no Paraíso? [7]

 - É possível queimar uma rosa - disse o discípulo, desafiador.

 - Ainda há fogo na lareira - disse Paracelso. Se atirasses esta rosa às brasas, acreditarias que foi consumida e que a cinza é verdadeira. Digo-te que a rosa é eterna e que apenas sua aparência pode se transformar. Bastaria uma palavra minha para que voltasses a vê-la.

 - Uma palavra? - disse o discípulo, estranhando. - O atanor está apagado e os alambiques estão cheios de pó. Que farias para que reaparecesse?
            
Paracelso olhou para ele com tristeza.

- O atanor está apagado - repetiu - e os alambiques estão cheios de pó. Neste ponto de minha longa jornada utilizo outros instrumentos.

 - Não ouso perguntar quais são - disse o outro, com astúcia ou humildade.

 - Falo do utilizado pela divindade para criar os céus e a terra e o invisível Paraíso em que estamos e que o pecado original nos oculta. Falo da Palavra que ensina a ciência da Cabala.
          
  O discípulo disse com frieza:

- Peço-te a mercê de mostrar-me o desaparecimento e o aparecimento de uma rosa. Para mim não faz diferença que utilizes alambiques ou o Verbo.

            Paracelso refletiu. Depois disse:

 - Se eu o fizesse, dirias que se trata de uma aparência imposta pela magia de teus olhos. O prodígio não te daria a fé que procuras. Deixa, pois, a rosa.

            O jovem o fitou, sempre receoso. O mestre ergueu a voz e lhe disse:

 - Além disso, quem és tu para entrar na casa de um mestre e exigir dele um prodígio? Que fizeste para merecer semelhante dom?

 - O outro replicou, trêmulo:

 - Sei que nada fiz. Peço-te em nome dos muitos anos que passarei estudando à tua sombra que me deixes ver a cinza e depois a rosa. Não te pedirei mais nada. Acreditarei no testemunho dos meus olhos.

Num gesto brusco, empunhou a rosa que Paracelso deixara sobre a mesa e lançou-a às chamas. 

 A cor sumiu e restou somente um pouco de cinza. Durante um instante infinito esperou as palavras e o milagre.

            Paracelso não se movera. Disse com curiosa singeleza:

 - Todos os médicos e boticários da Basileia afirmam que sou um embuste. Talvez estejam certos. Aí está a cinza que foi a rosa e que não a será.

            O rapaz sentiu vergonha. Paracelso era um charlatão ou um mero visionário, e ele, um intruso, transpusera sua porta e agora o obrigava a confessar que suas famosas artes mágicas não existiam.

            Ajoelhou-se e lhe disse:

 - Agi de forma imperdoável. Faltou-me a fé, que o Senhor exigia dos fieis. Deixa que eu continue vendo a cinza. Voltarei quando estiver mais preparado e serei teu discípulo, e no fim do caminho verei a rosa.

            Falava com genuína paixão, mas essa paixão era a piedade que lhe inspirava aquele velho tão venerado, tão agredido, tão insigne e afinal tão oco. Quem era ele, Johannes Grisebach, para descobrir com mão sacrílega que por trás da máscara não havia ninguém?
          
  Deixar-lhe as moedas de ouro seria uma esmola. Recolheu-as ao sair. Paracelso o acompanhou até o pé da escada e lhe disse que sempre seria bem-vindo naquela casa. Ambos sabiam que não tornariam a ver-se.
          
  Paracelso ficou só. Antes de apagar a lamparina e de sentar-se na cansada poltrona, recolheu o tênue punhado de cinzas na mão côncava e disse uma palavra em voz baixa. A rosa ressurgiu.




NOTAS:
[1] O subtítulo - “Conto Místico Mostra Testes da Caminhada Espiritual” - foi acrescentado por nós. O texto é reproduzido do volume “Nove Ensaios Dantescos & A Memória de Shakespeare”, de Jorge Luis Borges, Companhia das Letras, SP, copyright 1995-2008 by Maria Kodama/Editora Schwarcz, 102 pp. A tradução, excelente, é de Heloisa Jahn. Questionamentos sobre direitos autorais devem ser dirigidos aos editores de www.FilosofiaEsoterica.com  através do e-mail lutbr@terra.com.br.
 [2] Atanor: forno usado pelos alquimistas.
 [3] A escada em caracol é um símbolo maçônico e oculto. Indica a ligação entre céu e terra, ou mundo divino e mundo humano.  
 [4] Há um simbolismo neste trecho. Ao acender a Luz, o mestre se volta na direção oposta ao dinheiro e ao que ele significa.
 [5] A rosa e a cruz, a bênção e o sofrimento, são dois aspectos da caminhada espiritual. Nas primeiras páginas de “A Voz do Silêncio”, de H. P. Blavatsky, é feita esta advertência ao discípulo: “a tua alma encontrará as flores da vida, mas sob cada flor haverá uma serpente enroscada”. (A obra “A Voz do Silêncio” está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com .)
 [6] Sob a lua - em filosofia esotérica, o termo “sublunar” se aplica ao mundo físico e à dimensão mortal da vida. A Lua se relaciona com o eu inferior, a alma mortal. O Sol inspira o eu superior ou alma espiritual, e a Terra contribui com o corpo físico. Ao falar enfaticamente sobre as condições reinantes “aqui, sob a Lua”, o candidato a discípulo indica que permanece no mundo inferior e ainda não está apto para o discipulado. 
 [7] Este curto parágrafo sugere duas idéias centrais em filosofia esotérica, expostas na obra “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky: 1) As divindades estão sujeitas à Lei Universal e devem trabalhar de acordo com ela; e 2) A “queda do Paraíso” - a perda da sabedoria primordial a que um dia a humanidade teve acesso - ocorreu no plano mental e é provisória. A seu devido tempo, a humanidade reconquistará o estado espiritual primordial. 

Fonte: http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=1356#.VPzvfOEYOQE

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Doença: Desequilíbrio entre Alma e Personalidade


"...e embora em nossa mente física não possamos estar cientes do motivo do nosso sofrimento, que pode nos parecer cruel e injustificado, nossas Almas conhecem todo o propósito, e estão nos guiando para que tiremos de tudo o máximo proveito." 
Edward Bach 

Vários médicos e pesquisadores, (dentre eles: Hipócrates, Paracelso, Hahnemann, Edward Bach, etc.) desde a antiguidade, postulam que a doença e seus sintomas têm a capacidade de mostrar aos doentes seus conflitos e que, a medicina, em seus métodos de tratamento, deve ser uma medicina holística (holismo vem do grego “holos”, que significa “o todo”. 

Aparece pela primeira vez na obra “Holismo e Evolução”, de Jan Smuts, em 1921, governador britânico no sul da Índia), considerando que o ser humano é um todo composto de corpo, mente, emoções e alma, formando uma unidade – e, dessa forma encontrar a “verdadeira cura” para seus males. 

Hipócrates, Paracelso, Hahnemann e Bach criaram e desenvolveram os fundamentos de uma medicina holística, que ao invés de tratar a doença trata o ser como um todo, trata a personalidade – as naturezas mentais, emocionais e espirituais. Se há harmonia entre esses campos, a doença desaparece. 

A concepção holística percebe o universo como um todo harmonioso e indivisível. A saúde holística preocupa-se com o bem-estar do ser total, não limitada aos sintomas da enfermidade. Ela está baseada na premissa que corpo, mente e espírito formam uma unidade indivisível e que a desarmonia em um desses níveis causa a doença. 

Esta medicina tem uma concepção fisiológica da doença, iniciada por Hipócrates: explica a origem da doença a partir de um desequilíbrio entre as forças da natureza que estão dentro e fora da pessoa. Centra-se no paciente como um todo, e no seu ambiente, evitando ligar a doença a perturbações de órgãos corporais particulares. 

Para Edward Bach (1886 – 1936), a doença é um conflito entre a personalidade e a Alma. Esse conceito era muito avançado e sofisticado para a época. 

Bach acreditava que se o conflito fosse detectado e superado, a doença poderia ser evitada, dessa forma prevenindo o aparecimento do mal físico. Esse conflito entre personalidade e Alma, segundo Bach, tinha origem em dois erros primordiais, dois "pecados" contra a vida e a unidade: os seres humanos é que causam desequilíbrios, que têm origem no egoísmo (a Alma é perfeita). E, na crueldade para com as outras pessoas. 

As causas fundamentais das enfermidades são defeitos mentais-emocionais - e, além do egoísmo são: orgulho, injustiça, ódio, narcisismo, ignorância, instabilidade, medo e cobiça. Bach julgava a doença benéfica para o paciente - o verdadeiro caminho para a "cura". 

E, a Alma está sempre no comando, orientando, apaziguando a pessoa que permite-se ouvi-la. 

Bach formou-se em medicina - tendo especializações em cirurgia, bacteriologia, patologia e, posteriormente em homeopatia – e não se conformava com os tratamentos que ele considerava paliativos e, acreditava haver um meio de “curar” realmente. Começou a pesquisar um novo sistema de tratamento, através de “remédios” obtidos de plantas e flores – “eles curam, não pelo ataque à doença, mas por inundar nossos corpos com as belas vibrações de nossa Natureza Superior, na presença da qual a doença derrete como a neve sob a luz do sol...... E, finalmente, eles alteram a atitude do paciente tanto em relação à doença quanto em relação à saúde...

A saúde existe quando há perfeita harmonia entre Alma, mente e corpo e essa harmonia, e unicamente ela, precisa ser alcançada antes que a cura possa se realizar.” 

“...Consideremos agora porque a medicina deve tão inevitavelmente mudar. A ciência dos últimos duzentos anos tem encarado a doença como um fator material, que pode ser eliminado por meios materiais, o que, naturalmente, está completamente errado. 

A doença do corpo, como a conhecemos, é um resultado, um produto final, um estágio final de algo muito mais profundo. A doença origina-se acima do plano físico, mais próximo do mental. É totalmente o resultado de um conflito entre nosso Eu Espiritual e nosso Eu Mortal. Enquanto estes dois 'eus' estiverem em harmonia, temos saúde perfeita. Mas, quando há discórdia, ocorre o que conhecemos como doença.” 

Os florais de Bach, atuam através do tratamento do indivíduo e não da doença, harmonizando sua condição emocional, para que, através da transformação das atitudes em estados mais positivos, possa ser estimulado seu potencial de auto-cura. Desta forma, como consequência de uma mudança interna, pode ser restaurada a saúde física, já que o equilíbrio interior passa a auxiliar no combate à doença. 

Em 1930, Bach deixou Londres e foi morar no campo. Experimentou, em si mesmo, os estados mentais negativos que descreveu, até sofrer a doença física e, buscar a flor que o curasse. Assim ele encontrou as 38 flores e, delas, as essências florais. Todas as essências usadas em seu método de tratamento, são obtidas a partir de flores, arbustos ou árvores silvestres. 

Bach postulou: “ Na escolha dos remédios, precisamos considerar seu estado evolutivo em relação ao homem – os metais são subumanos. O uso de animais implicaria no emprego de crueldade e não deve haver nenhum traço dela na divina arte da cura. Assim, resta-nos o reino vegetal.” As essências florais são definidas como “ soluções líquidas infundidas de padrões, feitas com as flores de determinadas plantas que contêm uma marca específica que responde – equilibrando, reparando e reconstruindo – os desequilíbrios dos seres humanos nos níveis físico, emocional, mental e espiritual ou universal.” 

Não há moléculas das substâncias nos remédios florais e sim, energia das plantas. Os florais não são prescritos segundo o mal estar físico, mas sim, de acordo com o estado mental e emocional do paciente. As essências tratam os doentes e não as doenças. Bach substituiu o “similia similibus curentur” de Hahnemann por - “a virtude oposta cura a falha.” 

O método de Bach não consiste em repelir a influência adversa mas, em transformá-la na virtude oposta e, através dessa virtude expulsar a imperfeição. 

A doença é um estado do ser humano que indica que há um desequilíbrio, que não há harmonia. O sintoma é um sinal e um transmissor de informação pois, o seu aparecimento interrompe o fluxo da vida e, obriga o indivíduo a prestar-lhe atenção. 

A cura acontece pela transmutação da doença e não pela “vitória” sobre um sintoma. 

O Dr. Bach pesquisou flores, criando um tratamento para os estados mentais e emocionais que, geram as doenças. E, esses estados podem ser tratados amorosamente, pelas essências florais de Bach. 

Texto registrado na Biblioteca Nacional
Direitos Autorais de Martha Follain 
Reprodução permitida - citando os créditos da autora e a fonte
Fonte: www.floraisecia.com.br

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Paracelso

Paracelso


A primeira corrente médica europeia oposta à teoria dos humores desenvolveu-se no século XVI com Paracelso (1493-1541).
Theophrastus Philippus Aureolus Bombastus von Hohenheim nasceu na Suíça e era filho de um médico.
O nome ``Paracelso'' só foi adoptado por volta de 1529, significando ``acima de Celso''.
Aulo Cornelio Celso era o autor romano de uma De medicina, que tinha sido redescoberta e impressa há pouco tempo, estando no auge da sua fama (cf. secção Aulo-Cornelio-Celso).
A educação de Paracelso foi mais prática e mística do que seria usual num médico do seu tempo.
Com o pai aprendeu a medicina, a botânica, a mineralogia, a metalurgia e a filosofia natural.
O abade Johannes Trithemius, de Sponheim, ensinou-o sobre as artes mágicas e o ocultismo.
Também frequentou a escola de minas em Huttenberg e chegou a ser aprendiz nas minas de Schwaz.
Neste contexto, desenvolveu um maior interesse pelas manifestações da cultura contemporânea e local, dos camponeses e artesãos e menor veneração pela cultura clássica dos humanistas do seu tempo.
Desta forma a obra de Paracelso caracterizou-se por uma profunda religiosidade, por uma simultânea hostilidade à religião organizada e à medicina oficial, e aproximou-se da magia e da alquimia.
Embora se mantivesse formalmente como católico, Paracelso desenvolveu uma visão radical, reformista e profética da religião, onde a salvação se encontraria na descoberta das marcas da presença de Deus no mundo natural e na fé popular.

Paracelso manifestou grande distanciamento em relação à Medicina universitária do seu tempo, embora ela próprio tenha ensinado durante algum tempo numa Faculdade de Medicina e possa ter estudado noutra.
Em Basileia, onde o ensino era parte das suas funções como médico da cidade, Paracelso deu aulas em alemão e não em latim e anunciou que não ensinaria a partir dos autores clássicos, como Hipócrates ou Galeno, mas da sua própria experiência.
Para deixar bem clara a sua posição, queimou publicamente um exemplar do Canon de Avicena numa fogueira durante as festas de S. João.

A filosofia química de Paracelso, o seu pensamento médico e filosófico, é constituída por um conjunto de várias ideias mestras.
A primeira é a recusa da teoria humoral como paradigma explicativo da saúde e da doença, substituindo-a por uma filosofia natural de base química.
Paracelso não negou a existência dos quatro humores e dos quatro elementos clássicos (Fogo, Ar, Água e Terra), mas deu-lhes um papel inteiramente acessório, passivo, em relação a três outros elementos ou substâncias primárias, o Sal, o Enxôfre e o Mercúrio.
Este três são denominados os tria prima e constituiriam os princípios do corpóreo (sal), do inflamável (enxôfre) e do volátil (mercúrio).

Central no pensamento de Paracelso é a ideia da unidade entre o macrocosmo (o universo, tanto na sua parte terrestre como extra-terrestre) e o microcosmo (o corpo humano).

Os corpos vivos seriam compostos tanto de minerais como de espíritos astrais (essentia).

Ao pensarmos numa concepção química da natureza e da vida à luz do nosso pensamento de hoje, poderemos imaginar uma teoria assente nos materiais, mas o mundo é visto por Paracelso como controlado por forças espirituais, dirigidas em última análise por um grande mago, Deus.
Entre as forças esprituais imaginadas por Paracelso encontram-se sementes, as semina, enviadas directamente por Deus e os archei, princípios que controlavam vários processos vitais.
Mesmo as causas externas das doenças seriam essências espirituais, mas seriam reais e específicas para cada doença. Este era um conceito novo em relação à teoria humoral, onde as doenças seriam originadas por uma conjunção de causas não específicas.



Outra das ideias mestres de Paracelso consistia na adesão à teoria das assinaturas.
Segundo esta teoria, exposta em grande detalhe no livro Phytognomonica (1588) de Giambattista della Porta (1538-1615), a terra, enquanto palco destinado por Deus para a caminhada do homem para a sua salvação, encontrar-se-ia cheio de animais, vegetais e minerais úteis para o homem, nomeadamente para o seu tratamento, que aí teriam sido colocados pelo Criador para o seu usufruto, e que teriam sido devidamente marcados, assinados, através da sua forma, cor, textura, para que o homem reconhecesse a sua utilidade e a grandeza divina.
Assim, um fruto com a forma de um coração teria a assinatura da sua utilidade para doenças cardíacas, ou outro com a forma de um fígado para as doenças hepáticas.



J.P.Sousa Dias



Fonte: ff.ul.pt

Assim dizia Paracelso...



Assim dizia Paracelso...

I
Se, por um espaço de alguns meses, observares rigorosamente as prescrições, que se seguem, ver-se-á operar, em tua vida uma MUTAÇÃO TÃO FAVORÁVEL, que nunca mais poderás esquecê-las.
Mas, meu irmão, para que obtenhas o êxito desejado, é mister que adaptes tua vida à estrita observância destas regras.
São simples e fáceis de seguir, mas é preciso observá-las com a máxima perseverança.
Julgarás que a felicidade não vale um pouco de esforço?
Se não és capaz de pores em prática estas regras, tão fáceis, terás o direito de te queixares do destino?
Será tão difícil a tentativa de uma prova?
São regras legadas pela antiga Sabedoria e há nelas mais transcendência do que simplicidade, como parece à primeira vista.

II
Antes de tudo, lembra-te de que não há nada melhor do que a saúde.
Para isso deverás respirar, com a maior freqüência possível profunda e ritmicamente, enchendo os pulmões, ao ar livre ou defronte de uma janela aberta.
Beber quotidianamente, a pequenos goles, dois litros de água, pelo menos; comer muitas frutas; mastigar bem os alimentos; evitar o álcool, o fumo e os medicamentos, salvo em caso de moléstia grave.
Banhar-se diariamente, é um hábito que deverás à tua própria dignidade.

III
Banir absolutamente de teu ânimo, por mais razões que tenhas, toda a idéia de pessimismo, vingança, ódio, tédio, ou tristeza.
Fugir como da peste, ao trato com pessoas maldizentes, invejosas, indolentes, intrigantes, vaidosas ou vulgares e inferiores pela natural baixeza de entendimentos ou pelos assuntos sensualistas, que são a base de suas conversas ou reflexos dos seus hábitos.
A observância desta regra é de importância DECISIVA; trata-se de transformar a contextura espiritual de tua alma.
É o único meio de mudar o teu destino, uma vez que este depende dos teus atos e dos teus pensamentos: A fatalidade não existe.

IV
Faze todo bem ao teu alcance.
Auxilia a todo o infeliz sempre que possas, mas sempre de ânimo forte.
Sê enérgico e foge de todo o sentimentalismo.


V
Esquece todas as ofensas que te façam, ainda mais, esforça-te por pensar o melhor possível do teu maior inimigo.
Tua alma é um templo que não deve ser profanado pelo ódio.

VI
Recolhe-te todos os dias, a um lugar onde ninguém te vá perturbar e possas, ao menos durante meia hora, comodamente sentado, de olhos cerrados, NÃO PENSAR EM COISA ALGUMA.
Isso fortifica o cérebro e o espírito e por-te-á em contanto com as boas influências.
Neste estado de recolhimento e silêncio ocorrem-nos sempre idéias luminosas que podem modificar toda a nossa existência.
Com o tempo, todos os problemas que parecem insolúveis serão resolvidos, vitoriosamente por uma voz interior que te guiará nesses instantes de silêncio, a sós com a tua consciência.
É o DEMÔNIO de que SÓCRATES falava.
Todos os grandes espíritos deixaram-se conduzir pelos conselhos dessa voz íntima.
Mas, não te falará assim de súbito; tens que te preparar por algum tempo, destruir as capas superpostas dos velhos hábitos; pensamentos e erros, que envolvem o teu espírito, que embora divino e perfeito, não encontra os elementos que precisa para manifestar-se.

VII
A CARNE É FRACA Deves guardar, em absoluto silêncio, todos os teus casos pessoais.
Abster-se como se fizesses um juramento solene, de contar a qualquer pessoa, por mais íntima, tudo quanto penses, ouças, saibas, aprendas ou descubras.
É UMA REGRA DE SUMA IMPORTÂNCIA.

VIII
Não temas a ninguém nem te inspire a menor preocupação a dia de amanhã.
Mantém tua alma sempre forte e sempre pura e tudo correrá e sairá bem.
Nunca te julgues sozinho ou desamparado; atrás de ti existem exércitos poderosos que tua mente não pode conceber.
Se elevas o teu espírito, não há mal que te atinja.
Só a um inimigo deves temer: A TI MESMO.
O medo e a dúvida no futuro são a origem funesta de todos os insucessos; atraem influências maléficas e, estas, o inevitável desastre.
Se observares essas criaturas, que se dizem felizes verás que agem instintivamente de acordo com estas regras.
Muitas das que alegam que possuem grandes fortunas podem não ser pessoas de bem, mas possuem muitas das virtudes acima mencionadas.
Demais, riqueza não quer dizer felicidade; pode se constituir em um dos melhores fatores, porque nos permite a prática de boas ações, mas, a verdadeira felicidade só se alcança palmilhando outros caminhos, veredas por onde nunca transita o velho Satã da lenda, cujo nome verdadeiro é EGOÍSMO.

IX
Não te queixes de nada e de ninguém.
Domina os teus sentidos, foge da modéstia como da vaidade; ambas são funestas e prejudiciais ao êxito.
A modéstia tolherá tuas forças e a vaidade é tão nociva como se cometêsses um pecado mortal contra o ESPÍRITO SANTO.
Muitas individualidades de real valor tombaram das altas culminâncias atingidas, em conseqüência da Vaidade; a ela deveram certamente a sua queda Júlio Cesar, aquele homem extraordinário que se chamou Napoleão e muitos outros.
Oxalá, sigas sempre estas poucas regras para a tua FELICIDADE, para o teu BEM e a nossa ALEGRIA.

Fonte:
hermanubis