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domingo, 24 de abril de 2011

A Páscoa na visão da Antroposofia



A Páscoa é uma festa repleta de imagens fortes e marcantes. No hemisfério sul, ela ocorre no outono, no primeiro domingo após a primeira lua cheia. A Páscoa é sempre comemorada no domingo, mostrando uma relação com o Sol, astro que rege esse dia da semana, mas também tem relação com a Lua cheia, lembrando que a lua não tem luz própria, apenas reflete a luz do sol.


Antigamente, porém, ela acontecia apenas no hemisfério norte, na época da primavera, quando as pessoas ainda tinham grande relação com as forças da natureza. Naquela época, sobreviver ao rigor do inverno era um grande desafio, e chegar à primavera era motivo de grande celebração. Era nesta época do ano que a vida recomeçava, as cores retornavam, tudo desabrochava. Era a vitória da vida sobre a morte.

A palavra Páscoa, vem do hebraico, PESSACH, que significa passagem. Quando Moisés desafiou o faraó e conduziu seu povo rumo à Terra Prometida libertando-os da escravidão. Neste fato histórico, mais uma vez ocorreu a vitória da vida sobre a morte.


Na tradição cristã, a Páscoa novamente ocupa uma importância fundamental. Após os quarenta dias da quaresma e depois de refletir sobre os acontecimentos vivenciados por Jesus Cristo durante a Semana Santa (domingo de ramos, condenação da figueira, encontro com adversários no templo, unção, santa ceia e lava pés, morte, descida ao reino dos mortos e ressurreição), os cristãos comemoram, no domingo de Páscoa, a glória da ressurreição de Cristo.


Com sua paixão, morte e ressurreição, Cristo deixou-nos o precioso legado de uma nova vida após a morte, e quando seu corpo e sangue penetraram nas profundezas da terra ela se torna um centro de luz, vivificada pelo Eu do Cristo. Diante desta consciência, podemos refletir sobre nossas atitudes perante esta Terra, nosso planeta, tão sagrado.


Outra imagem, que claramente mostra à idéia de vida, morte e ressurreição é a metamorfose da lagarta em borboleta, representando a morte do corpo, a transformação e o renascer. A imagem arquetípica da borboleta que, quando lagarta, fecha-se num escuro casulo deixando a luz e o calor transformarem sua existência em cor e leveza.


O coelho e os ovos também possuem um significado especial nas comemorações pascais. O ovo representa uma vida interior, ainda em estado germinal, que se desenvolve, rompe uma casca dura e em seguida desabrocha em sua plenitude, assim como Cristo ressuscitado saiu de sua tumba. O coelho, por sua vez, representa um animal puro, digno de carregar e trazer os ovos da Páscoa. Além disso, é um animal muito fértil, que se reproduz com facilidade.


Atualmente, porém, a Páscoa, assim como as outras festas anuais, não é encarada sob um ponto de vista espiritual.

Na maioria das vezes, não vivenciamos a possibilidade de deixar morrer em nós o que não queremos mais, o que já não nos serve, e também não permitimos que o novo em nós possa florescer.

Deveríamos ter claro dentro de nós a possibilidade da vida, morte e ressurreição de hábitos, atitudes e modos de pensar, para tornarmos pessoas melhores, menos endurecidos e insensíveis diante da realidade atual, com seus constantes altos e baixos.

Se tivermos consciência da necessidade de cada um realizar este exercício interior, poderemos então resgatar o real sentido da Páscoa.

Feliz Páscoa!


Por Silberto Azevedo

Fontes Bibliográficas 
Anna Maria Macrander Karassawa. A Páscoa no contexto Waldorf.
Edna Andrade. Época da Páscoa – síntese.
Helena Maria de Jesus. O significado da Páscoa.
Rudolf Steiner. O Evangelho de São João. Editora Antroposófica, 2007.


Fonte:
lemnis farmacia

segunda-feira, 14 de março de 2011

As 7 Deusas Gregas / O Feminino e seus Arquétipos




Arquétipos são fontes derradeiras daqueles padrões emocionais de nossos pensamentos, sentimentos, instintos e comportamentos.

No caso, arquétipo feminino é tudo o que pensamos com criatividade, inspiração, tudo o que acalentamos, amamentamos, gostamos, todas as fusões e impulsos de absorver, reproduzir, tudo o que nos impele à união e a proximidade humana, é lua, água, ciclo.

É receber, acolher, enfeitar, proteger, é lutar pelo bem dos amados, é ser onça, leoa, materna.

E, assim como não somos apenas o signo do Sol no nosso mapa, mas sim a conjunção de todos os signos e planetas, também não somos apenas um dos aspectos apresentados e sim todos os arquétipos, já que somos influenciados por eles no decorrer de um mesmo dia e na própria vida.

A abordagem mitológica ajuda na compreensão do ser humano e em seu posicionamento no mundo que o cerca.

O mito serve como elemento de orientação.

Assim como os pais ensinam os filhos como e a vida, relatando-lhes as experiências vividas, os mitos também fazem a mesma coisa, porém num sentido mais amplo, delineando padrões para a caminhada existencial, com o recurso da imagem e fantasia.

Jung vê o mito “como uma verdade profunda de nossa mente”.

Temos, como representação dos padrões arquetípicos femininos, sete exemplos retirados da Mitologia Grega que, de acordo com Jean Shinoda Bolen, psiquiatra junguiana, são a projeção dos arquétipos do sexo feminino.

Sua divisão se dá em:

1. Invulneráveis

* as três grandes deusas virgens:

Ártemis, Atená e Héstia - as quais nunca se deixaram dominar por seus pares masculinos.

2. Vulneráveis

* as três deusas:

Hera, Deméter-Coré ou Deméter-Perséfone, que foram violentadas, raptadas ou humilhadas por seus consortes.

3. Afrodite, que fecha os arquétipos e representa uma deusa alquímica.

Por estar sujeita a transmutações, tanto é a inspiradora dos amores carnais (Afrodite Urânia) como também o é do amor etéreo, superior (Afrodite Celeste).

As Sete Deusas Gregas

1. ARTÊMIS / DI

Ártemis (Lua): é a mulher atlética, que aprecia a vida ao ar livre e os animais. Ama a natureza e dedica-se á proteção do meio ambiente. Respeitada, sabe viver só e sente-se bem assim. Pode ser vingativa e cruel, se ultrapassarem o limite imposto por ela mesma no seus encontros; irmã gêmea de Apolo, deus do Sol. Sua mãe, Leto, era uma divindade da natureza, filha de Titãs. Seu pai era Zeus, deus líder do Olimpo. Deusa do parto.

· Pedido ao pai: arco e flechas, uma quadrilha de cães de caça, ninfas para acompanhá-la, uma túnica curta para correr, montanhas e selvas como seus lugares especiais e a castidade eterna. Seu pai lhe concedeu tudo e mais o privilegio de fazer suas próprias escolhas.

· Deusa da caça e da Lua – personifica o espírito feminino independente. Podia objetivar qualquer alvo e sempre acerta-lo.

· Capacidade de concentração e direcionamento possibilitam-na atingir qualquer meta.

· Como deusa virgem, era imune de se apaixonar e representa um sentido de integridade, uma atitude de cuidar de si mesma. Esse arquétipo possibilita a mulher sentir-se completa sem um homem.

· Representa as qualidades do movimento feminista: empreendimentos e competência, independência dos homens e das suas opiniões, e preocupação pelos atormentados, pelas mulheres fracas e pelos jovens. Irmandade entre as mulheres.

· Afinidade com a selva e a natureza não doméstica, responsável pela identificação que algumas mulheres experimentam entre si mesmas e a natureza, quando saem com mochilas pelas montanhas, adormecem no luar, caminham numa praia deserta etc.

a) Trabalho: Empenha-se no trabalho que tem valor subjetivo para ela. É estimulada pela competição e não se amedronta com oposição. Os interesses perseguidos por ela não têm valor comercial e não conduzem a uma carreira. Algumas vezes, o interesse é tão pessoal ou fora do comum, tão absorvente quanto ao tempo, que a falta de sucesso no mundo ou a falta de relacionamentos são garantidos.

b) Homens: Fraternal.

· Como sua irmã, Apolo é andrógeno. O casal Ártemis-Apolo é o modelo mais comum de relacionamentos da mulher-Artemis. Pode resultar num casamento assexuado, amigável.

Algumas mulheres até casam com homossexuais e valorizam o companheirismo e a independência que cada parceiro permite ao outro.

· O 2º padrão comum é o de envolvimento com homens que as sustentam. Tal homem é uma pessoa com a qual ela se sente à vontade. Se for incompatível pode lembrar os conflitos pai-filha: o marido não aprova suas atitudes, é rebelde etc.

· O 3º tipo de homem atraído pela pureza de Ártemis, sua virgindade e identificação com a natureza primitiva, é o tipo Hipólito, um jovem atraente, que se dedicou a deusa Ártemis e ao celibato. Tais homens que parecem ser tão puros, ficam ofendidos pela sexualidade pura e simples. Eles podem estar na fase final da adolescência ou no começo da fase adulta e ser castos.

c) Filhos: Estar grávida ou amamentando não é motivo de realização para a mulher - Ártemis. Não sente atração para ser mãe, no entanto gosta de crianças. Quando mães, encorajam a independência, ensinam seus filhos a se defenderem sozinhos e pode ser cruel na defesa deles.

Não olham para trás com saudades da época que eram bebês, olham para frente, quando seus filhos serão independentes.

2 - ATENAS OU MINERVA

Atená – Palas: mulher extremamente profissional e prática, busca realizar-se numa carreira onde possa mostrar sua sabedoria. Equilíbrio, cultura e educação. Não briga à toda, envolvendo-se em causas justas, às quais defende com argumentos irrefutáveis, o que lhe concede quase sempre o merecimento da vitória.

· Filha do pai: Saltou da cabeça de Zeus, usando uma lança aguda numa das mãos, emitindo um grito de guerra.

· Protetora, conselheira e patrona de homens heróicos, tomou o partido da patriarquia.

· Como deusa da sabedoria, era cohecida por suas vitórias e soluções práticas. Como arquétipo, é seguida por mulheres de mente lógica, governadas pela razão.

· Quando a mulher reconhece o modo intenso com que sua mente trabalha, como uma qualidade feminina, ela pode desenvolver uma auto-imagem positiva, ao invés de se amedrontar de estar masculinizada.

· Como deusa virgem, é como Ártemis, motivada por suas próprias prioridades. Difere desta no sentido que procura a companhia dos homens, precisa estar no meio da ação e do poder masculino.

· Personifica o “adulto sensível” com sua conformidade aos padrões adultos tradicionais e a falta de romantismo ou idealismo.

· É estrategista e eficaz para a guerra e outros assuntos políticos

· Como deusa das artes faz coisas que eram ao mesmo tempo úteis e esteticamente agradáveis.

· Enquanto arquétipo de “filha do pai”, representa a mulher que tende aos homens poderosos, que têm autoridade e poder (homem patrão). Muitas secretárias têm esse tipo.

· Vive o justo meio termo, nunca os excessos.

· Estar encouraçada é seu traço. As defesas intelectuais conservam tal mulher longe do sofrimento. No meio da agitação emocional, permanece impermeável, enquanto observa, qualifica e analisa o que esta acontecendo.

· Mulher Atenas: Prática, desconfiada, desinibida, segura. Tipicamente tem boa saúde, não tem conflitos mentais e é fisicamente ativa. Usa roupas práticas, duráveis e sem influência da moda.

a) Trabalho: trabalha em direção a um fim, aceita a realidade e se adapta. No lar, se sobressai nas artes domésticas, usando sua mente prática e olho estético para dirigir uma ordem doméstica eficiente.

b) Relação com as mulheres: Distante ou evitada. Têm falta de amigas. Competitiva.

c) Relação com os homens: Atrai-se por homens bem sucedidos, e não tem paciência com pessoas sonhadoras. Para ela, adjetivos como neurótico, bom coração e sensível, descrevem os perdedores. Só os heróis tem vez. Gosta dos homens como amigos ou mentores, e não tanto como amantes.

d) Filhos: Como mãe, não vê a hora de seus filhos chagarem a maturidade para fazerem projetos juntos, e mostrar-lhes a vida. Adora filhos competitivos, extrovertidos e intelectualmente curiosos.

3 - HÉSTIA OU VÉSTIA

· Recusou-se a casar, permanecendo virgem para sempre. Então Zeus, lhe concedeu um privilégio, ao invés de um presente de casamento: ela tem seu lugar no centro da casa para receber o melhor em ofertas.

· Proporciona a mulher sentimento de integridade e inteireza. Se concentra em sua experiência interior subjetiva. Fica absorvida quando medita.

· Seu modo de aprender, é olhando-se interiormente, e sentir-se intuitivamente.

· Deusa da lareira: arquétipo ativo nas mulheres que acham que cuidar do lar equivale à meditação. Este arquétipo de desenvolve em comunidades religiosas.

· Arquétipo da mulher sábia que tudo passou e viu, portanto experiente.

a) Trabalho: falta-lhe ambição e ímpeto, não valoriza o poder. Destacam-se em profissões em que se requer calma e paciência.

b) Mulheres: tem poucos amigos e não se interessa por conversa fiada, política ou intelectual. Seu dom é ouvir com o coração compassivo, permanecendo centrada no meio de qualquer perturbação que uma amiga lhe traga, proporcionando um lugar caloroso ao lado de “sua lareira”.

c) Homens: sexo não é muito importante. Sexo é como vir para casa ou um santuário. Adapta-se a forma tradicional do casamento. É fiel, embora não exija fidelidade. Pode aparentar dependência, porém mantém sua autonomia interior, uma em si mesma. Não precisa de um homem para sentir-se emocionalmente completa. Ela prefere cuidar do lar, aprecia a autonomia de decidir como será sua casa e gosta do amparo econômico que lhe permite tempo para sua dedicação.

d) Filhos: Pode ser um pouco desligada como mãe, quando se volta para o interior, e seu amor pode ser uma sombra por demais impessoal e não demonstrado. Mas usualmente dá aos filhos amor e atenção. Permite aos filhos que sejam eles próprios pois não tem ambições para eles. Seus filhos não precisam se rebelar.

4 - HERA OU JUNO

Hera – (Juno): mulher ligada ao poder. São as líderes políticas, governantes, regentes. Por outro lado, são apegadas à tradição, não abrindo mão de um casamento convencional, com moralidade, fidelidade e companheirismo, sendo boas esposas e “imperatrizes” em suas casas.

· Irmã e esposa de Zeus. Ciumenta, sua raiva dirigia-se à “outra” e nunca à Zeus. Outras essas que haviam sido enganadas. Hera vingava-se nelas em seus filhos ou nos espectadores.

· Representa os três estados na vida da mulher: virgindade, casamento, separação e viuvez.

· Representa o desejo ardente de ser esposa. É capaz de se estabelecer numa relação, ser leal e fiel, suportando dificuldades com o companheiro.

· Casamento aqui tem três aspectos: a satisfação de uma necessidade interior, reconhecimento exterior entre marido e esposa e luta pela totalidade através do “matrimônio sagrado”.

· Reage a perda com raiva e não com depressão.

a) Trabalho: aspecto secundário em sua vida, porém pode ser boa e alcançar êxito aí. Contudo, se não for casada, se sentirá fracassada.

b) Mulheres: Quando está só, mantém relações sociais, mas casada se afasta das amigas. Suas amizades não são aprofundadas.

c) Homens: atraída por homens de sucesso. Supõe que sexualidade e casamento vêm juntos. Depende do marido para despertá-la sexualmente. A idéia de sexo submisso provavelmente surgiu com ela. O dia de seu casamento é o mais significativo de sua vida, na qual não existe a palavra divórcio.

d) Filhos: São parte de sua função como esposa. Não é muito maternal, a menos que Deméter apareça. Pode chegar a usar os filhos para manter o marido.

5 - DEMÉTER OU CERES

Deméter - é a mulher-mãe. Gosta de estar grávida, de amamentar e de cuidar de crianças. Geradora não só da vida mas também de sentimentos, emoções, experiências. É a que protege, acolhe e alimenta, é a que se apresenta com reservas aparentemente inesgotáveis de energia. A que cuida de tudo o que é pequeno, carente e sem defesa. entre os dois mundos, não temendo a morte.

· Deusa do cereal, nutridora e mãe.

· 4ª esposa real de Zeus, também seu irmão, com quem teve uma única filha: Perséfone.

· O rapto de Perséfone: Ela estava colhendo flores quando foi atraída por uma flor. Ao estender a mão para pegá-la, o solo abriu-se emergindo das profundezas da terra, Hades em sua carruagem de ouro puxada por cavalos pretos. Ele apoderou-se dela e sumiu. Deméter ouviu os gritos e procurou-a por 9 dias e 9 noites, sem nunca comer, beber, nem dormir. Ela retirou-se do Olimpo indignada. Assim, nada podia nascer. Então Zeus implorou a Deméter que voltasse. Ela recusou-se e disse só mudar de opinião se Perséfone voltasse. Zeus trouxe a deprimida Perséfone de volta, mas antes Hades lhe deu algumas doces sementes de romã, que ela comeu. Correram, mãe e filha e se abraçaram, então Deméter pergunta se ela havia comido algo no mundo das trevas. Em caso negativo, ela seria completamente devolvida à mãe. Mas por haver comido, passaria dois terços do ano com a mãe e o restante com Hades.

· Arquétipo da mãe, fornecedora de alimentos materiais e espirituais. Motiva as mulheres a nutrirem os outros, serem generosas no dar. Representa o instinto materno, o desejo de estar grávida e de ter bebê, ou ainda ser mãe de criação, babá ou algo no qual possa expressar o amor maternal. Como mãe angustiada, vive em depressão.

a) Trabalho: Profissões educativas ou de assistência, inclinadas a empregos “femininos”.

b) Mulheres: Qualquer inveja ou ciúme será em relação aos filhos. Sendo estéril, sente-se amargurada pela gravidez de outra. Ressente-se com as feministas por desvalorizarem o papel da maternidade; querem ser mães tempo integral e agora sentem-se pressionadas a trabalhar fora do lar. Têm muitas amigas com as quais trocam apoio emocional.

c) Homens: Atrai homens que se afinam com mulheres maternais. Não escolhe, é escolhida, e pode permanecer com um homem por pena. Têm muita expectativa sobre os homens, mas frequentemente os vê como “eternos meninos”. Sua sexualidade não é muito importante. É ardente, afeutuosa e feminina, mas prefere mais ser abraçada do que fazer amor. Algumas são puritanas com sexo. Dão mais importância à amamentação do filho do que a fazer sexo com o marido.

d) Filhos: São mães extremamente dedicadas ou terríveis. Só têm consciência de suas intenções positivas, não dos elementos negativos, que, por vezes, envenenam seu relacionamento com os filhos. Quando é “deixada pelo filho”, sente que seu senso de significado foi raptado, pois seu filho era como uma extensão de si mesma, compartilhando os mesmos valores. Vive deprimida e zangada, e pára de atuar como mãe. Algumas temem o abandono desde que a criança nasce, e assim, limitam a independência e o relacionamento com os outros. Pode ser do tipo que nunca diz não ao filho, não estabelecendo limites.

6- PERSÉFANE OU CORÉ

Perséfone: mulher atraída pelo mundo espiritual, pelo que está oculto modesta e discreta, mostra-se misteriosa e mística, reservada e inquietante. Vive dividida entre o mundo real e o desconhecido, Poder ter pensamentos sombrios, apesar de compreender o hiato que existe. Ao voltar do inferno, diz a mãe que foi obrigada por Hades a comer, o que não era verdade. Deméter aceita a história e o padrão cíclico se segue.

· Enquanto personalidade, predispõe a mulher a não agir, e sim, a ser conduzida pelos outros, a ser complacente na ação e passiva na atitude.

· Coré significa “jovem anônima”, representando a jovem que não sabe quem é e está inconsciente de seus desejos e força. Sua atitude é de eterna adolescente indecisa.

· Como arquétipo de “filha da mãe”, acredita que a mãe sabe melhor qualquer coisa, quer agradar a mãe, sendo obediente.

· Como arquétipo da “mulher-criança” (antes do rapto), vive inconsciente de sua sexualidade e beleza, permanecendo assim, em geral, pelo resto da vida.

· O aspecto de rainha do inferno e guia do mesmo, desenvolve um resultado de experiência e crescimento. Simbolicamente, o inferno pode representar camadas mais profundas da psiquê. E neste caso, representa a habilidade de movimentar-se de um lado para outro, entre a realidade do "mundo real" baseada no ego e o inconsciente ou realidade arquetípica da psiquê. Quando este arquétipo está ativo, é possível para a mulher integrar os dois aspectos em sua personalidade.

· As mulheres Perséfone, podem permanecer receptivas à mudança e jovens de espírito durante toda a vida.

a) Trabalho: Inclina-se a ter vários empregos, ao invés de uma profissão, e tende para onde a família e os amigos estão. Se sobressai em empregos que não requerem iniciativa ou persistência. Gosta quando tem um patrão a quem agradar. Embora o trabalho não seja importante, pode tornar se diferente com o aspecto rainha do inferno. Então vai entrar num campo criativo, psicológico ou espiritual.

b) Mulheres: Sente-se bem com jovens como ela, e habitualmente experimenta novas situações em companhia de outras garotas, e não sozinha. Se é bonita, atrai mulheres amigas que não pensam em si mesmas como mulheres femininas, e acabam projetando sua feminilidade não desenvolvida nela, passando a tratá-la como alguém especial. Se for tratada como frágil durante a vida, assumirá esse papel. Sua amiga mais íntima, geralmente, tem forte personalidade. Perséfone evoca respostas maternais em suas relações com as mulheres.

c) Homens: Três tipos são atraídos por ela: os tão jovens e inexperientes como ela; os malandros atraídos por sua inocência e homens que não se sentem confortáveis com mulheres amadurecidas.A relação com um homem pode ser o meio que a faz separar-se da mãe dominadora. A mulher na fase Perséfone jovem, é como Bela Adormecida ou Branca de Neve, inconsciente de sua sexualidade, espera o príncipe vir acordá-la. E então, se descobrem mulheres apaixonadas, um efeito positivo em sua auto-estima, pois antes sentia-se uma garota disfarçada de mulher. Por natureza, se submetem a opinião da pessoa mais forte. Não são competitivas e nem atrevidas.

d) Filhos: Não se sente autêntica como mãe, sendo insegura ( precisa ter Deméter ativada para sentir-se mãe). Pode alimentar a imaginação de seus filhos e capacidade de brincar, compartilhando esses aspectos de si mesma com eles. Se ela cresceu além de Coiré-Perséfone, pode criá-los com vistas a valorizar a vida interior como fonte de criatividade.

7 - AFRODITE OU VÊNUS

Afrodite - Vênus: é a mulher que se deixa levar pelo amor. Feminina, atraente, pode vir a usar o amor como arma mortal, satisfazendo seus desejos. Sensual, sensível e refinada, está voltada principalmente para os relacionamentos humanos, para a beleza e inspiração nas artes.

· A mais bela das deusas.

· Seu arquétipo governa o prazer do amor e da beleza, da sexualidade e da sensualidade das mulheres.

· Afrodite impele as mulheres a preencherem funções criativas e procriativas, toda mulher apaixonada está embebida deste arquétipo.

· É mais reconhecida pela sua atratividade do que por sua aparência. Seu arquétpo cria um carisma pessoal, um magnetismo.

a) Trabalho: Deve envolvê-la emocionalmente e gosta de variedade e intensidade. Somente quando está totalmente ocupada criativamente é que age bem. Assim, é provável ser encontrada na arte, música, escrita, dança, terapeuta, professora. Faz o que gosta, não o que dá dinheiro.

b) Mulheres: Estimula ciúme, e medo de perda em muitas mulheres que veem seus maridos reagindo a elas com crescente animação. Afrodite se abala com tais cenas de ciúmes, pois ela não é possessiva nem ciumenta. Têm várias amigas extrovertidas como ela. Algumas mulheres descobrem Afrodite através de relações com o mesmo sexo.

c) Homens: Tendem para homens que não são bons para elas, geralmente criativos, complicados, mal humorados ou emotivos. Tais homens não objetivam postos elevados ou autoridade, e não querem chefiar assuntos domésticos ou serem maridos ou pais.

d) Filhos: Gostam de crianças, o que é recíproco. E consegue um nível de comunicação profundo com a criança, através de seu olhar não julgador e compreensivo. Inspira os filhos com seu entusiasmo. Seus filhos geralmente têm sucesso. Ela sabe cativar os filhos, o que pode causar danos: complexos de Édipo etc.

Fonte:
roda de mulheres

domingo, 21 de novembro de 2010

O Pensamento Científico de Goethe



Goetheanum, Dornach, Suiça
 
A natureza às vezes se excede.

E reúne, num só homem, uma quantidade de talento capaz de suprir um século inteiro.

Foi o que fez com alemão Johann Wolfgang Goethe (1749-1832).

É pelo valor de sua obra literária que o mundo comemora os 250 anos de seu nascimento.

De fato, com apenas 25 anos, a publicação do romance "Os sofrimentos do jovem Wether" já havia feito dele uma celebridade internacional.

A conclusão da primeira parte do Fausto, aos 41, consagrou seu nome como um dos maiores poetas e dramaturgos de todos os tempos.

O que raramente se diz é que, tanto quanto poeta, Goethe foi também um cientista.

E chegou a dar mais importância às suas investigações da natureza do que à criação literária.

Ele realizou pesquisas em campos tão variados como a óptica, a geologia, a mineralogia, a botânica e a zoologia.

Fez descobertas importantes, como a do osso intermaxilar no crânio humano.

E elaborou uma teoria das cores alternativa à do grande físico inglês Isaac Newton (1642-1727).

Mais significativa do que essas realizações isoladas, porém, foi sua visão da natureza.

Divergindo das idéias científicas da época, Goethe a concebeu como uma totalidade orgânica e viva, em profunda conexão com o mundo espiritual, e não um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento.

Num momento em que a ciência busca novos paradigmas, é essa visão da natureza que torna o pensamento de Goethe tão atual.

Ela o levou a considerar o crânio como um desenvolvimento das vértebras.

E a ver todos os órgãos vegetais como metamorfoses do princípio espiritual expresso pela folha.

Essas concepções ousadas foram tratadas com incompreensão e desprezo pela corrente dominante na ciência.

E só foram resgatadas, quase um século mais tarde, graças ao trabalho de Rudolf Steiner (1861-1925), o criador da antroposofia.

Em 1882, com apenas 21 anos de idade, Steiner foi convidado a editar os escritos científicos de Goethe.

Ele os reuniu em cinco livros, que abordam uma grande variedade de temas.

As introduções que redigiu – de uma profundidade filosófica espantosa para um autor tão jovem – fazem aquilo que o próprio Goethe sempre evitou: pensar sobre o pensamento.

Elas explicitam uma visão de mundo que nos "escritos goetheanos" permanecem implícitos e nos permitem captar suas linhas mestras.

Em todos os domínios da realidade, Goethe trabalha com dois conceitos básicos:

a) arquétipo e
b) metamorfose.

São os arquétipos ou idéias universais que conferem coerência à natureza.

É a metamorfose desses princípios espirituais que produz a enorme variedade das formas individuais encontradas no mundo.

Vejamos como o próprio Goethe utiliza esses conceitos para estabelecer a relação entre o crânio e as vértebras.

"O cérebro representa somente uma massa da medula espinhal aperfeiçoada ao máximo grau", escreveu ele em 1789.

"Na medula terminam e começam os nervos que estão a serviço das funções orgânicas, ao passo que no cérebro terminam e começam os nervos que servem às funções superiores, principalmente os nervos dos sentidos.

No cérebro surge desenvolvido aquilo que está indicado como possibilidade na medula espinhal."

E continua:

"O cérebro é uma medula perfeitamente desenvolvida, ao passo que a medula espinhal é um cérebro que ainda não chegou ao pleno desenvolvimento.

Ora, as vértebras da coluna contornam como um molde as várias partes da medula, servindo-lhe como órgãos envoltórios.

Parece então altamente provável que, se o cérebro é uma medula espinhal elevada ao máximo grau, também os ossos que o envolvem sejam vértebras altamente desenvolvidas".

Em outras palavras, as diversas vértebras da coluna seriam manifestações de um princípio espiritual, de uma idéia arquetípica.

"De vértebra a vértebra, no sentido ascendente, esse mesmo princípio vai-se metamorfoseando, sendo representado por formas ósseas cada vez mais sutis.

Até chegar ao crânio, que seria a última metamorfose da idéia vértebra", explica o farmacêutico-bioquímico Flávio Ernesto Milanese, com estágio em ciência Goetheanística no Goetheanum, de Dornach, Suiça.

Essa maneira de ver o mundo apresenta enorme afinidade com o pensamento do filósofo grego Platão (427-347 a.C.) e de seus sucessores neoplatônicos (séculos 3 a 6 d.C.).

Mas Goethe não chegou a ela por meio da especulação filosófica, e sim através de uma observação muito atenta e sem preconceitos da natureza.

Mais do que em qualquer outro campo, foi na botânica que sua abordagem alcançou as melhores realizações.

Ele as expressou no texto "A metamorfose das plantas", publicado em 1790, o mesmo ano da primeira edição do Fausto.

A idéia começara a germinar em sua mente uma década e meia antes.

Pois foi por volta de 1776 que ele travou contato com a classificação dos vegetais realizada pelo naturalista sueco Carl von Linée, o célebre Lineu (1707-1778).

Esta baseava-se exclusivamente nas características exteriores, que diferenciam uma planta de outra, e não em qualquer princípio interno unificador.

Goethe não podia concordar com isso.

Ele intuia a existência de "algo" que fazia uma planta ser uma planta e estava presente em todas as plantas individuais.

Para captar esse "algo" era preciso observar a mesma planta sob as mais variadas condições e influências.

Sua famosa viagem à Itália, iniciada no dia 3 de setembro de 1786, permitiu-lhe estudar a flora dos Alpes e verificar as numerosas transformações provocadas pelos fatores geográficos em cada ente vegetal.

Ele observou como suas formas se modificavam à medida que subia a montanha.

E, em Veneza, perto do mar, constatou como seus aspectos eram alterado pelo solo e o ar salinos.

Ficou claro que a essência da planta não podia ser encontrada em suas características externas, sempre mutáveis, porém num nível mais profundo de realidade.

Seus sentidos estavam aguçadíssimos e sua inteligência parecia ter alcançado a potência máxima.

No jardim botânico de Pádua, em meio à vegetação exuberante, irrompeu finalmente em sua consciência o pensamento de que todas as formas vegetais poderiam ser desenvolvidas a partir de uma forma só.

Era a idéia da Urpflanze, ou seja, a planta primordial.

"Trata-se de uma realidade espiritual, arquetípica, que não pode ser alcançada pelos sentidos, nem sequer pela imaginação, mas apenas pelo pensamento abstrato", explica o geólogo Hendrik Ens, professor da Escola Waldorf Rudolf Steiner, de São Paulo.

Essa idéia universal pode sofrer um sem-número de transformações, dando origem à extrema variedade de entes vegetais.

Mas todas essas metamorfoses decorrem das leis formativas presentes na planta primordial.

Não são as influências exteriores que transformam esse arquétipo.

Elas apenas fazem com que suas forças plasmadoras internas se manifestem de um modo peculiar.

São essas forças – e somente elas – o princípio constitutivo da planta.

Ao conceber a Urpflanze – escreveu Rudolf Steiner – Goethe reproduziu mentalmente o trabalho que a natureza realiza ao formar seus seres.

Era preciso ser tão cientista quanto poeta para executar tal façanha.

No campo da anatomia comparada, a mais famosa descoberta de Goethe foi a do osso intermaxilar no ser humano.

Esse osso, no qual estão incrustados os dentes incisivos superiores, é bastante destacado nos demais mamíferos.

Mas, no homem, encontra-se de tal forma soldado ao maxilar que a diferenciação é praticamente impossível.

Goethe achava, porém, que ele tinha que existir.

"Isso fazia parte de sua concepção geral da natureza", explica Hendrik Ens.

"Ele considerava que havia, sim, uma diferença fundamental entre o homem e os animais superiores.

Mas essa diferença era de ordem anímica e espiritual."

Do ponto de vista da arquitetura do corpo físico, Goethe "acreditava numa linha de continuidade, que permitia apenas pequenas variações e especializações".

Essa opinião acabou se confirmando, quando, no crânio no um indivíduo doente, ele descobriu um exemplar do osso intermaxilar, que se apresentava bastante separado do próprio maxilar.

A Urpflanze, a planta arquetípica, é uma entidade espiritual, que não pode ser encontrada em nenhum lugar do mundo físico.

Mas manifesta-se parcialmente em cada planta individual.

Ela é constituída exclusivamente por folhas.

Pois, para Goethe, a planta é uma folha que está se transformando.

"Ele chegou a esse pensamento a partir do estudo dos vegetais superiores, porque, quanto mais evoluída a planta, mais completamente ela manifesta o seu princípio arquetípico", afirma Hendrik Ens.

Investigando as sementes das dicotiledônias, Goethe percebeu que, nelas, as folhas já estão presentes em potencial.

É o caso das sementes do feijão, que, ao brotarem, projetam duas folhas.

A partir daí, cada folha nova que nasce apresenta uma forma ligeiramente diferente da anterior.

É a metamorfose do princípio arquetípico, que dá origem aos diferentes órgãos da planta.



Texto de José Tadeu Arantes


(A ser publicado pela revista Galileu provavelmente em outubro de 1999)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Espelho Perfeito / Essênios



Tenho ouvido falar dos Essênios, sobretudo através dos Manuscritos do Mar Morto.
O que se pode extrair dos seus ensinamentos?

Quatorze Arquétipos Essênicos

Falar dos Essênios não é coisa fácil, pois há muita controvérsia sobre o que teria sido seu modo de vida e sua cosmovisão.

A começar por sua origem, pois muitos não os vêem unicamente como um dos quatro ramos semitas existentes na época de Jesus, juntamente com os Zelotes, os Fariseus e os Saduceus.

Há os que afirmam que a base do “essenismo” já era ensinada por Hermes Trimegisto, no Egito, cuja teoria poderia ser resumida através da sua própria fórmula:

“O que está no alto é como o que está embaixo”.

Muitos estudiosos distingüem assim claramente a prática mística dos essênios da religião hebréia.

Poderíamos abordar aqui precisamente essa especificidade essênica.

No entanto, tentarei evitar toda polêmica, pois discutir e comparar as inúmeras interpretações dos documentos sobre os essênios não é o objeto da sua questão, muito menos da minha competência!

Mas é possível nós nos basearmos aqui no que há de mais consensual sobre o que teriam sido as práticas essênicas.

Analisando a questão sob o ponto de vista “arquetípico”, poderíamos dizer que os essênios buscavam uma comunicação direta, sem a intermediação de xamãs ou sacerdotes, com o que o ocidente chamaria de: “forças da natureza”.

Para eles, todas essas forças eram vivas e conscientes, eles viam nelas a manifestação, o “corpo” dos anjos.

Creio que a maioria dos estudiosos concordaria em dizer que os essênios viviam em função de uma agenda semanal, estabelecida por eles mesmos.

Na base dessa dinâmica situavam-se suas vinte e uma meditações semanais, três para cada dia da semana, a serem realizadas pela manhã, ao meio-dia e à noite.

Nessas meditações, os essênios desenvolviam sua capacidade de comunicar-se e aprender dessas “forças”, tais como a água, o sol, a terra, o ar, etc.

Esses “anjos” estariam a serviço do “Deus Pai” e da “Deusa Mãe”, ambos reunidos em uma noção mais ampla de “Deus absoluto”, entidade global, também conhecida como o “Sem Nome”, ou o “Todo em Tudo”.

Para evitar toda polêmica, proponho que os que têm dificuldade com o conceito de anjo considerem-no aqui sob o seu aspecto de arquétipo (há um estudo a esse respeito no livro “Arcanjos e Arquétipos, entre a crença e a razão”, ainda não publicado).

Poderíamos então perfeitamente resumir o ensinamento essênico descrevendo a maneira como eles concebiam e praticavam essas meditações, das quais abordaremos apenas as quatorze principais, da manhã e da noite, para não extrapolar demais o conteúdo dessa resposta.

Os “anjos do dia”, sete ao todo, eram associados à “Deusa Mãe” e à nutrição, que dependia dela.

Ela mesma era um deles, contatada na meditação/comunhão do sábado.

Já os anjos da noite, igualmente sete, eram associados ao “Deus Pai” e aos seus ensinamentos. Ele também era objeto de uma comunicação direta na sexta-feira à noite.

Anjos do Dia:
1. Deusa Mãe
2. Terra (Solo)
3. Vida
4. Alegria (Beleza)
5. Sol
6. Água
7. Ar


Anjos da Noite:
1. Deus Pai
2. Eternidade
3. Criatividade (Trabalho criativo)
4. Paz
5. Força
6. Amor
7. Pensamento (o Novo)

Antes de iniciarmos sua descrição, lembremos que os essênios destacavam o conceito de “Ser Interior” como sendo o guia interno, ou o “anjo da guarda” intrínseco a cada ser humano, que se comunica com a “personalidade terrestre” de cada um deles, mais conhecida hoje como “ego”.

Vamos agora ao estudo destes quatorze anjos-arquétipos.

Começaremos com um dos mais representativos deles:

A Paz

O Essênios viam a paz como a autêntica geradora do tempo.

Tentemos seguir esse raciocínio nos aproximando o máximo que pudermos do que poderia ser sua maneira de apreender a realidade.

Para que essa reflexão fique mais fluida e menos descritiva, adotarei, sempre que possível, um estilo próximo do que poderemos imaginar que seria sua pedagogia, adaptando, no entanto, a idéia aos nossos conceitos atuais.

Continuando sobre a paz:

Já notaram como “sem calma” não há tempo para nada?

Tudo parece agoniado, malfeito, incompleto, cansativo, insatisfatório.

Não é à-toa que falamos da “paciência” como sendo a “ciência da paz”.

Por isso é que a PAZ será a base desses quatorze “arquétipos” básicos, já que só sobre ela pode-se erigir a noção de tempo, e sem tempo não se faz nada na Terra.

Comecemos então nossa meditação ativa com esse primeiro tópico:

1. A PAZ GERA O TEMPO, QUE GERA A HARMONIA, QUE GERA A BELEZA, QUE GERA A ALEGRIA.

Embora haja aí cinco conceitos (paz/tempo/harmonia/beleza/alegria), considerem que eles são redutíveis a dois: PAZ E ALEGRIA.

A PAZ GERA ALEGRIA.

O tempo, a harmonia e a beleza são etapas que unem esses dois sentimentos.

Situaremos essa meditação sobre a paz na segunda-feira à noite, para que a meditação sobre o “Pai” situe-se na sexta-feira à noite, como era o costume dos povos semitas.

Seguindo essa seqüência, a terça-feira será o dia da alegria, já que a noite anterior, a da segunda-feira, que a gerou, será a noite da paz.

Mas não vejam um “acaso” nisso, pois assim procediam os essênios, eles utilizavam os dias e as noites como suportes de suas meditações contínuas, assim eles sempre estavam meditando sobre um desses quatorze arquétipos básicos.
As noites eram para eles as geradoras dos dias, ou seja, forças internas “espirituais” que desenvolviam sua mente, no sentido o mais amplo dessa palavra.

Eles as utilizavam para cultivar seu espírito, elegendo (livre-arbítrio) deixar seu inconsciente “sonhar” com uma dessas forças a cada noite.

E pela manhã eles sempre tinham aprendido algo mais sobre a “força” em questão.

Geralmente, antes de dormir e ao amanhecer, eles pensavam na força da noite que estava em evidência, em estudo/meditação, e era geralmente aí que aspectos até então pouco utilizados dela começavam a ficar mais claros nas suas mentes, a fazer mais sentido, podendo assim ser melhor aplicados.

Quanto aos dias, os essênios os utilizavam sobretudo para se “nutrir” dos elementos da terra.

Já vimos o exemplo da terça-feira, gerada na paz da noite da segunda-feira.

Nesse dia, eles “comungavam” (esse era o termo utilizado por eles) com a harmonia e a beleza que está em todas as partes na natureza, nutrindo seu corpo delas.

Corpo? Poderíamos perguntar aqui. Mas a beleza não nutre sobretudo o espírito??

Não, diriam os essênios, a beleza e a harmonia (sinônimos) nutrem sobretudo seu corpo, pois se você deixá-las penetrarem sua alma, elas vão impregnar, literalmente, sua estrutura corporal, celular, delas.

Mesmo que os essênios desconhecessem a genética como a concebemos hoje, eles a praticavam a um nível “psicossomático” próximo do absoluto:

“Somos o que pensamos”, ensinava sua medicina.

Visão essa precursora da idéia “holística”, que extrapola nossa concepção atual do alcance da medicina psicossomática.

Assim, a beleza era sua alimentação básica. E eles davam à contemplação das belezas da natureza um peso muito maior em suas vidas do que comer ou beber.

Eles sabiam que só a beleza/harmonia pode realmente curar.

Sabiam que de nada adiantava “jogar” comida ou líquido no estômago se o espírito estivesse fechado, incapaz de assimilar a beleza externa da natureza:

Como iria essa harmonia converter-se em saúde, em energia, através de alimentos, se a mente estivesse indiferente a isso?

Eles sabiam que alimentar-se com o espírito cerrado só gerava veneno, tóxicos e seus conseqüentes desequilíbrios (desarmonia), com o seu cortejo de enfermidades.

A terça-feira era então o dia que eles usavam para nutrir seus corpos da beleza/harmonia que viam e sentiam no céu e na terra.

E eles sabiam que só estavam bem alimentados de harmonia/beleza quando sua observação delas lhes causava um sentimento de alegria:

Sabiam assim que haviam se carregado com a energia da beleza.

Usavam então essa alegria para preparar a viagem/meditação dessa noite da terça-feira:

2. A ALEGRIA DÁ ENERGIA, ENERGIA É FORÇA E FORÇA É VONTADE

Nesta terça-feira à noite os essênios buscavam então contato com a idéia mais pura de energia que pudessem assimilar e deixavam que esta se convertesse em força em seus espíritos.

Em seguida, eles convertiam essa força em vontade própria.

E era essa vontade que eles utilizavam para dirigir absolutamente tudo em suas vidas.

Os essênios tinham uma visão extremamente positiva da criação, devido à sua absoluta confiança no “Deus Pai”.

Assim, eles viam cada obstáculo como uma etapa rumo a uma felicidade ainda maior.

Poderíamos imaginar que eles possuíam um lema, uma divisa, um pensamento básico, ao qual aderiam e que repetiam mentalmente para si mesmos em toda situação, “boa” ou “ruim”, que chamasse sua atenção:

QUE ÓTIMO É ISSO!!!

Esse pensamento pode nos parecer insensato, haja vista nossas dúvidas sobre o porquê dos eventos, sobretudo os que julgamos trágicos.

Mas, repito, sua confiança na criação era sem falhas.

Imagine só, no nosso mudo atual, um de nós pronunciar tal frase para quem acaba de receber uma péssima notícia, sofreu um acidente, presenciou uma injustiça, ou uma catástrofe, ou tudo aquilo que repugna o julgamento das nossas emoções, que cataloga o que sentimos em “bom” ou “ruim”.

Mas, se entendemos que os essênios cultivavam sempre a VONTADE DE SEMPRE CRIAR HARMONIA E UNIDADE, entendemos que eles não se referiam ao fato em si, nem ao que este provocava neles ou em quem ali estava, mas este “que ótimo é isso!!” deles referia-se simplesmente à sua vontade inabalável de criar harmonia de tudo, com tudo, a partir de tudo.

Assim, desde que algo era julgado “ruim” pelos seus sentidos, vindo assim perturbar sua mente, gerando medo, revolta e seus tóxicos físicos (excesso de adrenalina, etc.), eles simplesmente reafirmavam a mesma ordem de harmonia para seu corpo:

AINDA ESTAMOS NO COMANDO!!!

Este “que ótimo é isso” significava que uma felicidade maior do que a de antes estava em preparação.

Era a sua maneira de dizer ao corpo (corpo esse considerado como outro anjo-arquétipo contatado por eles, na comunhão do meio-dia):

“Não se preocupe, nossa vontade inabalável continua sendo a de criar harmonia, não há desorientação do comando central mental em relação a esse novo fato, ele está aqui, a postos, nessa situação, como em qualquer outra, para utilizar esse fato novo para criar mais harmonia ainda do que já havia antes. Todas as células podem continuar seu trabalho normal, os hormônios não precisam se “desesperar” e sobrecarregar o corpo, ainda é a vontade que orienta a cabeça, vontade essa sempre de harmonia, apesar das sensações, que apenas descrevem e alertam para o evento, mas as decisões serão tomadas por esta invariável, singular e única vontade de harmonizar.”

Mandando esta mensagem clara e uníssona ao seu corpo através do pensamento “que ótimo é isso”, os essênios ficavam com a cabeça absolutamente livre para restabelecer a harmonia, ali onde ela foi rompida, a um nível maior que o anterior, pois eles sabiam que, para dar “saltos quânticos” na sua evolução, eles teriam de aceitar a mudança, ou seja, o fim da velha situação de harmonia, que às vezes se rompia/evoluía de modo doloroso.

E era com essa energia/força/vontade cultivada todas às terças-feiras à noite que eles ancoravam esse arquétipo a cada semana mais profundamente em si mesmos, aprendendo, a cada nova terça-feira, aspectos até então desconhecidos, logo, inexplorados, da energia/força/vontade.

Da terça-feira eles seguiam para a nutrição corporal da quarta-feira:

3. A VONTADE TRAZ CLAREZA

Os essênios percebiam perfeitamente a relação entre o termo “clareza”, no sentido mental, e “claridade”, no sentido físico.

A quarta-feira era então o dia que eles utilizavam para se alimentar de luz.

Eles sabiam que a luz física vem do sol e que ela é um dos nutrientes básicos do corpo.

Era então com o sol que eles “comungavam” na quarta-feira.

Eles realizavam nesse dia a relação entre a energia do fogo e da luz, pois sabiam que luz é fogo “alquimisado”.

E que esse “fogo” é o mesmo que habitava seus espíritos e que alimenta tudo o que vive.

Eles passavam então esse dia mandando mentalmente luz para seu corpo, para suas células, diríamos hoje.

Aproveitavam a presença do sol, ou das nuvens, quando eram as nuvens as “portadoras do sol” daquele dia, para reforçar esse “banho interior de luz” assim como haviam se lavado de beleza/harmonia no dia anterior.

Mentalizavam bem sua intenção de deixar a energia da luz penetrar todo seu corpo, sobretudo aquelas partes doloridas ou enfermas, que eles sabiam ser as que estavam recebendo menos a luz mental, que hoje substituiríamos por noções como “descarga elétrica adequada das sinapses e outros reguladores neuro-hormonais” (hormônios e nervos também formam um todo, como corpo/mente e espaço/tempo).

Devidamente nutridos de clareza, os essênios preparavam-se para a importantíssima noite da quarta-feira, na qual iriam encontrar a UNIDADE:

4. AMOR: A CLAREZA MANTÉM A UNIDADE

Os essênios sabiam que o que está obscuro está “corrompido”, ou seja, rompido em sua unidade, sem possibilidade de se integrar consigo mesmo, logo, mais dificilmente ainda com o que o cerca, com o fundo de todas as coisas que o nutre.

Eles meditavam então sobre este conceito de “unidade mantida pela clareza”.

E assim como eles sabiam que haviam se nutrido de harmonia/beleza quando sentiam alegria, eles sabiam que haviam se nutrido de clareza/unidade quando sentiam amor, pois eles sabiam que esse sentimento nada mais era que a presença, a manifestação na sua mente, deste arquétipo-anjo da unidade que habita e une tudo em todo cosmo.

Claro que eles não utilizavam este termo que aqui emprego – “arquétipo” – para falar dessas energias básicas; como vimos, eles utilizavam o conceito de “anjos”, ou energias divinas vivas.

A “comunhão” essênica da quarta-feira à noite era então com o “anjo do amor”.

E eles aproveitam esse estudo/meditação semanal para descobrir sempre novos aspectos ainda não aplicados da idéia de “unidade”, que eles traduziam em prática desde a manhã seguinte.

E a manhã seguinte era a do seu encontro com a idéia de “circulação”.

Eles iriam então neste dia nutrir-se de tudo que circula:

5. A UNIDADE DO AMOR (pleonasmo) CIRCULA

Os essênios sabiam que o amor nada mais pode fazer do que circular, mover-se, dirigir-se em todas as direções, até tornar-se uma expansão.

Mas os essênios nutriam-se da idéia de circulação antes de levá-la ao seu auge, a expansão, no dia seguinte, pois usavam a noite para fundamentar a expansão deste amor/unidade sobre a idéia de “pensamento em si”, pois para eles esse conceito era vital a essa expansão, como veremos em seguida.

Mas vejamos antes mais alguns detalhes sobre essa meditação da quinta-feira, na qual eles se nutriam de “CIRCULAÇÃO”.

Elas ligavam esta idéia à água, pois nada circula na terra melhor e mais visivelmente que ela.

Para eles, água, vinho (bebidas) e sangue eram a mesma coisa:

O sangue da Terra Mãe.

Há, inclusive, uma alusão indireta na bíblia a essa associação, pois o primeiro milagre realizado por Jesus foi o de transformar água em vinho, a pedido da sua mãe, em um “casamento” ao qual os dois foram convidados. E seu último milagre, antes da ressurreição, foi o de transformar vinho em sangue, “Este é o meu sangue, bebei-o”, durante a última ceia.

Para alguns analistas da questão, as bodas de Canaã, como é conhecido o primeiro milagre, faz alusão à “comunhão espiritual” entre Cristo e sua Mãe.

Eles supõem uma possível ligação entre o primeiro milagre, onde há uma transformação do “sangue” da Mãe Terra (representado pela água) no vinho retirado da fermentação de uvas e o último deles, a futura “eucaristia”, onde Jesus indica claramente que seu sangue agora é vinho.

Transformando, no primeiro milagre, a água, o “sangue” da Mãe Terra, em vinho, Jesus já anunciava sua intenção de transformá-lo, finalmente, em seu próprio sangue, associando-se assim à Mãe Terra em seu próprio seio.

Assim seria visto o texto bíblico segundo a concepção dos essênios, para os quais o Messias viria transmitir todo o ensinamento “cósmico” dessa alquimia, ou química que leva em conta todos os elementos, unindo deste modo a Terra ao Céu.

Segundo sua crença, isso faria com que o Messias estivesse em seguida plenamente disponível a eles no corpo da Mãe Terra, onde sua “idéia”, seu “espírito”, estaria presente para sempre nessa viagem com eles:

“Assim na Terra como no Céu”.

A quinta-feira era então o dia de eles nutrirem-se de CIRCULAÇÃO.

E como já vimos, eles associavam a circulação à água e observavam sua fluidez na natureza, sua presença em todos os líquidos, alimentado-se assim dessa visão, vivendo muito mais do que vivenciavam, do que “comiam com o espírito”, do que com a boca.

A famosa frase de Jesus:

“Nem só de pão vive o homem, mas da palavra do Pai Celeste”,

seria por certo aprovada por todo essênio.

Pois a “palavra do Pai Celeste”, para todos os essênios, estava escrita em qualquer fenômeno natural. Assim, eles buscavam entender a informação que continha cada forma do universo, percebido como um livro vivo.

Poderíamos dizer que esse cuidado em recolher a informação veiculada por cada forma fazia deles, de uma certa forma, os precursores da informática, da cibernética e do uso dos computadores com suas memórias.

Na quinta-feira, então, os essênios enviavam a idéia de “circulação” para suas células, assim como as tinham nutrido de harmonia/beleza/alegria na terça-feira, e de luz na quarta-feira.

Eles deixavam que a circulação fosse seu alimento-curador desse dia.

E devidamente nutridos de água/sangue/circulação, eles sentiam-se prontos para, à noite, meditar/aprofundar a idéia de RENOVAÇÃO/RENASCER:

6. A CIRCULAÇÃO ESTIMULA O CO-NASCIMENTO

Os essênios concebiam o ato de conhecer como um “co-nascer”.

A língua francesa ainda mantém o traço semântico desse vínculo entre as idéias de “conhecer” e “co-nascer” (renascer com o que nasce), pois a palavra “connaissance” (conhecimento) se escreve literalmente como co-nascimento.

E os essênios conheciam “co-nascendo” com o evento que desejavam compreender.

SER, co-nascer, para eles, era então pensar.

E pensar para eles era buscar o novo, o desconhecido dos nossos esquemas mentais habituais.

Os essênios renasciam assim literalmente mentalmente toda quinta-feira à noite, dia que eles dedicavam ao conhecer, ao co-nascer, ao pensamento, ao novo.

Eles dirigiam-se mentalmente às estrelas mais longínquas, buscavam o que estava mais longe do seu dia-a-dia e deixavam que o fundo arquetípico do seu inconsciente lhes presenteasse com maneiras novas de perceber o “velho”, já morto, pois convertido em “memória”.

A “comunhão” da quinta-feira à noite era então com o “anjo do pensamento”.

Mas é preciso entender o que eles concebiam como “pensar”, pois esse ato para eles estava longe do que seria simplesmente uma troca de informações ou a repetição de antigos padrões, de esquemas mentais memorizados e automatizados.

Pensar tinha para eles uma conotação “socrática” poderíamos dizer aqui à guisa de comparação.

Bem que eles poderiam dizer “Só sei que nada sei”, já que para eles pensar, “co-nascer”, era entregar-se ao desconhecido, deixar-se guiar por ele.

Eles tentavam, assim, na quinta-feira à noite, liberar suas mentes do “velho” para que o “novo” pudesse emergir.

Eles acreditavam estabelecer um contato com as estrelas longínquas, imaginando que elas poderiam brindá-los com idéias novas, abordagens antes ignoradas, deixando em seguida que o sono e o inconsciente fizessem seu trabalho de ir buscar os arquétipos no fundo da mente.

E agora sim, armados do novo, que só poderia traduzir-se em “desconhecido”, eles ativavam a circulação exercitada na quinta-feira e a transformavam em expansão na comunhão da sexta-feira de dia.

Expansão esta não do “velho” mas do novo que busca suas formas e seus caminhos:

7. O CO-NASCIMENTO/PENSAMENTO CRIA A EXPANSÃO

Já sabemos que esse pensamento não utiliza a memória mas o silêncio, a escuta do nada.

Já sabemos também que os essênios atingiam essa profunda meditação simplesmente projetando suas mentes, antes de dormir, aos confins das estrelas.

Eles passavam então todo o dia da sexta-feira nutrindo-se de “expansão”, associando-a ao elemento “ar”.

Sexta-feira os essênios nutriam-se então de ar, mas bem menos do ar físico que respiramos do que da noção de “atma”, ou do “prana” dos hindus, já que era a idéia que eles ingeriam, bem mais que seu suporte físico.

Durante todo este dia eles enviavam este “ar” para os confins das suas “células”, pois eles percebiam os diferentes órgãos do seu corpo como sendo a realidade interna equivalente ao que eles viam como estrelas no céu.

Creio que seria mais fácil, em vez de nos perdermos aqui em conceitos como “atma” ou “prana”, se considerássemos que o ar nos traz sobretudo oxigênio.

E que o oxigênio, além de ser a “droga” e principal alimento do cérebro (suporte material do sistema nervoso, ligado ao pensamento e à expansão da nossa consciência no corpo), é também o melhor agente “antioxidante” apesar de ser ele oxigênio, já que ele queima, literalmente, toda energia velha e parada no corpo.

Creio então que não trairemos a idéia essênica de “expansão” associada ao ar se utilizarmos o conceito moderno de “oxigenação” para veicular essa expansão do ar em nosso interior, levando-o a todos os recônditos celulares.

Chegando então à nutrição através da expansão, durante todo o dia da sexta-feira, os essênios chegavam ao máximo de “distância” possível e a reconheciam em sua essência:

8. A EXPANSÃO É O TODO E O TODO É UMA UNIDADE (Eu e o Pai somos UM)

Chegando aí, os essênios chegavam à sua aspiração maior:

Expandir-se a si mesmos, a partir da sua base na Mãe Terra, a fim de estender-se até os céus e unir-se novamente com o “Todo”, com essa “unidade de tudo com tudo”, com esse “Tudo em Tudo”, a quem eles chamavam, carinhosamente de Pai Celeste.

Durante toda essa noite da sexta-feira, início do sábado, ou “Shabat” como chamam os hebreus, os essênios concentravam-se mentalmente nessa idéia de “Todo”, concebendo uma “unidade” entre tudo, em estado de expansão, em renovação permanente.

E através dessa meditação eles se dirigiam à sua aspiração única e última:

SER UM COM O PAI.

“Eu e o Pai somo UM” era o lema dessa comunhão essênica da sexta-feira, frase essa que ficou famosa, proferida pelo Cristo.

E ao despertarem, depois de terem sidos instruídos durante seu sono na “escola da expansão renovada” dessa sexta-feira, expansão essa sempre desconhecida mas sempre coesa, coerente, harmônica, unida e uníssona, os essênios recomeçavam um novo ciclo semanal, voltavam ao berço, às raízes, ao útero, “comungando” com a Mãe Terra.

9. A UNIDADE É MEU ÚNICO ALIMENTO

Completamente unidos, logo, em harmonia, com tudo em torno de si, através dessa união com a “unidade expansão de tudo” os essênios fixavam essa idéia de unidade e de alimento na Mãe Terra.

Eles “comungavam” com a idéia de receber dela todos os seus frutos:

1.   O solo (veremos na “comunhão” do domingo);
2.   A vida (veremos na “comunhão” da segunda-feira de dia);
3.   A harmonia/beleza/alegria;
4.   O fogo/luz;
5.   A água/sangue em circulação e
6.   O ar em expansão.

Para os essênios, esses seis elementos, mais a comunhão do sábado de dia com a Mãe Terra que lhes proporcionava os seis citados, sete ao todo, eram os elementos nutritivos do seu corpo, que eles renovavam semanalmente.

O sábado era para eles um dia de muita alegria, dia em que pensavam em receber toda nutrição da sua Mãe Terra, tal como um feto é nutrido pelo útero da sua mãe.

Lembro que essa nutrição NÃO se dava principalmente no aspecto físico, mas sim nesse reconhecimento do corpo da mãe no que ingeriam (“este é o meu corpo, comei-o”).

E era esta força da terra que eles tentavam captar para si.

Tratava-se aqui bem mais de uma busca de reconforto e de carinho terrestre, tão em falta hoje em dia para nós todos, do que buscar simplesmente afogar medos e angústias em “comes e bebes”.

Eles sentiam-se gratos à terra, pensavam nela com carinho, tentando retribuir-lhe um pouco o tanto que recebiam dela: “Grato minha mãe, pela vida”.

Esta era a “comunhão” do sábado de dia dos essênios.

Nutridos a nível celular desta idéia, eles ingressavam na noite do sábado com uma só idéia em mente:

10. A VIDA É ETERNA

O fato de terem se nutrido de tudo que a terra dá, o fato de vê-la nutrindo-se de tudo que “vem do céu”, como sol e chuva, permitia-lhes se projetar na eternidade da vida fora do tempo.

Nesta noite do sábado eles buscavam utilizar a força da nutrição da terra para lançar-se além do seu campo gravitacional.

Mas eles não buscavam projetar-se mentalmente tão longe quanto na quinta-feira à noite, no âmbito das estrelas, eles ficavam “por ali”, no sistema solar mesmo.

No sábado eles davam só um primeiro passo rumo à eternidade, concebendo-se não unicamente como “filhos da terra”, mas também do sol, ou seja, do sistema solar.

Eles iam então mentalmente visitar seus “tios”, ou seja, outros planetas, como Marte, Vênus ou a Lua, assim como também seus “primos”, ou toda forma de vida que lá existia, pois para os essênios tudo estava vivo, tudo era vida.

E na manhã seguinte eles traziam essa “força planetária”, que eles concebiam perfeitamente em sua “astrologia/astronomia” através da observação da relação entre a Lua, as marés, ou as estações do ano, segundo a posição do Sol e o crescimento das plantas, e se dedicavam inteiramente ao solo:

11. EU SOU O SOLO PERMANENTEMENTE FÉRTIL E EM CONSTANTE “RE-GENERAÇÃO” POR TODA A ETERNIDADE

E para “ancorar” essa idéia em si, eles passavam o equivalente ao nosso “domingo”, nosso “dia de repouso”, regenerando-se celularmente em “comunhão” com o “solo”, ou com a camada fértil da terra.

É impossível para nós imaginarmos hoje a suma importância que essa camada tinha para eles.

Eles a simbolizavam através da relva, humilde, rasteira, mas forte e tenaz, que sempre renasce e se regenera demonstrando em si a força vital em todo o seu esplendor.

A relva era o símbolo dessa regeneração. Assim como vamos aos nossos parques e o que resta dos nossos bosques buscar a relva para deitarmos, descansarmos ou jogarmos futebol, eles a cultuavam como a mais digna e humilde demonstração de/da vida. Eles expunham mesmo seus órgãos genitais, centro de regeneração, especialmente à luz solar nesse dia, como nossas garotas vão pegar aquele bronzeado dominical na praia deixando o sol esquentar seus corpos.

Completamente assim regenerados, nossos irmãos essênios encaminhavam-se para mais um encontro com um dos “Anjos do Pai”, pois eles viam seu encontro meditativo noturno como um encontro com as forças/anjos do Céu Pai e as comunhões do dia como um encontro com os anjos fisicamente reconhecíveis da Mãe Terra: ela mesma, sua beleza, o ar, o sol, a água, o solo e a vida.

E o encontro deste domingo à noite era com outro arquétipo-anjo que eles veneravam muito: a criatividade.

Esta “comunhão” era então:

12. SÓ A REGENERAÇAO CRIA E SÓ A CRIAÇAO É UM DOM DO AMOR

Eles dedicavam então seus pensamentos dessa noite a todas as obras que eles conheciam, todos os escritos “sagrados”, todos os conhecimentos a eles transmitidos e à sua vontade de aperfeiçoá-los e legá-los ainda mais belos, harmoniosos e úteis à próxima geração.

Eles associavam o (anjo do) trabalho criativo às abelhas, que sempre criam riqueza para sua comunidade.

E amanheciam então cheios de novas idéias sobre seu próprio trabalho, cheios de vontade de executá-lo e oferecê-lo à comunidade humana, fazendo de cada ato um autêntico dom de amor universal.

E para executá-lo com vigor e amor, eles associavam cada ato seu ao trabalho que a vida executa na terra, ao trabalho da sua Mãe Terra.

Sua comunhão desse dia, o equivalente da nossa segunda-feira era então:

13. A VIDA É UM DOM DO AMOR

A tônica dessa frase está na palavra DOM, CRIAÇÃO.

Eles viam na vida todo o trabalho criativo da natureza para propiciar-nos tudo que necessitamos.

Para eles, a consagração desse trabalho da vida eram as imponentes árvores, que crescem regeneradas e nutridas pelo solo e pelo trabalho da humilde relva.

Neste dia eles buscavam ver, abraçar, acariciar as árvores, mas qualquer outra planta também.

Eles nutriam assim suas células o dia todo de tudo que vive na terra, sobretudo das árvores.

Eles enviavam a ENERGIA VITAL que estas lhe inspiravam a todas as suas células, estimulando-as a captarem e desenvolverem em si toda a força, toda essa energia vital que a terra colocava à sua disposição.

E depois de um dia de labor, de “dever cumprido”, bem “vivido”, o quê mais importante do que um descanso, na…

Paz.

Pois é, amigos, esta segunda-feira à noite era o tempo que os essênios se davam Tempo:

14. A PAZ É A MÃE DO TEMPO

Eles passavam então todo o tempo dessa noite a enviar paz, calma, ou seja, tempo, aos quatro cantos do mundo.

Prontos para, a partir dela, no dia seguinte dar-se todo o tempo necessário para criar toda harmonia necessária.

Harmonia que produz beleza.

Beleza que dá alegria.

Alegria que energiza.

Energia que aclara.

Clareza que unifica.

Unidade que se traduz em amor.

Amor que circula.

Circulação que gera o movimento do pensamento, criando o novo, o desconhecido.

Desconhecido esse que se expande “no ar” e se une a tudo que sempre existiu e existirá.

“Expansão unitária” que, por sua vez, nutre, tal qual uma mãe, tudo que a compõe, levando a vida à sua dimensão eterna.

Eternidade que se ancora no solo fértil de toda coisa viva, fazendo dom de seu trabalho criativo, que é visível na exuberância do que vive, que, em paz, se dando todo o tempo do mundo de viver, se transforma em beleza, harmonia e alegria.

Texto de Austro Queiroz



Fonte: austro