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sábado, 1 de novembro de 2014

Relação entre psique e corpo, vida e forma, espírito e matéria







A misteriosa relação existente entre vida e forma, entre psique e corpo e, por fim, entre Espírito e Matéria, sempre atraiu o interesse do homem, não apenas do ponto de vista científico como também do filosófico, sendo as mais diversas possíveis as respostas dadas a este problema.

Se, por exemplo, nos reportarmos a Descartes, veremos que ele afirma existir "uma irredutibilidade radical entre a alma e o corpo".

Recuando ainda mais no tempo, nos deparamos com Platão a declarar:

"É esse o grande erro do nosso tempo... Os médicos mantêm separada a alma do corpo".

Com base nisso, percebe-se que ele julgava existir uma imprescindível unidade entre o espírito e a matéria, entre a psique e o corpo, e assim chegava a concordar intuitivamente com aquela que é uma das verdades fundamentais do esoterismo: a unidade da vida.

"É um dos postulados fundamentais do esoterismo o de que matéria e espírito são uma mesma coisa, não se distinguindo senão por suas respectivas manifestações e pelas percepções limitadas que são as do nosso mundo sensível." (Das Cartas dos Mahatmas).

Isso concorda perfeitamente com o continuum postulado por Einstein como base da física universal.

De fato, com suas geniais descobertas sobre a constituição da matéria, Einstein provocou uma reviravolta na concepção dual energia e matéria, reconduzindo tudo a uma única realidade, talvez inacessível ao entendimento intelectual, mas a partir da qual é possível estabelecer matematicamente propriedades e deduzir leis físicas experimentalmente verificáveis.

Todavia, o homem ainda está longe de poder reconhecer efetivamente esta unidade, pois a sua consciência se acha identificada com a forma exterior, que ele julga ser a única realidade, e entra em contato com o mundo objetivo somente através dos cinco sentidos, enquanto ele ainda não desenvolveu a sensibilidade no plano das energias sutis e invisíveis.

Por isso, tudo o que nos pode provar a existência de uma "relação" entre o que há para lá do mundo sensível e da matéria é útil para nos conduzir pouco a pouco à reconquista da unidade subjacente à aparente dualidade.

Algo que nos pode ajudar nesse sentido é o estudo das influências da psique sobre a somatização, estudo de que se ocupa a medicina psicossomática, uma das correntes da medicina atual que admite haver determinada influência das emoções e dos estados psíquicos sobre o organismo, capaz de produzir distúrbios, mal-estares e doenças reais.

Há alguns decênios, o corpo e as suas funções eram considerados pela medicina somente em termos fisioquímicos, sendo o ideal do médico tornar-se, como diz Alexander, famoso médico psicossomático americano, "um engenheiro do corpo humano".

Hoje, ao contrário, foi se delineando no campo da medicina uma cor- rente bem definida, que considera o homem uma unidade biopsíquica, um indivíduo, não somente um corpo, mas um conjunto de pensamentos, de emoções e tendências funcionando de maneira coordenada sob a orientação de um eu consciente.

Cada um desses aspectos do indivíduo influencia o outro, pois guardam todos entre si relações que, mesmo ainda não totalmente esclarecidas pela ciência, deixam no ar a sua presença.

Foi o advento da psicanálise que modificou as concepções materialistas da medicina, com a descoberta do inconsciente e o estudo dos bizarros fenômenos da sintomatologia neurótica, que produz distúrbios que podem ser considerados verdadeiros processos patológicos.

Sobretudo, o estudo da "conversão de sintomas" na histeria possibilitou a compreensão de como os conflitos psíquicos inconscientes, os traumas removidos, podem se "converter" em mal-estares e distúrbios somáticos, pois tendo sido impedida a sua descarga externa pela repressão inconsciente, eles são descarregados sobre o físico.

Pouco a pouco, após novas observações e estudos, o campo de investigação e descoberta foi se ampliando a ponto de, hoje, a medicina psicossomática admitir a presença de influências emotivas e psíquicas sobre a somatização, não somente nos indivíduos neuróticos como também nos normais que tenham, porém, problemas emotivos não resolvidos, preocupações que se furtam de enfrentar e reconhecer, ou então nos que são submetidos a um stress contínuo e torturante.

A palavra stress deriva da física e da engenharia, onde, como é sabido, ela tem um significado bastante preciso, qual seja "solicitação", tratando-se de uma força que, aplicada a um dado sistema, pode alterá-lo.

Em sentido patológico, tal palavra passou a designar qualquer problema ou situação que nos provoque um estado de ansiedade ou de tensão. Isso nos leva a pensar que, se conseguíssemos manter um estado interior de serenidade, de calma e confiança em todas as situações difíceis de nossa vida, em face de qualquer acontecimento, mesmo grave, de modo a poder enfrentá-lo com coragem, lucidez e sobretudo com perfeita tranqüilidade emocional, provavelmente poderíamos evitar a maior parte dos nossos mal-estares físicos.

Todavia, esta "tranquilidade emocional" representa uma meta a ser alcançada depois de uma série de amadurecimentos e progressos; por enquanto, portanto, as palavras expressas acima representam somente uma indicação teórica.

Mesmo as doutrinas espirituais e esotéricas interpretam a maior parte das doenças físicas como conseqüência da falta de harmonia interior.

No livro de Alice A. Bailey, A Cura Esotérica, pode-se ler: 


"Todas as doenças são efeito de desarmonia entre forma e vida. O que une forma e vida... é a alma no homem e o Si humano.Quando é falho o alinhamento entre estes dois fatores, alma e forma, vida e expressão, sujeito e objeto, insinua-se a doença..." (p. 27).

A harmonia entre "vida e forma", entre alma e personalidade, pode ser alcançada somente quando se der o alinhamento e a integração de todos os aspectos do homem, ou melhor, podemos dizer que toda vida é uma passagem da desarmonia para a harmonia, da desordem para a ordem, da multiplicidade para a unidade.

Isso nos indica, em certo sentido, o programa a ser desenvolvido, o caminho a ser seguido para o nosso amadurecimento interior, meta esta que toda a humanidade, mesmo inconscientemente, tende a alcançar através de crises e sofrimentos, até que a consciência, desperta, não assuma o direcionamento das energias que compõem a nossa personalidade e não cumpra voluntária e conscientemente o trabalho de harmonização e de integração.

Em nível diverso, a psicologia profunda também persegue este objetivo e procura levar o homem para a completa auto-realização, orientando-o ao longo do caminho do conhecimento integra de si mesmo e da superação dos conflitos interiores.

A esta altura, torna-se necessário dizer que a origem da doença não é somente psicológica e subjetiva, mesmo que a maioria das doenças tenha sempre um componente psíquico.

Existem outras causas que as doutrinas esotéricas reportam ao Carma individual e também coletivo de toda a humanidade.

Tal assunto é extremamente amplo e, para dizer a verdade, ainda     um pouco obscuro e complexo, pois o aspecto esotérico das doenças e o seu estudo é algo ainda muito novo para o estágio atual de evolução da humanidade,tanto como a própria medicina psicossomática, que mesmo tendo muitos adeptos e seguidores entre os médicos, ainda é hostilizada e mesmo ignorada pela maioria.

Faz pouco que o pensamento dos homens começou a se orientar nessa direção, por isso somente uma minoria começa a se fazer sensível às energias sutis e ao mundo, das causas e significados, oculto sob as aparências fenomênicas.

Portanto, tudo o que se exprime a esse respeito será necessariamente parcial e incompleto, sendo apresentado sobretudo como um argumento sobre o qual refletir e meditar.

Nessa matéria, nada mais fácil do que recair na superstição e na atitude anticientífica, o que pode levar a um ocultismo e a um fenomenismo nocivos, que devem ser evitados a qualquer custo, pois estes, ao invés de nos guiar para a luz e para um progresso efetivo, nos levariam para trás, provocando a nossa regressão a estágios evolutivos há muito superados.

Hoje, as doutrinas esotéricas também devem ser difundidas como uma ciência, como um conjunto de conhecimentos baseados em pesquisas sérias e no estudo de aspectos e manifestações que, se não agora, certamente no futuro, poderão ser verificados e experimentados cientificamente.

Eis por que, juntamente com o estudo dos enunciados e explicações esotéricas e espirituais referentes às doenças do homem, é oportuno levar em consideração também tudo aquilo que foi observado pela medicina psicossomática e, além disso, procurar traçar um paralelo entre esta última e a medicina esotérica, destacando, na medida do possível, as analogias e os pontos de contato entre as duas.

O dever do estudioso do esoterismo, hoje, é o de estar no mundo e não o de abstrair-se dele, e de levar ao mundo o conhecimento e a luz que ele possui, tornando-se intérprete das verdades ocultas e traduzindo-as em termos compreensíveis e aceitáveis.

É útil, portanto, saber até que ponto chegaram as pesquisas e experimentações da medicina psicossomática e acompanhar os progressos — contínuos, embora lentos — da ciência em direção ao descobrimento da verdadeira natureza do homem.

Devemos, portanto, considerar, mesmo que rapidamente, os pontos de vista da medicina psicossomática.

A medicina psicossomática, conforme dissemos, reconhece o peso das influências emotivas e psíquicas sobre a saúde e divide os doentes em três categorias, conforme está escrito no tratado Medicina psicossomática de Weiss e English (ed. Astrolábio):

1º grupo:

Todos os que, não sendo loucos e tampouco neuróticos, apresentam uma doença que nenhuma alteração orgânica definida pode explicar.

A medicina psicossomática se interessa sobretudo por esse primeiro grupo. São os casos puramente "funcionais" da medicina prática.

2º grupo:

Todos os pacientes que apresentam distúrbios parcialmente provocados por fatores emotivos, mesmo que se verifiquem alterações orgânicas.

Este segundo grupo é mais importante do que o primeiro do ponto de vista do diagnóstico e da terapia, pois o fator psicogênico pode provocar, nesse caso, danos muito mais graves, devido à presença também de uma doença orgânica.

3º grupo:

Todos os distúrbios geralmente considerados de domínio essencialmente somático, mas que implicam também o sistema nervoso vegetativo, como, por exemplo, a hemicrania, a asma, a hipertensão essencial etc.

Com base nessa subdivisão esquemática, é possível deduzir que no pensamento dos médicos está se delineando também um outro problema muito importante, ou seja, o da eventual relação entre distúrbio psicológico e alteração anatômica.

Em geral, os médicos psicossomáticos distinguem as doenças como sendo orgânicas e funcionais.

As primeiras são as que apresentam alterações celulares e lesões anatômicas, as segundas são as que não apresentam alterações celulares nem lesões anatômicas e, portanto, devem ser consideradas "psicogênicas".

A concepção de doença que vem se transmitindo desde o século XIX poderia ser indicada da seguinte maneira:

Alteração celular - lesão anatômica - distúrbio funcional.

No século XX esta fórmula sofreu uma mudança e passou a ser expres- sa da seguinte maneira:

Distúrbio funcional - alteração celular - lesão anatômica.

Nada se sabe ainda, do ponto de vista científico, quanto ao que poderia preceder o distúrbio funcional, mas no futuro talvez se possa apontar um distúrbio psicológico como responsável por uma alteração funcional, através de uma determinada relação comprovável cientificamente.

A fórmula citada acima poderia, então, ser expressa da seguinte maneira:

Distúrbio psicológico - deficiência funcional - alteração celular - lesão anatômica.

A medicina psicossomática admite esta relação como uma hipótese bastante provável e, mesmo considerando a relação entre estado emocional e órgão físico ainda misteriosa, não afasta a possibilidade de que um fator psíquico venha, com o passar do tempo, a influir até mesmo sobre a matéria física e a produzir até mesmo uma lesão anatômica.

Isto é extremamente importante, pois nos traz de volta ao problema que mencionamos no início, ou seja, à misteriosa relação que une a psique ao corpo, o espírito à matéria.

Do ponto de vista esotérico, o homem é considerado uma unidade complexa, constituída de vários aspectos ou "veículos" subordinados a um centro de consciência de origem espiritual, o qual é chamado Si, Alma ou Eu Superior, sendo considerado o Verdadeiro Homem.

O corpo físico é o mais exterior destes veículos, sendo tido somente como um instrumento de expressão e de experiência do Si no plano material.

Portanto, não há uma "cisão" entre o espírito e a matéria, mas somente uma graduação de nível vibratório, pois todos os aspectos do Si, inclusive o veículo físico, emanaram do próprio Si para poderem se exprimir.


Portanto, o problema da relação entre vida e forma, se considerado do ponto de vista das doutrinas esotéricas, pode ser facilmente resolvido, porquanto se trata de um fenômeno semelhante ao da indução eletromagnética. De fato, é preciso imaginar os veículos do homem como "campos de energia" em contínuo movimento e em comunicação entre si.

Estes campos de energia (que poderiam corresponder à "psique" da psicologia) constituem a ponte entre o espírito e a matéria, entre o Pai e a Mãe, como são simbolicamente chamados estes dois aspectos do Uno.

"O Pai-Mãe fia um tecido, cuja extremidade superior está presa ao Espírito-Luz da Escuridão Una e a inferior a seu escuro fim, a Matéria. Este é o Tecido do Universo, tecido com as duas substâncias fundidas em uma." (Helena P. Blavatsky: Doutrina Secreta - Estâncias de Dzyan).

O homem, microcosmo que reflete o macrocosmo, revive em si mesmo esta verdade universal e nele o corpo físico pode ser considerado "o escuro fim do Tecido", e o Espírito "a Luz", enquanto a sua psique (isto é, os vários veículos) representam "o tecido do meio".

Portanto, para o esoterismo a relação entre Espírito e corpo não representa um mistério, sendo considerada, do ponto de vista energético, como sempre presente e atual.

A cisão existe do ponto de vista da consciência, pois o homem não tem consciência de si mesmo, já que se identificou com a extremidade mais densa e exterior do "tecido", com a parte mais superficial e mecânica de sua natureza, vivendo na inconsciência de sua origem e de sua realidade profunda.

Esta é a razão pela qual a ciência que pesquisa e indaga dos fenômenos baseando-se no seu aspecto objetivo e partindo, por assim dizer, do exterior, topa freqüentemente com obstáculos intransponíveis e aparentemente inexplicáveis.

De fato (citando Aurobindo), "parece evidente que analisando o físico e o sensível nunca chegaremos ao conhecimento do Si, de nós mesmos ou d'Aquele que chamamos Deus... Portanto, se existe um Si, uma Realidade não evidente para os nossos sentidos, é preciso procurá-la com outros meios que não os da ciência física". (De A síntese da Yoga, vol. II, p. 22.)

E que outros meios são esses?

Sobretudo o estudo da consciência do homem, que é uma realidade subjetiva, em face da qual até mesmo os cientistas se sentem perplexos. 

O conhecido biólogo C. H. Waddington escreve a este respeito:

"Nos deparamos, no que respeita à consciência de si, com um mistério fundamental que ocupa o centro de toda a nossa vida ..."

De fato, não há como classificar e estudar "cientificamente" a consciência, entendida como autoconsciência, fenômeno em si totalmente independente dos fatos físicos.

É justamente na análise dos fenômenos subjetivos da consciência e no desenvolvimento gradativo desta que o esoterismo e a ciência talvez possam se encontrar através da psicologia, que se pode considerar hoje como uma ciência verdadeiramente fundamental para a vida.

A medicina psico-espiritual procura investigar as causas das doenças do homem servindo-se não somente dos meios oferecidos pela psicologia como também dos meios oferecidos pelas doutrinas esotéricas e, considerando as doenças como alterações da relação existente entre psique e corpo, e espírito e matéria, pode ajudar a nos conhecermos melhor e a alcançarmos a harmonia e a auto-realização.

Fonte:
Medicina Psico-Espiritual
Angela Maria La Sala Bata
Tradução de Pier Luigi Cabra

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ecologia e Psicossíntese


"Temos visto um despertar mundial de preocupação com o ambiente de nosso planeta, e ao mesmo tempo continuamos a ouvir sobre a devastação das florestas tropicais, os danos à camada de ozônio, a perda de terras cultiváveis e sua desertificação, a acumulação e o derramamento acidental de materiais radioativos e tóxicos, a destruição de antigos ecossistemas e de culturas humanas nativas, a extinção de milhares de espécies. 

Não podemos mais negar que nossos sistemas de apoio à vida no planeta Terra sejam gravemente expostos ao perigo, talvez além de um possível reparo.

Como achamos nosso caminho em tal mundo? 

Os pensadores e escritores preocupados com o futuro do planeta falam todos da necessidade de mudanças no modo de pensar, na atitude, nos valores culturais, começando com o indivíduo. 

Qual é a natureza desta mudança e como isto acontecerá? 

Como podemos ajudar a despertar nosso potencial humano e colocá-lo a serviço da paz, da justiça e da sustentabilidade, agora e para as futuras gerações?

Muitos de nós almejamos promover uma diferença, suscitar melhorias para nós mesmos, para o outro e para nossas crianças. 

Sentimos que temos que aprender e crescer como indivíduos ao mesmo tempo que nós tentamos mudar as coisas ao nosso redor. 

Queremos ficar mais eficientes e mais curadores para o planeta em nossas ações. 

Queremos nos sentir conectados com o mundo natural à nossa volta e com os outros. 

Buscamos sabedoria e inteireza".



Molly Young Brown

Extraído do livro "Growing Whole: Self-Realization on an Endangered Planet" de Molly Young Brown

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Psicossíntese



No seu sentido mais básico, a psicossíntese é o processo de crescimento pessoal - a tendência natural em cada um de nós de harmonizar, ou sintetizar, nossos vários aspectos em níveis sempre mais altos de organização. 

Em seres humanos, esse anseio de evolução para um nível mais refinado se torna consciente, o que permite facilitar e cooperar com esse processo natural. Para tornar essa cooperação mais eficiente, é necessário adquirir uma compreensão conceitual e estrutural, e entrar em contato com o leque de técnicas práticas disponíveis. 

A psicossíntese oferece uma metodologia e conceitos claros - dentro de um sistema abrangente e flexível - para ajudar e facilitar o impulso humano natural rumo a seu desenvolvimento e a sua integração.

A psicossíntese acredita que cada ser humano possui um vasto potencial que, geralmente, é pouco reconhecido e pouco usado. Ela também acredita que cada um de nós tem dentro de si a capacidade de ter acesso a esse potencial. 

A psicossíntese é vista frequentemente como um processo de tomada de consciência, de desvelamento do seu próprio potencial, no qual a pessoa possui um conhecimento interno e uma sabedoria daquilo que necessita a qualquer momento para que esse processo se desenvolva. O papel do terapeuta é ajudar a identificar esses recursos internos, apoiar o processo, e estar atento ao que está acontecendo.


O Supraconsciente

A Psicossíntese foi inicialmente formulada em 1910 pelo psiquiatra italiano Roberto Assagioli (1888-1974), um pioneiro do movimento psicanalítico na Itália e um contemporâneo de Freud e Jung. Cedo no seu trabalho, ele observou que essa repressão dos impulsos mais altos, supraconscientes (conhecida mais tarde como "a repressão do sublime") poderia ser tão danosa para a psique quanto a repressão do material inconsciente inferior. 

A psicanálise tradicional reconhece um inconsciente primitivo, ou "inferior" - a fonte de nossos impulsos atávicos e biológicos. Mas há também um inconsciente "superior", um supraconsciente - um reino autônomo no qual se originam nossos impulsos mais evoluídos, tais como: o amor e a vontade altruísticos, a ação humanitária, a inspiração artística e científica, a introspecção filosófica e espiritual e a procura do propósito e do significado da vida. A psicossíntese trabalha com a integração do material do inconsciente inferior e com a realização e a atualização do conteúdo do supraconsciente.

Para este fim, ela usa uma larga gama de técnicas para contatar o supraconsciente e para estabelecer uma ponte com aquela parte de nosso ser onde a verdadeira sabedoria deve ser encontrada. O supraconsciente é assim acessível, em grau variável, para cada um de nós, e pode se tornar uma grande fonte de energia, de inspiração e de orientação. A psicossíntese nos ajuda a entrar em contato e a manifestar essa parte de nós mesmos tão completamente quanto possível na vida cotidiana.


O Diagrama do Ovo e o Diagrama da Estrela

A psicossíntese usa diversos diagramas para ajudar no entendimento dos diversos componentes do self. Embora estejam necessariamente limitados em escopo e perspectiva, esses diagramas são úteis por fornecerem uma representação pelo menos parcial do mistério do self. O Diagrama do Ovo e o Diagrama da Estrela são básicos para a psicossíntese. O primeiro pode também ser visto em cor. O segundo descreve as funções psicológicas, com a vontade exercendo o papel central.



O Diagrama do Ovo

1. O Inconsciente Inferior
2. O Inconsciente Médio
3. O Inconsciente Superior ou Supraconsciente
4. O Campo da Consciência
5. O Self Consciente ou "Eu"
6. O Self Superior
7. O Inconsciente Coletivo




O Diagrama da Estrela

1. Sensação
2. Emoção-Sentimento
3. Desejo Impulso
4. Imaginação
5. Pensamento
6. Intuição
7. Vontade
8. Ponto central: O Eu, ou Self pessoal


O Self

O self é uma entidade soberana e independente dos diversos aspectos da personalidade, tais como o corpo, os sentimentos e a mente. 

Este conceito é achado nas principais religiões e, cada vez mais, em ramos da psicologia e da filosofia ocidental. 

Livrando esse conceito de qualquer fundo doutrinal e examinando-o empiricamente, achamos primeiro um centro de consciência e de vontade. Isto é o "self pessoal", o "Eu" ou o centro da identidade pessoal, a partir do qual os diversos aspectos da personalidade podem ser reconhecidos, reorganizados e integrados. Porém, o self pessoal é distinto do "Self Transpessoal" que é o ponto central do nível do supraconsciente. O self pessoal é um centro de identidade e de ser mais profundo e abrangente, onde a individualidade e a universalidade se combinam.

Uma imagem útil é a de uma orquestra onde os músicos representam as diversas partes ou aspectos de nós mesmos. Sem um maestro, haveria pouca cooperação porque cada um dos músicos tentaria que fosse executada a sua música favorita, de acordo com a sua própria interpretação. A aceitação e a submissão ao maestro resulta numa integração da orquestra, e isto se reflete subseqüentemente na música. Enquanto o maestro representa o self, o self transpessoal pode ser imaginado como o compositor ou o produtor.


Funções do Self

As duas funções centrais do self pessoal são a consciência e a vontade. A consciência do self permite que a pessoa seja claramente consciente do que está acontecendo dentro e em volta dela, e que ela se perceba sem distorção e sem ficar na defensiva. Isto foi chamado de "atitude do observador interno". Na medida em que a pessoa consegue alcançar este ponto de centramento, as reivindicações da personalidade e sua tendência para a auto-justificação não a impedem mais de se ver com uma visão clara.

A vontade é considerada na psicossíntese como uma expressão direta do self e ocupa um lugar central. Libertando a vontade do Self, ganhamos a liberdade de escolha, a responsabilidade pessoal, o poder de decisão sobre nossas ações e a possibilidade de controlar ativamente e dirigir as muitas funções da personalidade. Deste modo, somos liberados da reação inútil aos nossos impulsos internos não desejados e às expectativas dos outros. Nós nos tornamos verdadeiramente "centrados" e, gradualmente, ficamos capazes de seguir um caminho que está conforme com o que é melhor dentro de cada um de nós. No nível mais alto do desenvolvimento da vontade, procuramos alinhar nossa vontade pessoal com uma vontade mais universal, aumentando assim a capacidade de servir as forças de evolução e de encontrar um significado e um propósito mais profundos em nossas vidas pessoais e em nossas tarefas sociais, e a capacidade de funcionar de maneira mais eficiente e mais serena no mundo, num espírito de cooperação e boa vontade.


Falsas Identificações

Agir "a partir de nosso centro" pode ser difícil, como todos nós já experimentamos. Uma das maiores dificuldades encontradas quando se aprende a agir "do centro" é a grande quantidade de falsas identificações que nós fazemos com aspectos internos específicos de dentro de nós. Por exemplo, podemos nos identificar as vezes com um sentimento passageiro de medo ou de raiva e perder ou distorcer nossa verdadeira perspectiva. Ou podemos nos identificar com uma de nossas "subpersonalidades" - esses aspectos semi-autônomos e freqüentemente contraditórios de nós mesmos que seguem uma rotina previsível, pré-programada, quando são evocados por um determinado conjunto de circunstâncias. 

Muito do trabalho básico da psicossíntese é orientado para o reconhecimento e a harmonização das subpersonalidades. Deixamos, então, de ser controlados por essas subpersonalidades de maneira desamparada, e podemos aprender progressivamente a dirigi-las conscientemente. Para isso, é essencial a aprendizagem do processo fundamental da "des-identificação" de tudo que não é o self, e da "auto-identificação" ou realização de nossa verdadeira identidade como um centro de consciência e de vontade.


Métodos Utilizados

Há uma grande variedade de técnicas utilizadas na psicossíntese para atender à diversidade de necessidades apresentadas por situações diversas e pessoas diversas. 

Cada pessoa é tratada como um indivíduo, e um esforço é feito para achar os métodos mais adequados à situação existencial, ao tipo psicológico, às metas individuais, às necessidades e ao caminho de desenvolvimento da pessoa. 

Algumas das técnicas mais comumente usadas são: a imaginação dirigida, a consciência e o movimento do corpo, o trabalho com símbolos, o trabalho com a arte, manter um diário, o treinamento da vontade, a fixação de meta, o trabalho sobre os sonhos, o desenvolvimento da imaginação e da intuição, a gestalt, os modelos ideais e a meditação. 

A abordagem principal da psicossíntese é o tratamento da pessoa como um todo, embora em cada sessão se possa focalizar um nível ou um aspecto particular da pessoa. Tendo como objetivo a integração do corpo, dos sentimentos e da mente, a psicossíntese tem como meta promover um processo de crescimento contínuo, onde aplicamos as atitudes e técnicas básicas da psicossíntese na vida cotidiana para promover uma atualização mais jovial, harmoniosa e plena de nossas vidas.


Fases da Psicossíntese

Toda pessoa é um indivíduo, e a integração de cada pessoa segue um caminho particular. Mas no processo global da psicossíntese, podemos distinguir duas fases sucessivas - a psicossíntese pessoal e a transpessoal. Na psicossíntese pessoal, a integração da personalidade ocorre em volta do self pessoal, e o indivíduo atinge um nível de funcionamento, em termos do seu trabalho e de suas relações, que seria considerado como plenamente saudável pelos padrões atuais de saúde mental.

Na fase transpessoal da psicossíntese, a pessoa aprende a alinhar-se com o Self Transpessoal e a expressar as energias desse Self Transpessoal, manifestando então qualidades tais como: responsabilidade social, espírito de cooperação, perspectiva global, amor altruístico e propósito transpessoal. Frequentemente, as duas fases se sobrepõem, e pode haver uma atividade transpessoal considerável bem antes da fase de psicossíntese pessoal estar completada.

O texto acima foi traduzido e adaptado do site Psycosynthesis (Canada)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O que é a Psicossíntese?


A Psicossíntese é uma abordagem para o crescimento da pessoa, que foi desenvolvida pelo psiquiatra italiano Roberto Assagioli (1888-1974) por volta de 1910, e que vem evoluindo até os dias de hoje.

No seu significado mais básico, a psicossíntese se refere ao processo de crescimento pessoal - a tendência natural em cada um de nós de harmonizar, ou sintetizar, nossos vários aspectos em níveis sempre mais altos de organização. 

A psicossíntese acredita que cada um de nós tem um impulso inato para o desenvolvimento de si mesmo, e que nós podemos escolher apoiar esse processo conscientemente. 

Sabe-se geralmente que nós temos uma responsabilidade nesta direção, porém nem sempre sabemos como progredir nela. 

Para atender a isso, a psicossíntese fornece respostas tanto teóricas como práticas. Ela oferece uma estrutura que permite um entendimento mais completo de nós mesmos, de nossas capacidades e de nossas relações e oferece ainda habilidades e técnicas para nos ajudar a lidar com estes de maneira eficiente e segura.

A psicossíntese é fundada na premissa que a vida humana tem um propósito e um significado, e que nós participamos de um universo ordenado e estruturado para facilitar a evolução da consciência de si. 

Uma consequência disso é que a vida de cada pessoa tem um propósito e um significado dentro deste contexto mais amplo, e que o indivíduo pode descobrir isso.

O Self

Ao contrário da maioria das abordagens em psicoterapia, a psicossíntese reconhece um aspecto nosso que é difícil de nomear. Foi chamada a parte de nós "mais alta" ou "mais profunda". 

Em todo caso, essa parte é para nós a fonte de inspiração, de orientação, de conforto, de força, de paz, de esperança. 

A psicossíntese chama esta parte de "self", e acrescenta que a integração, a síntese, a unificação da personalidade acontece em volta desse self. Como esse "self" tem dois aspectos - o pessoal e o transpessoal - a síntese acontece em duas etapas - primeiro a pessoal, e depois a transpessoal.

O reconhecimento do self é essencial, porque sem ele, a tentativa de integração se faz em detrimento da diversidade e da individualidade. 

Uma unidade que é realizada por meio da uniformidade é, por natureza, frágil, e é ameaçada pela singularidade e pela diferença. Por outro lado, uma unidade baseada no self é estável, porque ela pode equilibrar os interesses do todo com os interesses de cada uma das partes.

Força e Gentileza

Um dos pontos fortes da psicossíntese é que ela fornece métodos práticos para reconhecer e ter acesso à parte "mais alta" ou "mais profunda" de nós mesmos, de maneira que o processo de crescimento acontece de acordo com uma "sabedoria interna". 

Isto significa também que no acesso a esta parte verdadeiramente fortalecedora de nós mesmos, o próprio self interno da pessoa não é violado ou forçado. Ele pode se desenvolver no seu próprio tempo e ritmo, e de acordo com seu próprio processo. Deste modo, o trabalho interior se realiza honrando todas as partes do ser e favorecendo o desbloqueio suave dos obstáculos internos que impedem o crescimento, sem criar bloqueios adicionais no processo.

Contexto

A meta da psicossíntese é a integração e a visão do todo. 

Como a psicossíntese é muito ampla e adaptável, ela pode ser - e efetivamente é - aplicada a muitas áreas de atividade onde essa meta é requerida. 

Citamos como exemplos: o aconselhamento e a terapia, a educação, a medicina e a área de saúde preventiva, os negócios e a administração, a diplomacia e as relações internacionais, a religião e o desenvolvimento organizacional. 

Por isso, os profissionais consideram a psicossíntese - com sua postura compreensiva, com suas ferramentas e suas técnicas - muito valiosa para lhes dar um sólido embasamento nas suas próprias profissões.

A Psicossíntese, que vem evoluindo desde 1910 quando de sua elaboração por Roberto Assagioli, tem muito a oferecer ao mundo e seu potencial parece ser ilimitado. É um movimento crescente que já tem centros disseminados no mundo todo: na Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, E.U.A., Japão, México e Nova Zelândia e na maioria dos paises da Europa.

O texto acima foi traduzido e adaptado do site Psycosynthesis (Canada)

sábado, 27 de agosto de 2011

A Vida como um Jogo e um Desempenho de Papéis


Como regra geral, nós vivemos a vida mais ou menos como ela vem. Contudo, viver é na realidade uma arte e deveria ser a maior de todas as artes.

Cada arte tem suas técnicas específicas; do mesmo modo, a arte da vida tem suas próprias técnicas, e dominá-las é indispensável para praticá-la com sucesso. 

Uma dessas técnicas é considerar a vida como um jogo e uma atuação teatral. Lidar com jogo não é fácil. O conceito de jogo é complexo, multi-facetado e difícil de compreender, ao ponto em que se poderia dizer que se brinca de esconde-esconde com quem quer que seja que tente identificá-lo e defini-lo. Huizinga, em seu livro "Homo Ludens" (Gallimard, Paris, 1951) lista os pontos de vista de vários escritores sobre o assunto. 

Assim, o jogo foi considerado:

  • Uma forma de descarregar um excesso de vitalidade;
  • Uma maneira de encontrar relaxamento;
  • Um treinamento para preparar-se para alguma atividade séria;
  • Um meio para desenvolver o auto-controle;
  • Um meio para dominar os outros;
  • Uma tomada para o competir;
  • Um método inofensivo de descarregar tendências prejudiciais;
  • Uma atividade compensatória;
  • Um substituto fictício e imaginário para a gratificação de desejos inatingíveis.


Cada um desses pontos de vista enfatiza um aspecto dos jogos, mas cada um é parcial, e este fato chama para uma observação preliminar: as funções de um jogo devem ser distinguidas a partir de sua natureza. Na verdade, a mesma atividade é ou não é um "jogo" de acordo com a atitude psicológica, a intenção, a finalidade que motiva o "jogador". 

O esporte oferece um exemplo claro disto. Considerado etimologicamente, e em sua natureza pura e significado original, o esporte é jogo, lúdico, algo feito para a diversão. Mas hoje em dia muitas pessoas envolvem-se com o esporte de uma maneira cada vez mais "séria", e por razões como ambição ou recompensa financeira, que são incompatíveis com sua natureza intrínseca. Perde-se assim a qualidade do jogo e assume-se o caráter de trabalho. Quando se transforma em uma profissão, o esporte não é mais verdadeiramente esporte. Na realidade, não há nenhuma clara linha divisória entre o "jogo" e o "não-jogo" ou, mais precisamente, em qualquer atividade ostensivamente lúdica a proporção do que é jogo e do que é "sério" (no sentido estrito da palavra) é variável. Certamente, pode mudar durante a própria atividade. Isto é externalizado claramente no caso de crianças que, começando a lutar de brincadeira, ficam irritadas e a lutar pra valer. Jogar jogos de azar (de apostar) fornece um exemplo impressionante em que a proporção elevada da seriedade tende a minimizar o elemento do jogo. Onde o impulso de apostar se transformou em opressão, paixão obsessiva, o aspecto "brincadeira" desaparece.

Uma atitude verdadeira, uma atitude esportiva, visa "o jogar bem" ao invés do "vencer". São dois aspectos diferentes: ganhar pode depender de diversos fatores contingentes, tais como uma habilidade inferior do adversário ou condições favoráveis de um tipo ou de outro. O mesmo se aplica ao perder. O desportista genuíno não se sente obrigado a vencer às expensas do estilo, da boa forma e do "fair play". E, como nos demais campos do esforço humano, estar livre da preocupação de ganhar ou não, pode contribuir para a vitória!

Poderia ser acrescentado muito mais ao assunto de jogar jogos e suas funções na educação, na psicoterapia e na psicossíntese, mas eu me deterei em discutir um aspecto particular do jogo, interpretado em seu sentido mais amplo, isto é como um desempenho, ou uma atuação. O jogo e a atuação têm afinidades e diferenças. Uma afinidade é indicada pelo fato de que vários idiomas, além do Inglês, usam a mesma palavra ora com o sentido de jogar, ora com o sentido de atuar em produção teatral. O "jouer" francês e o alemão "spielen" são exemplos. As diferenças serão mostradas a seguir.

Atuar uma parte ou um papel na vida, na verdade vários papeis, constitue uma técnica da Psicossíntese de importância fundamental. 

Pode-se certamente considerar como a técnica pivot da arte de viver, com a qual todas as outras são ligadas e na qual, em algum sentido, elas são dependentes. Inicialmente, esta afirmação pode causar surpresa e mesmo ser considerada como chocante, ou considerada uma atitude demasiadamente frívola. 

Contudo, a observação desapaixonada de nós mesmos e dos outros, sem preconceitos e ilusões, revela - certamente forças acima de nosso reconhecimento - que cada um de nós desempenha, ou "atua" uma variedade de "papéis" na vida. Isto é inevitável, e tais papéis constituem o "enredo" de nossas relações interpessoais e sociais. Mas na maioria das vezes, nós interpretamos nossos papeis inconscientemente, sem estar cientes deles e nós os desempenhamos mal, desajeitadamente, como péssimos atores amadores. 

Entre povos primitivos e em civilizações antigas, o jogo e os desempenhos teatrais tiveram um caráter sagrado e foram considerados como a maneira em que os deuses atuavam. Na continuidade desta tradição, a Representação da Paixão da Idade Média sobreviveu até hoje em alguns lugares, tais como Oberammergau, enquanto outras cidades, como Grassina, perto de Florença, as fizeram re-viver. A história deste caráter sagrado da "atuação" é amplamente documentado no livro de Huizinga.

Wagner também conferiu um significado profundo e uma finalidade espiritual ao teatro musical. Ele denominou alguns de seus dramas musicais "Buhnenweishestsiele", isto é, performances alegres e sagradas (ou consagradas).

A concepção da vida como uma performance no palco é antiga e difundida. Apesar de esta não ser a ocasião de seguir sua origem histórica, um ou dois pontos sobre ela tem uma relevância especial neste contexto. A própria manifestação cósmica tem sido considerada como um jogo, uma performance, uma dança divina. Assim, a "Dança de Shiva" aparece frequentemente em esculturas de templos indianos. A Bíblia, um trabalho de grande solenidade, contem a passagem: "Deus ludit in orbe terrarium".

Um soneto do filósofo Tommaso Campanella está numa linha similar. Aqui estão seu começo e fim:

"No teatro do mundo, nossas almas performam um disfarce,
escondendo-se atrás de seus corpos e de seu efeitos."

"Quando no final nós entregamos nossas máscaras à terra, ao céu e ao mar,
Em Deus nós distinguiremos quem fêz e disse a melhor coisa."

O escritor e dramaturgo russo moderno, Nicholas Evreinoff, enfatizou este aspecto da vida em seu livro "O Teatro da Vida", em que se detém em boa parte do texto sobre o que ele denomina o "instinto teatral". Ao dirigir-se ele prório ao "My God Playwright" (Meu Deus Dramaturgo), ele diz:

"Meu rosto e corpo são senão máscaras e fantasias com as quais o Pai Celestial vestiu meu ego antes de conduzi-lo paro o palco deste mundo, onde está destinado a atuar uma dada peça. Este verso, a peça a mim confiada pelo meu Produtor cósmico "Playwright", é uma peça difícil. Contudo, não negligenciarei minha tarefa nem queixar-me-ei. Como convém a um nobre e leal ator, eu devo invocar todas as minhas forças e desempenhar meu papel neste palco da melhor forma possível. E eu estou certo que o "Playwright" não deixará de recompensar meu esforços."

Em várias de suas peças, Pirandello explorou este tema, mas sua abordagem é pessimista. Ele caracteriza os aspectos fictícios, ilusórios e dramáticos da interação entre os papeis. Hermann Keyserling, ao contrário, na sua décima segunda "Meditação Sul-Americana", intitulado significativamente como "Divina Comédia", [Hermann Keyserling "Méditations Sud-Améncaines", Estoque, Paris - 1932] interpretou mais profundamente do que qualquer outro autor as relações entre jogo, performance e vida real.

Como uma técnica da Psicosíntese, a arte de atuar na vida é fundamentada na estrutura psicológica do ser humano. Isto é descrito em meu livro Psicossíntese: Manual de princípios e técnicas, Ed. Cultrix, São Paulo - 1982 [ou Psychosynthesis: A Manual of Principles and Techniques, Hobbs Dorman, New York - 1965 / Paper back Edition: Viking Press, 1971].

A produção de uma peça no teatro requer contribuições de três agentes principais e suas mútuas colaborações: 

  • o autor, 
  • o diretor e 
  • os atores. 


No caso da "peça" que cada um de nós tem que interpretar no palco da vida, o autor é, ou deveria ser, o Ser mais Elevado ou "Transpessoal". Ele seleciona o tema, a tarefa, ou melhor, a peça que o personagem deve assumir e as cenas que deveria "representar". Deve ser notado que, via de regra, isso acontece sem a clara consciência do ego, ou "eu", uma vez que o "Self Transpessoal" opera a partir do nível da superconciência. 

O "eu" consciente, o centro da consciência, é o diretor. Sua função é levar adiante o plano de vida que é revelado ao "eu" por etapas, através da inspiração, o alerta interior e as revelações das circunstâncias da vida. O sucesso da produção depende em grande parte do diretor, da compreensão do enredo da peça e situações, da sua aceitação destes e do cuidado e habilidade com que ele dirige o seu elenco. 

Quem são esses atores? São as várias sub-personalidades criadas por cada e todo ser humano durante o curso de suas vidas.

No diagrama abaixo, três sub-personalidades são descritas. O círculo central representa a área do "eu" consciente, no qual uma parte de cada sub-personalidade penetra enquando sua maior parte opera sobre em um de seus níveis inconscientes.



1. O Inconsciente Inferior

2. O Inconsciente Médio

3. O Inconsciente Superior ou Supraconsciente

4. O Campo da Consciência

5. O Self Consciente ou "Eu"

6. O Self Transpessoal

Deve ser observado que as respectivas áreas do inconsciente descritas como ocupadas não são fixas na sua extensão, podendo cada sub-personalidade "subir" ou "descer" durante a atividade na qual está envolvida. Além disso, cada nível acomoda não somente uma sub-personalidade (como mostrado no diagrama para melhor esclarecimento) mas uma variedade delas.

Cada sub-personalidade executa uma função específica, ou, melhor dizendo, ela desempenha seu próprio "papel" na família e na vida social. A família cria os "papéis" do filho ou da filha, do marido ou da esposa, do pai ou da mãe. No ambiente da sociedade, os "papéis" correspondem à carreira ou ocupação de uma pessoa nas várias funções públicas às quais pode servir.

Expandindo a analogia teatral, vamos examinar primeiramente a relação autor-diretor, isto é, a abordagem entre o "Transpessoal" e o "eu" consciente. Estas relações são variadas. Infelizmente, até que certo estágio do desenvolvimento do indivíduo seja alcançado, esse relacionamento é distorcido geralmente pela falta da compreensão, das interpretações errôneas, da resistência e dos conflitos por parte do "eu". Este palco pode gradualmente permitir que o “eu” consciente reconheça seu próprio interesse em compreender a intenção do "Autor", para pôr-se de acordo com o ' Self ' e para cooperar com Ele.

Em seguida, há as relações entre o diretor e os atores. O sucesso da "produção" depende da autoridade e habilidade do diretor em realizar suas responsabilidades específicas: treinar os atores a melhor interpretar suas peças, traçar suas interações, etc. Em termos de vida, isto corresponde ao trabalho do "eu" consciente em desenvolver, em treinar e em harmonizar suas várias sub-personalidades de modo que aprendam a arte da cooperação uma com a outra.

Vem então os "ensaios" que correspondem ao "treinamento imaginativo"; isso deve ser submetido antes de executar qualquer "papel" na vida. Tais "ensaios" têm uma função aparentada àquela do jogo como uma preparação para a vida; este é um método que deveria ser empregado muito mais - e especialmente na família e na educação escolar.

De um ângulo um tanto diferente, um dos mais importantes e clareadores aspectos da analogia entre a atuação e a vida refere-se às relações entre a personalidade do ator, como ser humano, homem ou mulher, e os personagens que ele interpreta sucessivamente, sua "máscara" num sentido psicológico. Isto traz à tona uma importante e muita discutida pergunta: o quanto deve um ator se identificar com o personagem que está interpretando? Ou ele deveria manter-se psicologicamente - ou seja, emocionalmente - destacado da peça para permiti-lo aplicar seus recursos técnicos completos para o controle de sua interpretação? Que método faz o melhor ator?

Diderot despertou discussões vívidas sobre esta pergunta com a posição que ele tomou em seu livro, "The Paradox of the Comedian". Ele defendeu que a "sensibilidade extrema (no sentido emocional) pertence ao ator medíocre, enquanto a sua total ausência contribui para a formação de um ator sublime". Expresso dogmaticamente desta forma, essa posição incorreu em muita desaprovação, e deu forma a um tema de investigação científica. Entre vários investigadores, os professores Marzi e Vignoli entregaram um questionário a dezoito atores italianos proeminentes e publicaram os resultados de seu exame num artigo "The Expression of the Emotions on the Stage" (A Expressão das Emoções no Palco) publicado na Rivista di Psicologia - 1944-1945. Esses resultados indicaram que a extensão com que os atores se envolvem no contexto emocional dos personagens que eles interpretam varia amplamente. Alguns deles responderam que eles experimentam uma identificação parcial com o personagem. De acordo com Renzo Ricci, a emoção que um autor sente no palco assemelha-se às emoções reais, com suas reações psicossomáticas. Ele afirma que:

"Após preparar-se, o ator está no personagem, ou o personagem está nele. A fusão não está completa entretanto... até os momentos mais dramáticos, em que o ator abandona-se completamente ao papel do personagem".

Outros declararam que durante suas performances mantêm uma atitude de observação e crítica, e uma clara consciência deles próprios. Anna Proclemer vai além ao dizer:

"o ator deve sentir o personagem, mas não durante a atuação, quando o controle deve ser estabelecido para impossibilitar qualquer entrega à emoção".

Alguns como Ruggero Ruggeri e Elena da Venezia falam de uma separação, e a observação de Anna Torrieri carrega um significado particular a esse respeito:

"Para controlar a sim mesmo em qualquer situação de emergência na vida, para habituar-se a sim mesmo a um controle contínuo, é necessário tornar o "controle" no teatro algo habitual, quando o papel será vivido com o equilíbrio e o auto-controle que caracterizam a vida real".

Seria mais realísta dizer "deveria caracterizar".

Assim, estes atores mantêm sua auto-consciência individual distinta, apesar dos papeis que eles encenam no teatro, porém em diversos graus. Por meio da habilidade de preservar um estado de auto-controle e de auto-observação, eles estabelecem uma dicotomia entre a parte deles que observa e dirige e a parte que atua, e assim atingem a desidentificação. Suas afirmações são significativas por que elas são espontâneas e representam o fruto de sua experiência profissional, ao invés de opiniões guarnecidas de pesquisa psicológica técnica.

Vamos agora examinar como isso pode ser aplicado às funções que desempenhamos na vida, e quais conclusões podemos tirar disso. Nesta esfera também, podemos observar que os graus de identificação do "ator" com o "personagem" variam amplamente. Em geral, um ator "vive" o seu papel "instintivamente" (usando a palavra no sentido usual e não no sentido científico), ou seja, sob comando de impulsos interiores ou por reações ou respostas a estimulos externos e condicionamentos. Este fato provê a base para as concepções psicológicas que dizem respeito a seres humanos ativados por necessidades, direcionamentos e reflexos condicionados. Estas concepções, à quais as teorias comportamentais e reflexológicas estão enraizadassão, são extremamente unilaterais no sentido que elas importam somente ao que é menos "humano" na natureza do homem. Ainda assim, eles devem receber crédito por focarem este aspecto da natureza humana, e por nos tornar atentos a ela, ajudando-nos - intencionalmente ou não - a lidar com ela.

É verdade que a vasta maioria dos homens e mulheres se permite de ser controlados pelos seus "papéis", e frequentemente são tão influenciados por eles, que virtualmente não têm nenhuma vida autônoma, genuína e auto-consciente fora deles. Exemplos típicos são aquelas mulheres que se identificam inteiramente com sua função maternal e aqueles homens que apenas se sentem genuínos e importantes quando realizam sua função como oficial comandante, magistrado, diretor, e assim por diante. Existem também aqueles que se identificam com suas posses. Um proprietário de terras francês uma vez disse: "eu sou minha terra".

Existem razões importantes, entretanto, para não nos identificarmos tão proximamente com um único papel ou uma única função. Se nos restringirmos a um papel apenas, nos comprometendo totalmente a ele e concentrando todo o nosso interesse nele, limitamos gravemente toda a nossa capacidade de atender adequadamente outras funções que devemos realizar. O funcionário público, o profissional que dedica todas as suas forças ao trabalho terá pouco tempo e energia sobrando para atender propriamente à sua função como marido ou pai. Da mesma forma, a mulher que se identifica totalmente com a função materna não será capaz de preencher propriamente seu papel de esposa e arriscará o atrofiamento das suas potencialidades de experiência e expressão como um ser humano no meio social. Além disso, quando a realização da função à qual a pessoa tem se dedicado quase que exclusivamente torna-se impossível por força das circunstâncias (doenças, idade, perda ou separação do parceiro matrimonial ou do filho), uma séria crise pode ocorrer, um colapso que pode conduzir a doenças psicossomáticas ou mesmo suicídio. Em contraste, uma pessoa que tenha adquirido habilidade em distribuir os interesses vitais, auto-estima e energias entre os papeis que a vida lhes tenha atribuído, e que ela voluntariamente tenha aceito, estará em posição de encontrar compensações e, em alguns casos, de fazer um uso ativo de seus talentos e de assumir atividades que até então haviam sido negligenciadas ou deixadas de lado.

Por outro lado, há aquelas pessoas que mantém uma constante auto-observação durante suas atividades, e se submetem a uma frequente auto-crítica. Algumas delas, de fato, praticam isso em excesso permitindo, dessa forma, que sua auto-análise e criticismo inibam ou mesmo paralisem suas ações. Estas estão entre os extremamente introvertidos.

Também existem aqueles que conscientemente exercem um papel por motivos utilitários, para enganar e explorar ou por diversão. Mas isso não deve encorajar a crença de que a forma instintiva de viver é a única genuína, e que toda "atuação" consciente é vergonhosa. Essa noção falsa pode ser chamada de "falácia da hipocrisia", uma vez que iguala sinceridade com impulsividade descontrolada.

Em vez disso, existe uma maneira de "atuar" na vida que não somente é genuína e real, mas que o é num padrão tão elevado que às vezes pode se constituir numa obrigação.

Em geral, a diferença entre os dois estilos de vida pode ser comparada à diferença entre natureza e arte. Um estilo é viver "naturalmente", de acordo com os ditados do instinto, o outro é exercer a arte de viver, ou "vivendo como arte". 

O correto relacionamento entre as duas formas é sinteticamente expressa no ditado: "A arte é baseada na natureza, mas a aperfeiçoa". 

De um outro ponto de vista, pode ser dito que o valor ético e espiritual genuíno, e portanto o humano, de nossa conduta repousa na intenção que a anima, no objetivo ao qual é direcionada, e finalmente na sabedoria e na habilidade técnica que informa nossas ações.

Vamos agora aplicar o que tem sido dito acima para descrever o método que pode conduzir alguém a "desempenhar" bem o seu "papel" no palco do mundo. 

O passo essencial consiste em tomar conhecimento do nosso ser verdadeiro, com o nosso "Self" e com o que realmente somos. Mas, a fim de atingirmos isso, devemos fazer uma viagem de descobertas para colocar em ordem os vários elementos que compreendem nossa personalidade, tomar conhecimento da "anatomia" e "psicologia" da nossa estrutura psicológica. 

Esse é o significado real da velha, mas sempre tópica, injunção: "Conheça a ti mesmo". Sua realização demanda a desidentificação de nós mesmos dos muitos conteúdos da nossa psique e das nossas várias subpersonalidades. Isso nos habilita a reconhecer-nos como "uma identidade auto-consciente e permanente": o "eu" pessoal (auto-conhecimento) e o "eu" transpessoal (ou espiritual).

Há um exercício, o "Exercício de Desidentificação e de Auto-identificação", que é de muita ajuda no cultivo dessa atitude de "observador gentil". Este exercício é publicado no meu livro Psicossíntese: Manual de princípios e técnicas, Ed. Cultrix, São Paulo - 1982, capítulo IV [ou Psychosynthesis: A Manual of Principles and Techniques, Hobbs Dorman, New York - 1965, chapter IV, page 116].

Terminando a analogia teatral, a segunda fase é aquela na qual as sub-personalidades existentes são transformadas e treinadas pelo "diretor". É a esse estágio que as duas outras "senhas" adotadas pela psicosíntese se referem: Possua a ti mesmo e Transforme a ti mesmo. Todos as técnicas da Psicossíntese tem isso como objetivo.

Mas alguém pode perguntar: qual é o grau - a porcentagem, por assim dizer - de identificação parcial durante a ação? 

Isso varia amplamente de acordo com o tipo de ação e o tipo psicológico da pessoa em questão; mas, em cada caso existe uma proporção ideal e pode ser encontrada e adotada. 

Uma regra geral a aplicar quando uma nova função ou habilidade é desenvolvida é de dedicar a máxima atenção para ela no início, aprendendo-a e realizando-a com o melhor de nossa capacidade. 

Como o inconsciente toma controle gradativamente, a prática reduz progressivamente a necessidade de acompanhar de perto a sua realização, enquanto a qualidade da performance melhora, com cada vez menos envolvimento emocional. Isso é análogo à forma com a qual os atores, tornando-se gradativamente familiares com o seu papel na peça, podem sustentar o decréscimo do seu envolvimento pessoal nela. Existe também um método eficiente, análogo aos ensaios de uma peça, que consiste na ação preparatória por meio de exercícios de "Treinamento Imaginativo".

O uso de todos esses métodos, no entanto, pressupõe uma auto-consciência clara e estável, o uso de uma vontade firme e decidida, e um senso de auto-conhecimento constante, como sujeito passivo e, ao mesmo tempo, como agente. Essa atitude pode ser tomada ao nível do "eu" pessoal, o ego, mas a forma mais eficiente é de estabelecer o contato e relacionamento com o "eu" Transpessoal, do qual o "eu" pessoal é uma emanação ou reflexão. A partir dessa Realidade elevada, nós podemos constantemente tirar a luz e a força requeridas para resistir a toda atração interna e externa, toda tentação e indução que costumam desviar-nos da nossa tarefa: para realizar a melhor atuação de que somos capazes no desempenho do papel que nos é atribuído, ou que nos escolhemos, no grande drama humano.


Por Dr. Roberto Assagioli 

Artigo "Life as a game and stage performance: (role playing)" publicado por Roberto Assagioli em 1973. O artigo foi traduzido para o português por Luizete dos Santos Camargo. 

(#) Roberto Assagioli, Dr.: (Veneza, Itália, 27 de fevereiro de 1888 - Capolona d'Arezzo, 23 de agosto de 1974). Médico, especializou-se em neurologia e psiquiatria. Estudou e manteve contatos pessoais com Sigmund Freud e Carl Jung. Em 1910, em Veneza, apresentou os ensinamentos de Freud à comunidade médica, sendo um dos pioneiros do movimento psicanalítico na Itália.
Na mesma época, por volta de 1910, Assagioli estabeleceu os fundamentos da Psicossíntese. Ele percebeu que havia a necessidade de alguma coisa além da análise. Era a necessidade de reconhecer as diversas partes da pessoa e de integrá-las num todo mais amplo, harmonizando-as através da síntese. Assagioli afirmava que, da mesma maneira que havia um inconsciente inferior, havia também um superconsciente. Ele o descreve como a Fonte Superior do Ser, que contém nosso potencial mais profundo, a fonte na qual se encontra o Projeto que o Ser veio desenvolver e manifestar nesse Planeta. Assagioli formulou suas descobertas numa abordagem que ele chamou de Psicossíntese.
Em 1926, fundou em Roma o Istituto di Psicosintesi. Com o advento do Fascismo na Itália, o Instituto teve que ser fechado. Logo após a guerra, Dr. Assagioli reabriu o Istituto di Psicosintesi em Florença (onde se encontra até hoje), além dos 14 Centros de Psicossíntese em diversas cidades italianas.
A partir de 1958 foram fundados, a nível mundial, o Psychosynthesis Research Foundation, nos EUA, o Centro de Biopsicossíntese, na Argentina e numerosos outros Centros na Índia, Califórnia, Canadá, Europa e Brasil.