quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Vítima




Todo comportamento humano decorre da concepção que nós temos da realidade.

Existem dois pólos distintos:
nós e aquilo que nós somos,
nós e aquilo que nos cerca,
nós e as outras pessoas.




Nossa postura na vida depende do modo como estabelecemos esta relação: a relação entre nós e os outros, entre nós e os membros de nossa família, entre nós e os outros membros de nossa sociedade, entre nós e as coisas, a relação entre nós e o trabalho, entre nós e a realidade externa.

A nossa maneira de viver depende de como cada um de nós interioriza a relação entre as duas partes da realidade, entre dois blocos. A da realidade é uma das formas em que nós aprendemos a nos relacionar com os outros. E a postura que designamos por vítima.

O que é a vítima?

É a pessoa que se sente inferior à realidade, é a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo, é a pessoa que se sente desgraçada em face aos acontecimentos.

É aquela que costuma ver a realidade apenas em seus aspectos negativos.

Ela sempre sabe o que não deve, o que não pode, o que não dá certo.

Ela consegue apenas ver a sombra da realidade, em paralelo com a incrível capacidade para diagnosticar os problemas existentes.

Há nela uma incapacidade de procurar o caminho das soluções e neste sentido ela transfere os seus problemas para os outros, transfere as circunstâncias para o mundo exterior.

Ela não assume a responsabilidade do que está acontecendo e não assume a sua posição na vida, culpa os outros pelo que está acontecendo no seu modo de encarar e perceber a vida.

Esta é a postura da justificativa.

Justificar-se é o sinal de que não queremos mudar para não assumirmos o erro, justificamo-nos, ou seja, transformamos o que está errado em injusto.

É de justificativas em justificativas, paralisamo-nos impedindo-nos de crescer.

A vítima é incompetente na sua relação com o mundo externo.

Enquanto colocarmos a responsabilidade total de nossos problemas em outras pessoas e circunstâncias, tiraremos de nós mesmos a possibilidade de crescimento, e em vez disso vamos procurar mudar as outras pessoas.

Este tipo de postura provém do sentimento de solidão, enquanto não percebemos que somos responsáveis pela nossa vida.

Por seus altos e baixos, seu bem e seu mal, suas alegrias e tristezas.

É quando nossa felicidade se torna dependente da maneira como os outros agem.

É quando condicionamos nossa felicidade, paz interior, ao comportamento dos outros, à ação dos outros, quer eles sejam nossos amigos, nossos filhos, nossos pais, nosso conjugue, nossos colegas de trabalho, ou quaisquer outras pessoas que conosco se relacionem.

E como as pessoas não agem segundo o nosso padrão, sentimo-nos infelizes e sofredores. Realmente a melhor maneira de sermos infelizes é acreditar que é à outra pessoa que compete nos dar felicidade.

E assim mascararmos nossa própria vida, frente aos nossos problemas.

A postura de vítima é a máscara que usamos para não assumir a realidade difícil, quando ela se apresenta.

A falta de vontade de mudar, de crescer, da vítima, é escondida sob a capa da pressão externa. Esta é uma das maiores ilusões da nossa vida.

Desejamos transferir para a realidade que não nos pertence, sobre a qual não possuímos nenhum controle, as deficiências da parte que nos cabe.

Toda relação humana é bilateral, nós e a sociedade, nós e a família, nós e o que nos cerca.

O fato de um mundo externo nos apresentar aspectos negativos não quer dizer que nós sejamos perfeitos e o fato de nós possuirmos uma deficiência, não significa que o outro também possua. Essas duas partes da mesma realidade não são antagônicas, não são uma simples relação casual, e sim complementares e integradas.

O maior mal que fazemos a nós próprio é usarmos a limitação de outras pessoas do nosso relacionamento para não aceitar a nossa própria parte negativa, assim usamos o sistema como bode expiatório para nossa acomodação no sofrimento.

A vítima é a pessoa que transformou a sua vida numa grande reclamação.

Seu modo de agir e estar no mundo é sempre uma forma queixosa, opção que é mais cômoda que uma solução.

Para resolver seus problemas a vítima usa o próprio sofrimento para controlar o sentimento alheio, ela se coloca como dominada para dominar os sentimentos das outras pessoas.

O que mais caracteriza a vítima é a sua falta de vontade de crescer.

Sofrendo uma doença chamada perfeccionismo, que é a não aceitação dos erros humanos, a intolerância com a imperfeição humana, a vítima desiste do próprio crescimento, ela se tortura com a idéia perfeccionista, com a imagem de como deveria ser, e tortura os outros relativamente àquilo que as outras pessoas deveriam ser.

Há na vítima uma tentativa de enquadrar o mundo no modelo ideal que ela própria criou.

E sempre que temos um modelo ideal na cabeça é para evitarmos entrar em contato com a realidade.

A vítima não se relaciona com as pessoas aceitando-as como são, e sim da maneira que ela gostaria que fossem.

É comum querermos que os outros sejam aquilo que não estamos conseguindo ser, desejar que o marido, o filho, o amigo, sejam o que nós não somos.

Colocar-se como vítima é uma forma de se negar na relação humana.

Por esta postura não estamos presentes, não valemos nada.

Todavia as dificuldades e limitações do mundo externo não apenas um desafio ao nosso desenvolvimento se assumirmos o nosso espaço e estivermos presentes.

E assim quanto pior for o doente tanto mais competente deve ser o médico.

Quanto pior for um aluno mais competente deve ser o professor.

Assim também quanto pior for o sistema a sociedade que nos cerca, mais competente devemos ser com pessoas que fazem parte desta sociedade.

Quanto pior for o nosso filho, mais competentes, devemos ser como pai ou mãe.

Quanto pior for nossa esposa, mais competentes devemos ser como marido, quanto pior for nosso marido, mais competentes devemos ser como esposa.

E assim por diante.

Desta forma colocamo-nos em disposição de buscar o crescimento e tomamos a deficiência alheia como incentivo para a nossa mudança existencial.

Só podemos crescer naquilo que nós somos, naquilo que nos pertence.

A nossa fantasia está em querer mudar o mundo inteiro.

Para sermos felizes todos nós temos parte da responsabilidade naquilo que está ocorrendo.

Dr. Luiz Augusto Sombrio



Fonte: beyondshape blog
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