sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Consciência para Amit Goswami




Capra iniciou este debate há quase 30 anos. Contudo, apesar de ter realizado um tra­balho inestimável, e de ser um físico culto e informado, ele não fazia parte da or­todoxia da física acadêmica, o que já não ocorre com Amit Goswami, que pode­mos chamar de seu sucessor.

Amit Goswami vive nos Estados Unidos e é Ph.D. em física quântica, autor de numerosos artigos científicos clássicos, além de pro­fessor titular de física no Instituto de Física Teórica da Universidade do Oregon.

Recentemente, Goswami sacudiu o mundo da física ao postular que, através dos paradoxos surgidos no início do século XX, com o nascimento da física quânti­ca, é possível afirmar exatamente o oposto do que metade do presente livro afir­mou até agora, ou seja, é a consciência que cria a matéria, e não o oposto.

Amit foi rotulado de místico por alguns setores da comunidade científica, porém, acal­mou os críticos através de várias publicações técnicas que dão respaldo e credi­bilidade às suas idéias.

Amit Goswami tem procurado demonstrar que o univer­so carece de uma consistência matemática, e que sem a existência de um conjun­to superior, no caso uma consciência cósmica organizadora, ou mesmo Deus, tor­na-se paradoxal explicar o funcionamento do cosmo.

A relação corpo-mente no passado distante acreditava na dualidade entre matéria (corpo) e mente (espírito). Com o advento das neurociências, atualmente é inquestionável que a nossa intricada mente sur­ge da crescente complexidade da integração neuronal. Quanto mais neurônios e quanto mais sinapses, mais complexa é a nossa mente. Sendo assim, mente/cons­ciência é um conceito dependente da matéria. Neste ponto entra Goswami, ques­tionando o nível molecular da matéria. Se o encéfalo é o forjador das mentes, quem é o forjador dos encéfalos?

No nível molecular, as dúvidas geradas pelas partículas subatômicas são inúmeras, mas é exatamente através dessas dúvidas, fortemente alicerçadas sobre uma miríade de fórmulas matemáticas inquestioná­veis até o presente momento, que Goswami afirma: a mente não é a consciência.

A consciência vai além da mente, e é ela a responsável por fixar a matéria no cos­mo. Explicar os conceitos de Goswami em algumas linhas é uma tarefa inglória. Contudo, arriscaremo-nos nesta pequena empreitada.

A parte I de seu livro, "O universo autoconsciente": como a consciência cria o mundo material, é iniciada com uma crítica cáustica a nossa atual for­ma de pensar:

"Um nível crítico de confusão satura o mundo contemporâneo. Nossa fé nos componentes espirituais da vida - na realidade vital da consciência, dos valores e de Deus - está sendo corroída sob o ataque implacável do materialismo científico. Por um lado, recebemos de braços abertos os benefícios gerados por uma ciência que assume a visão mundial materialista. Por outro, essa visão, predominante, não consegue corresponder às nossas intuições sobre o significado da vida.

Nos últimos 400 anos, adotamos gradualmente a crença de que a ciência só pode ser construída sobre a idéia de que tudo é feito de matéria - os denominados átomos. em um espaço vazio. Viemos a aceitar o materialismo como dogma, a despeito de sua incapacidade de explicar as experiências mais simples de nossa vida diária. Em suma, temos uma visão de mundo incoerente. As tribulações em que vivemos alimentaram a exigência de um novo paradigma - uma visão unificadora do mundo que integre mente e espírito na ciência. Nenhum novo paradigma, contudo, emergiu até agora."

Para Goswami, a consciência pode ser definida como: o agente que afeta objetos quânticos para lhes tornar o comportamento apreensível pelos sentidos.

Talvez, para uma melhor compreensão, tenhamos que adentrar nas definições concedidas aos objetos classificados de clássicos ou quânticos.

Desde a época de Newton, nossa física adequa-se a um sistema filosófico conhecido como realista-materialista. Os físicos materialistas, também conheci­dos como físicos clássicos, acreditavam que, se conhecêssemos um determinado ponto no espaço, poderíamos facilmente prever o seu comportamento em qual­quer momento futuro. Sendo assim, Deus nada mais era do que o maior dos ma­temáticos. O universo começou a ser verdadeiramente decifrado através da genia­lidade de Isaac Newton.

O cosmo passou a ser encarado como um gigantesco re­lógio, e acreditava-se que, no futuro, o homem chegaria a uma equação do Tudo, a uma equação que provasse a existência Dele.

Einstein passou grande parte de sua vida em busca da equação divina, mas só conseguiu equações menores, mui­to embora absolutamente revolucionárias: E=m.c2 explicita um dos maiores sal­tos intelectuais de todos os tempos.

No entanto, Einstein viveu as glórias de sua teoria da relatividade e as dú­vidas perturbadoras oriundas da física quântica. O sistema filosófico, que jun­to com a relatividade mudou nossa forma de encarar o universo, introduziu o caos onde outrora habitava a ordem inabalável do grande relógio universal de Newton.

Na medida em que físicos como Bohr e Heisenberger penetravam no inte­rior da matéria, desvendando as interações entre as partículas subatômicas, eles foram apresentados a um universo evasivo, fugaz, escorregadio e absolutamen­te imprevisível:

1) Partículas supostamente feitas de matéria, como um elétron, apre­sentavam, e ainda hoje continuam apresentando, comportamen­tos que absolutamente negam todos os pressupostos de nossa fi­losofia realista-materialista: a física clássica. Melhor dizendo, implodem, sem nenhum pesar, nossa arrogância matemática des­tinada a realizar previsões 100% corretas.

2) Um objeto quântico pode estar em mais de um lugar no mesmo instante, e isso é inadmissível para as leis do grande relógio. Se quisermos afirmar que o elétron de fato existe, precisamos levar em conta a presença de um observador, de uma consciência.

3) É sabido que, dependendo do tipo de pesquisa e do tipo de apa­relho utilizado para se investigar o comportamento de um único elétron, podemos afirmar que ora o mesmo é uma partícula, ora comporta-se como uma onda no espaço. É impossível afirmar que um objeto quântico se manifesta no espaço-tempo até que o observemos como uma partícula, e, neste ponto, a consciência produz o colapso da onda.

4) Um objeto quântico parece saltar os limites do espaço-tempo. Isso significa dizer que quando um elétron recebe uma determi­nada quantidade de energia, pode saltar para outras camadas per­tencentes ao átomo em questão, para outras eletrosferas.

Contu­do, nas medições realizadas nos modernos laboratórios de físi­ca, não se consegue detectar o trajeto do elétron através do es­paço interveniente, e a isso se denomina salto quântico. Falando de uma forma mais simples, o comportamento desse minúsculo ponto de matéria é absolutamente estranho, e o que se assemelha ao fato de você estar em São Paulo e simplesmente aparecer em Vitória do Espírito Santo, sem que necessite transitar pelo já ci­tado espaço interveniente.

Por que os pressupostos da física quântica não nos fazem pensar mais profundamente nessas questões? Provavelmente, a resposta alicerça-se no fato de que a física quântica só pode ser averiguada no microuniverso perten­cente ao reino dos átomos e dos elétrons. Somente investigadores afins aca­bam sendo tocados por essas interessantes constatações, que geram terremo­tos filosóficos em suas mentes. Pouquíssimas pessoas estão aptas a discu­tir com fundamento as questões quânticas do universo, e alguns físicos che­gam mesmo a afirmar que as repercussões filosóficas a respeito de nós mes­mos são tão intensas e perturbadoras, que muitos de nós não teríamos estru­tura psicológica suficiente para lidar com as questões geradas no cerne des­sas descobertas.

"Agora, passemos à questão importante: por que há tanto consenso? Por duas razões, o mundo fenomenal parece esmagadoramente objetivo. Em primeiro lugar, corpos clássicos possuem massas imensas, o que significa que suas ondas quânticas se espalham com grande lentidão. O pequeno espalhamento torna bem previsíveis as trajetórias do centro da massa de macro objetos (sempre que se olha encontramos a lua onde se espera que ela esteja), criando, dessa maneira, uma aura de continuidade. Continuidade adicional é imposta pelo aparato perceptual de nosso próprio encéfalo-mente."

A palavra transcendência tem sido empregada com certa frequência nos trabalhos de física. Não como se costuma empregá-la, de forma rotineira e mui­tas vezes inconseqüente, no afã de explicar o que para nós é inexplicável. Para os físicos, transcendência passa a ser um conceito, até certo ponto, matematica­mente provado. Para onde vai o elétron no momento do salto quântico? Não se sabe ao certo, mas matematicamente está provado que o mesmo não está nem em nosso conhecido espaço, nem tão pouco em nosso velho amigo tempo. Sendo as­sim, alguns físicos afirmam que o elétron transcendeu o espaço-tempo. A diferen­ça de um texto de física quântica para um texto esotérico sem fundamentação é que o primeiro não faz afirmações descabidas a respeito do suposto universo para o qual o elétron transcendeu. Os físicos costumam parar no abismo da transcen­dência, assumindo humildemente suas limitações intelectuais na compreensão de tão perturbadora questão.

Se para uma pessoa comum, um indivíduo não versado em ciências, essas questões não perturbam, é pelo fato de que esses conceitos não che­gam facilmente aos veículos de divulgação científica.

Note como a evolu­ção de um conceito micro atinge facilmente o macro:

*átomos são compos­tos, dentre outras coisas, de elétrons;
*elétrons transcendem o espaço-tempo conhecido;
*átomos unidos formam moléculas;
*é lícito supor que parte das moléculas transcende o espaço-tempo em algumas ocasiões; *moléculas uni­das formam pedras, plantas, animais.

Sendo assim, parte da matéria, ora está aqui, ora não está; ora está presente, ora está ausente.

Não podemos afirmar que a física quântica vale para um átomo e não para uma molécula, pois os mesmos elétrons que compõem o átomo isolado compõem a molé­cula em questão.

Nagarjuna, filósofo da tradição budista mahayana, costumava dizer:

Ela não existe.
Ela não não existe.
Ela não existe e não não existe simultaneamente.
Nem ela não existe nem não não existe.

A quem Nagarjuna se refere? À realidade última. E o que é real é uma história longa que estamos desenvolvendo desde os primeiros tempos. O elétron é onda ou é partícula? O elétron está no espaço-tempo ou não está no espaço-tempo?

Essas questões vibram em nossa mente, assim como os vrttis de Patañjali. A dualidade onda-partícula intriga os físicos quânticos de hoje, assim como a dualidade mente-corpo intrigou Patañjali há séculos atrás. A diferença entre ambos é que Patañjali era um intuitivo e os físicos atuais atingiram o abis­mo através da lógica matemática.

Um dos mentores da física quântica, Niels Bohr, é um dos defensores do princípio da complementaridade:

"Bohr descreveu uma maneira nova de estudar o paradoxo da dualidade onda-partícula. As naturezas de onda e partícula do elétron não são dualísticas, nem simplesmente polaridades opostas, disse Bohr: São propriedades complementares, que nos são reveladas em experimentos complementares.
Quando tiramos uma foto de duração de um elétron, estamos revelando-lhe a natureza de onda; quando lhe seguimos a trajetória em uma câmara de condensação, observamos-lhe a natureza de partícula.
Os elétrons não são ondas nem partículas. Poderíamos chamá­-los de "ondículas", porquanto sua verdadeira natureza transcende ambas as descrições. Este é o principio da complementaridade.
Uma vez que pensar que o mesmo objeto quântico tem atributos aparentemente tão contraditórios com ondulação e fixidez pode ser perigoso para a nossa sanidade mental, a natureza nos forneceu um tampão.
O princípio de complementaridade de Bohr assegura-nos que, embora os objetos quânticos possuam os atributos de onda e partícula, só podemos medir um único aspecto da ondícula com qualquer arranjo experimental, em qualquer dada ocasião.
Pela mesma razão, escolhemos o aspecto particular da ondícula que queremos ver ao escolher o apropriado arranjo experimental."

Amit Goswami tem proposto que, uma vez a matéria sendo instável e transcendente, torna-se necessária a existência de uma consciência para paralisá-­la momentaneamente, criando assim a ilusão da estabilidade.

A natureza é dinâ­mica e complementar, como sugeriu Bohr. A espiritualidade já afirma a instabili­dade da natureza há muitos anos. Na literatura vedanta da Índia, a palavra 'rupa' significa a forma imanente da natureza, sendo a palavra 'nama' usada para dar sig­nificado aos arquétipos transcendentes.

Para muito além de 'nama' e 'rupa', brilha a luz de Brahman, a grande consciência universal, o fundamento de todo ser.

Na fi­losofia budista, os reinos das idéias e material são denominados Sambhogakaya e Nirmanakaya, respectivamente. Todavia, pairando sobre esses reinos, encontra­-se a consciência única, Dharmakaya, que ilumina ambos.

O símbolo taoísta do ying e yang também explicita o reino transcendente da matéria e o reino imanente da mesma, sendo Tao o princípio organizador que ora permite a luz, ora as trevas.

A física quântica, muito embora menos poética que a literatura espiritual, transi­ta, ora como onda, ora como partícula, ora identificando o elétron, ora perdendo-­o para um suposto universo que transcende o espaço-tempo conhecido, sendo a responsável pela fixação da "realidade", a consciência do observador.

Para Amit Goswami, a vida apresenta-se para os seres humanos como uma película de cinema. Entre cada foto, existe um abismo transcendente da não-foto. Contudo, a velocidade de nossa percepção não nos permite perceber as constan­tes trocas entre fotos e não-fotos; percebemos somente a continuidade do filme. Assim como no cinema, o mundo material é instável, oscilando através das re­gras quânticas. Contudo, nossa percepção é incapaz de perceber essa instabilida­de da matéria, pois a consciência maior fixa nossa percepção em somente uma das possibilidades.

No ano de 2002, Amit Goswami participou do programa Roda Viva, da TV Cultura. Suas idéias foram explicitadas com clareza diante de uma bancada de entrevistadores formada por físicos, jornalistas, psiquiatras, filósofos, psicó­logos e teólogos.

Amit se esforçou por deixar claro que continua a transitar pela ciência ortodoxa, mas afirmou que a mesma passa por um período de crise exis­tencial, e que sua proposta é, através dos pressupostos teóricos da física quân­tica, inserir a noção de Deus como fator fundamental na matemática probabi­lística da nova física, estreitando, assim, as lacunas entre ciência e religião.

Al­gumas de suas idéias foram por mim escolhidas para representar sua filosofia, o idealismo monista:

"Esta mudança da ciência de uma visão materialista para uma visão espiritualista, foi quase totalmente devida ao advento da física quântica.
Ao mesmo tempo, houve algumas mudanças em psicologia transpessoal, em biologia evolucionista e em medicina.
Mas acho que é correto dizer que a revolução que a física quântica causou na física, na virada do século XX, seria baseada nessas transições contínuas, não apenas movimento contínuo, mas também descontínuo.
Não-localidade. Não apenas transferência local de informações, mas transferência não-local de informações.
E, finalmente, o conceito de causalidade descendente.
É um conceito interessante, pois os físicos sempre acreditaram que a causalidade subia a partir da base: partículas elementares, átomos, para moléculas, para células, para encéfalo. E o encéfalo é tudo. O encéfalo nos dá consciência, inteligência, todas essas coisas.
Mas descobrimos, na física quântica, que a consciência é necessária, o observador é necessário. É o observador que converte as ondas de possibilidades, os objetos quânticos, em eventos e objetos reais. Essa idéia de que a consciência é um produto do encéfalo nos cria paradoxos.
Em vez disso, cresceu a idéia de que é a consciência que também é causal.
Assim, cresceu a idéia da causalidade descendente.
Eu diria que a revolução que a física quântica trouxe, com três conceitos revolucionários, movimento descontínuo, interconectividade não- localizada e, finalmente, somando-se ao conceito de causalidade ascendente da ciência newtoniana normal, o conceito de causalidade descendente, a consciência escolhendo entre as possibilidades, o evento real.
Esses são os três conceitos revolucionários.
Então, se houver causalidade descendente, se pudermos identificar essa causalidade descendente como algo que está acima da visão materialista do mundo, então, Deus tem um ponto de entrada. Agora sabemos como Deus, se quiser, a consciência, interage com o mundo: através da escolha das possibilidades quânticas."

Que fique claro que, no presente momento, consciência não é sinônimo de mente. Para as neuro­ciências, a interação dos neurônios, fruto de sua herança genética e suas experiências cotidianas, pode criar o conceito de mente. Todavia, a matemática quântica pro­posta por Goswami concede à consciência a primazia de preceder o encéfalo e, segundo ele, o encéfalo material só existe pelo fato dessa consciência escolhê-lo dentre as possibilidades vigentes.

Os próprios físicos quânticos fizeram todo o esforço possível no intuito de negar a importância de um observador nos fenômenos físicos, todavia, atualmen­te é consenso entre eles que os objetos quânticos são matematicamente inconsis­tentes e inexistem sem a introdução da consciência:

"Na física quântica, por sete décadas, tentou-se negar o observador. De alguma forma, achava-se que a física deveria ser objetiva. Se dessem um papel ao observador, a física não seria mais objetiva. A famosa disputa entre Bohr e Einstein, a que se refere essa disputa, basicamente, sempre terminava com Bohr ganhando a discussão, mostrando que não há fenômeno no mundo, a menos que ele seja registrado. Bohr não usou a consciência, mas, atualmente, vem crescendo o consenso, muito lentamente, de que a física quântica não está completa, a menos que concordemos que nenhum fenômeno é um fenômeno, a menos que seja registrado por um observador, na consciência de um observador. E isso se tornou a base da nova ciência. É a ciência que, aos poucos, mas com certeza, vem integrando os conceitos científicos e espirituais."

Talvez seja interessante reproduzir, com as palavras do próprio Amit, a sua compreensão do conceito de Deus, pois não são poucas as pessoas que, de forma impulsiva, classificam cientistas como Goswami de místicos somente pelo fato desses pesquisadores introduzirem conceitos divinos em um mundo que se acos­tumou a viver uma objetividade que, no presente, não se sustenta mais:

"Os conceitos da física clássica, no início, não separavam Deus, como disse, mas então, aos poucos, descobriu-se que Deus não era necessário. Depois que Deus estabeleceu o movimento do mundo, ele passou a ser guardião de seu jardim, e isso é o que a maioria dos físicos clássicos pode fazer. Mas, na física quântica, há o problema da medição. Como as possibilidades tornam-se eventos reais, temos espaço para uma consciência, e ela deve ser uma consciência cósmica. Há uma semelhança com o modo como Deus é retratado, pelo menos na subespiritualidade tradicional, não na mente popular. A mente popular considera Deus um imperador um super-­humano sentado no céu. Essa imagem de Deus não é científica, e espero que esteja claro que não estamos falando em Deus desta forma, mas Deus nessa consciência mais cósmica, nessa forma mais estrutural. Esse tipo de Deus está retornando porque, o debate entre teólogos e cientistas sempre foi: Deus é o guardião ou Deus intervém? Teólogos afirmam que Deus intervém nos seres biológicos.

E então surgiu Darwin. Foi um grande golpe nos teólogos, porque antes, apesar de Newton, os teólogos podiam citar o exemplo da biologia, cujo propósito é muito óbvio, pelo menos, óbvio para a maioria. Mas a teoria de Darwin foi um golpe porque se dizia que a evolução ocorria... Mas ela era natural? Darwin disse que ela era natural. Oportunidade e necessidade. Não há necessidade de Deus na evolução, e não há necessidade de Deus na biologia. Então, no século XX, surgiu o behaviorismo e a idéia de que temos livre-arbítrio subjetivo. Essa idéia também foi superada, porque experimentos mostraram que somos muito condicionados, não há livre-arbítrio. Contra tudo isso, vejam só, a física quântica também cresceu ao mesmo tempo em que o behaviorismo, e a física quântica tem uma coisa peculiar: o princípio da incerteza. O mundo não está determinado como imaginamos. Deus não é o guardião. O princípio da incerteza levou à onda de possibilidades, depois o colapso da onda de possibilidades para a introdução da idéia do colapso da consciência. Paradoxalmente, fomos criados contra essa idéia, mas nos anos 90, eu, Henry Stab, Fred Allan Wolf, Nick Herbert, todos mostramos que esse paradoxo pode ser resolvido.

Não há paradoxo se presumirmos que a consciência que causa o colapso da onda de possibilidades em eventos reais é uma consciência cósmica. E o evento do colapso em si nos dá a separação matéria-objeto do mundo. Assim, não só resolvemos o problema da medição quântica como também demos uma nova resposta de como a consciência de um torna-se várias. Como ela se divide em matérias e objetos, para poder ver a si mesma. E essa idéia de que o mundo é um jogo da consciência, um jogo de Deus, que é uma idéia muito mística, voltou à tona. Então, podemos voltar à biologia. Deus intervém na biologia? Deus intervém na vida das pessoas? Essas perguntas continuam tendo respostas muito positivas. Vi, em um jornal sobre biologia evolucionista, que há muitos furos conhecidos na teoria darwiniana. Esses furos são chamados sinais de pontuação. A teoria da evolução de Darwin explica alguns estágios homeostáticos da evolução, ou seja, como as espécies adaptam-se a mudanças ambientais. Mas não explica como uma espécie torna-se outra. Essa especiação, mudança de uma espécie em outra, é uma nova mudança na evolução, não está na teoria de Darwin. Experimentalmente, isso é demonstrado em lacunas de fósseis. Não temos uma continuidade de fósseis mostrando como um réptil tornou-se um pássaro.

A idéia é que sejam sinais de pontuação: estágios muito rápidos de evolução. Eu sugiro que isto seja um salto quântico, um salto quântico na evolução. Nesse salto quântico, a consciência interveio, não de um modo subjetivo, de um modo caprichoso, mas de um modo muito objetivo, muito objetivo, e essas idéias objetivas ficam claras com o trabalho de Rupert Sheldrake e outros, o modo como isso pode ser objetivo. Mas, sem dúvida alguma, há uma intervenção da causalidade descendente. Não se pode explicar a biologia evolucionista só com a causalidade ascendente. Essa é a coisa mais interessante, a partir do pensamento original dos físicos de que Deus deve ser o guardião, pois tudo pode ser explicado e tudo é determinado, que não precisamos de Deus. Agora, estamos fechando o círculo, e vemos que não só precisamos de Deus: há movimentos descontínuos no mundo para os quais não existe explicação matemática ou lógica. Ainda assim, é totalmente objetivo, não é arbitrário. Deus age de forma objetiva, bem definida. A consciência cósmica não é subjetiva, não é a consciência individual que afeta o mundo.

Isso ocorre de forma cósmica, podemos discutir objetivamente. A ciência detém seu poder, sua objetividade e, ainda assim, temos agora a descontinuidade, temos a interconectividade e podemos falar sobre vários assuntos dos quais os místicos tradicionalmente falam."

As idéias de Amit Goswami parecem absolutamente sem fundamenta­ção empírica. Contudo, em seu livro, Goswami fundamenta todos os seus pressu­postos com base em experimentos absolutamente científicos advindos dos labo­ratórios de física, assim como dos laboratórios de neurociências espalhados pelo mundo. No entanto, manter-se informado sobre tudo o que está acontecendo no planeta Terra, nas mais diversificadas áreas do saber, e ainda tentar tecer coeren­temente a teia do conhecimento é um trabalho que demanda anos.

Cada cientis­ta tem trabalhado de forma aparentemente isolada, e somente "gênios" da ciência têm o poder e a coragem de, ao se expor, propor visões unificadoras. São muitos os exemplos que embasam as propostas de Goswami, e ele mesmo explicita um deles, advindo das neurociências:

"Em 1993 e 1994, o neurofisiologista mexicano Jacob Grinberg-­Zylberbaum e seus colaboradores fizeram um experimento, no qual havia dois observadores meditando por 20 minutos, com o propósito de terem comunicação direta. Comunicação direta no estilo de não-localidade. Sinais não-locais ocorrendo entre eles, e ainda assim eles teriam comunicação. Certo, eles meditaram juntos. Pediu-se que mantivessem o estado meditativo durante o resto do experimento. Mas então, um deles é levado para outro recinto. Eles ficam em câmaras de Faraday, onde não é possível a comunicação eletromagnética. Os encéfalos deles são monitorados. Uma das pessoas vê uma série de 'flashes' brilhantes, o encéfalo dele responde com atividade elétrica, obtém-se o potencial de resposta muito claro, picos muito claros, fases muito claras. O encéfalo da outra pessoa mostra atividade, a partir da qual obtém-se um potencial de transferência que é muito semelhante em força e 70% idêntico em fases ao potencial de resposta da primeira pessoa. O mais interessante é que, se você pegar duas outras pessoas, duas pessoas que não meditaram juntas, ou pessoas que não tinham a intenção de se comunicar, para elas, não há potencial de transferência. Mas para pessoas que meditam juntas, invariavelmente, muitas vezes, um em cada quatro casos, obtém-se o fenômeno de potencial de transferência. E Peter Fenwick, na Inglaterra, há dois anos, confirmou isso, repetindo o experimento."

Mais uma vez, fica explícita a velocidade com que a ciência tem transita­do em nossos dias. Michael Persinger sequer chegou a ser conhecido mundial­mente pelos seus trabalhos de comunicação através do eletromagnetismo, e no­vas pesquisas já evidenciam a possibilidade de uma comunicação não-local entre dois encéfalos. Por não-local entenda-se não pontuada por nenhum tipo de sinal conhecido por nós. O experimento a que Amit Goswami faz referência identifi­cou padrões de comunicação entre dois encéfalos isolados de todo e qualquer si­nal eletromagnético.

Que fique claro para o leitor que essa pesquisa não invalida as evidências propostas por Persinger, sendo que Persinger transitaria, por assim dizer, nas novas possibilidades de comunicação no reino imanente, e Jacob Grin­berg-Zylberbaum inicia a identificação de uma suposta comunicação não-local. Ao que parece, comunicação que transcende o espaço-tempo conhecido.

Durante o programa Roda Viva, pôde-se perceber a resistência de alguns dos entrevistadores às idéias sugeridas por Amit Goswami. Um dos entrevistado­res chegou mesmo a afirmar que Amit Goswami não é mais um físico. Contudo, Goswami acredita que a história da ciência se repetirá mais uma vez, e que o tem­po se incumbirá de trazer à tona a massiva verificação empírica dessas idéias:

"Eu acredito que as idéias se verificarão por si mesmas, serão confirmadas nos laboratórios e serão úteis.
A ciência tem dois critérios fundamentais.
Por isso Galileu é chamado de pai da ciência moderna, pois ele enunciou claramente esses dois critérios.
Um é que a ciência deve ser verificável.
Ela deve ser verificada experimentalmente.
E a segunda idéia é que a ciência deve ser útil.
No aspecto da verificação, já apresentei alguns experimentos a vocês, pois o tempo é curto, não entrarei em outros experimentos, mas digo que há um número enorme de experimentos sendo realizados, graças à parapsicologia e aos interessados em parapsicologia.
Mas também em biologia, e a medicina é uma grande área de verificação experimental de algumas de nossas idéias. Mas a questão da utilidade é a mais importante.
Deepak Chopra ficou famoso por um livro que escreveu chamado Cura Quântica, lançado há 10 anos. Ele começou a revolucionar a medicina, de certa forma, pois há um fenômeno chamado "efeito placebo" para o qual os cientistas não têm explicação.
E esse trabalho que é muito semelhante à minha forma de pensar, e eu tenho lido trabalhos citando a conexão entre as nossas idéias... Mas veja as implicações disso.
Se, de fato, houver cura quântica, se houver medicina mental, o efeito da mente sobre a cura, então as pessoas serão de fato ajudadas, não apenas no campo da psicologia, mas no campo da verdadeira saúde física.
A saúde física real, que importa para muito mais pessoas do que a saúde mental, ainda não estamos esclarecidos o bastante para levar a saúde mental tão a sério.
Mas todos se preocupam com a saúde física, levam muito a sério.
É a aplicação da nova ciência a essas áreas, especialmente na área da saúde, que vai trazer a revolução de que Deus é importante, a consciência é importante, a criatividade é importante, observar o livre-arbítrio e responsabilidade é importante, que temos um paradigma cientifico que pode unir todas essas coisas, trazê-las para junto da velha ciência e ter formas objetivas de proceder e prever.
Será uma ciência previsível, poderá ser verificada e também será útil.
Isso é o que mudará a percepção do público.
A percepção dos cientistas, também."


Por Adalberto Tripicchio 

Fonte:
rede psi portal
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