quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Evolução do Ser Humano / Parte IV (Antroposofia)





A HUMANIDADE NA ENCRUZlLHADA

Desde o começo do século XV, vivemos no 5o. período pós-atlântico, caracterizado pela eclosão da alma da consciência.

Agora, o homem não só compreende o mundo e quer dominá-lo (para isso bastava a alma do intelecto), mas ele se sente como um indivíduo, em oposição ao mundo, e a relação "eu-mundo" torna-se-lhe quase insuportável.

A auto-consciência nasce e, com ela, a solidão, a angústia, a insistência nas "perguntas eternas".

Surgem figuras como Lutero, revoltando-se com todo o peso da sua personalidade contra a Igreja, os heréticos, que morrem por suas idéias, Michelângelo, Rembrandt, Beethoven, criações como Fausto, Hamlet e Raskolnikoff, sofredores como Kierkegaard e Nietzche, filósofos corajosos como Sartre e Camus. Em todas essas figuras, inconcebíveis em épocas anteriores, manifesta-se essa alma da consciência.

E não a sentimos em nós, inspirando nossas dúvidas e nossas perguntas eternas?

A época da ciência e da técnica começou com o Renascimento. O intelecto e o espírito crítico tomaram conta de tudo. Ruíram as religiões e as crenças, a representação de um mundo espiritual, de um Deus criador e mantenedor do universo, ruíram as vetustas instituições sociais do Estado e da família, as tradições, incluindo as de respeito perante os mestres e os pais, a autoridade e os valores humanos em geral. Reinam o cinismo, o nihilismo e o desespero.

Não vamos fazer ressuscitarem as velhas tradições e instituições. O que morreu, está morto. Mas devemos perguntar: onde estamos e qual o sentido dessa crise?

Ela se nos afigura assim: o homem foi separado da harmonia divina pela "tentação"; perdeu a perfeição e a saúde, mas ganhou o intelecto, o livre arbítrio e a dignidade humana em potencial.

Todavia, esse desenvolvimento levou-o ao caos, ao nihilismo; em uma palavra, à situação que acaba de ser esboçada. O homem deve futuramente voltar à harmonia, ao "Paraíso", ao mundo divino do Amor, mas desta vez não como um autômato (como o era antes da "queda" na matéria), mas com todas as conquistas da sua peregrinação terrena: o intelecto, a consciência, o livre arbítrio.

Livremente, por uma série infinita de atos de Amor (a palavra tomada em sua acepção mais universal), não obstante e contra todos os obstáculos e tentações, o homem deve realizar em si e por si a harmonia eterna. Esse é o "reino de Deus", essa é a volta à origem, esse é o sentido da evolução da humanidade.

Estamos no ponto crucial: ou acharemos o caminho da nova subida, amparando-nos no verdadeiro impulso de Cristo e vencendo todos os obstáculos, ou mergulharemos definitivamente num estado de tecnicismo, de desumanização, de caos moral, e quiçá, de completa automatização despersonalizada.

Devemos olhar para a frente, para a tarefa futura, e não lamentar condições passadas, seja qual for a atração exercida pela sua harmonia e pela sua beleza.

Devemos tomar o destino em nossas mãos, livres, conscientes, com pleno aproveitamento do nosso intelecto e de tudo que conquistamos, mas tendo como ideal uma nova imagem do Homem.

Isso implica numa espiritualização lenta do nosso mundo por nós mesmos, cabendo-nos abrir-nos ativamente, conscientes, quais criadores autônomos, aos impulsos espirituais, a fim de realizá-los na Terra.

É grandiosa a idéia de que o ser humano poderá redimir a Criação e fazer voltar todo o nosso universo à harmonia primitiva, desde que trabalhe incessantemente em si próprio. Para poder fazê-lo, deve estar consciente dos perigos que o rodeiam e do ideal que deve procurar atingir.

Esse processo se estenderá por séculos e milênios. Rudolf Steiner disse que haveria, depois do nosso, mais dois períodos pós-atlânticos. Em seguida, começará um processo lento de desagregação da matéria, em meio a terríveis lutas sociais, que provocarão grandes catástrofes, em nada inferiores ao Dilúvio.

Paralelamente à desintegração da matéria haverá uma lenta desmaterialização da nossa Terra.

A humanidade passará a viver menos "encarnada".

Após um novo Pralaya haverá mais três "encarnações" da nossa Terra, onde o ser humano transcenderá o seu estado "humano", alcançando graus de evolução correspondentes ao atual estado dos anjos, etc.

Todavia, isso só acontecerá com aqueles homens que, vencendo todos os obstáculos, chegarão à sua reintegração na harmonia divina. Os outros, definitivamente dominados por Lúcifer e Árimã, ficarão para trás e não passarão do estado humano constituindo, em encarnações futuras da Terra, reinos "atrasados" como o é, hoje, por exemplo, o reino animal em comparação com o reino humano.

Mas voltemos à época atual. O título deste capítulo, "A humanidade na encruzilhada", torna consciente a importância histórica justamente da nossa época.

Por que?

Porque em épocas anteriores a humanidade, não possuindo uma consciência tão desenvolvida, ainda foi guiada pelas influências "boas" ou "más" dos mundos espirituais. Somos hoje conscientes e responsáveis; temos o nosso destino em nossas mãos. Por isso precisamos ter em vista a nossa tarefa futura e os perigos que a ameaçam.

A tarefa é simples: desenvolver o nosso eu, a nossa consciência, o nosso livre arbítrio; conhecer, amar e dominar a Terra, mas sempre de acordo com a inspiração crística; afirmar a nossa auto-consciência e espiritualizar-nos ao mesmo tempo.

Resultam daí duas possibilidades de aberração:

Podemos desprezar a Terra e a autoconsciência, procurando voltar o quanto antes a um reino espiritual. Quem nos induz a essa atitude é Lúcifer. Ele atua por trás de tudo que faz o homem perder a plena consciência de si e a sua firmeza na Terra: são os estados inconscientes ou de êxtase, o entusiasmo e as excitações de toda espécie. Como já dissemos, Lúcifer fez muitas contribuições valiosíssimas: as artes, os ideais e qualquer elevação da alma são obra sua. A influência luciférica é ótima, desde que dominada por um eu consciente; nefasta, quando torna o homem inconsciente, quando lhe tira a sobriedade e a serenidade, o raciocínio e a contemplação refletida, provocando a excitação e o irracionalismo.

O outro pólo é Árimã. Despreza o verdadeiro espírito, nega os mundos espirituais e quer dar ao homem a ilusão de que o que é racional e lógico na Terra já é o verdadeiro espírito. Daí a luta de Árimã em prol de todas as formas de materialismo, de intelectualização, da abstração (o verdadeiro espírito nunca é abstração). Como Lúcifer, Árimã nos deu dádivas de grande valor: o pensamento lógico e a matemática são manifestações arimânicas. Mas em sua luta contra os impulsos espirituais, Árimã recorre amiúde ao cinismo e à ironia.

Não existe, pois, na Antroposofia, o "Diabo" como força do mal. Existem, sim, duas forças cósmicas, que têm, cada uma, sua missão específica, e que se tornam "más" quando o ser humano deixa-se dominar por elas.

Do ponto de vista exposto, muitos fenômenos e instituições da vida moderna aparecem sob uma luz nova. Examinaremos rapidamente alguns desses aspectos:

Toda a vida científica atual é determinada pela tendência de fugir das qualidades e fenômenos qualitativos para expressá-los quantitativamente.

As fórmulas, a lei abstrata, são as finalidades supremas.

Por exemplo, a fórmula da velocidade: v = c/t, é considerada como a última explicação da velocidade v.

Mas o que é um caminho c dividido pelo tempo t?

Uma realidade? Certamente não.

Afirmar que a "qualidade" vermelho é dúbia, porque "subjetiva", e que deve ser substituída por: "radiação de uma frequência de ..." não diz nada sobre o vermelho, como sensação, sobre as qualidades intrínsecas. O perigo, é que essa mentalidade generalize-se fora da própria Física, passando para o subconsciente do homem. O mesmo aconteceu com a Biologia: ensinaram ao homem, durante gerações, que ele descende do animal, nada possuindo que já não exista no animal; ele acabou comportando-se como um animal...!

Essa abstração, manifestação de Árimã, faz considerar o corpo humano como um laboratório ou uma máquina. O médico é uma espécie de chefe de oficina, encarregado de consertar o defeito, e não estamos longe do tempo em que o exame, o diagnóstico, terapia e controle, serão feitos por computadores, realização máxima do espírito arimânico.

O psicólogo tem uma posição das mais ingratas: deve falar de algo que tem a certeza de não existir: a alma. Daí as suas afirmações muitas vezes ridículas. Negando por completo a existência de uma psique autônoma, muitos psicanalistas consideram-na como uma espécie de conglomerado de funções biológicas e, quando falam de qualidades anímicas, apressam-se em achar-lhes as causas fisiológicas ou químicas: é a negação de qualquer elemento espiritual superior e, por isso, atitude tipicamente arimânica.

Na política como na vida econômica, o homem moderno esqueceu que está em presença de verdadeiros organismos. A aplicação de critérios puramente intelectuais e "lógicos" não pode resolver os problemas desses setores.

Quanta inteligência não está sendo gasta para a solução dos problemas sociais e econômicos, sem qualquer resultado!

Por que?

Esqueceram-se de uma coisa: do ser humano completo, que é um ser não somente econômico, político ou social, mas também anímico e espiritual, que não pode ser captado pela aplicação unilateral dos princípios da antropologia e sociologia, "ciências" que constituem uma contradictio in adjecto.

Uma atitude mais realista implica na superação desses pontos de vista abstratos, arimânicos.

Um elemento puramente racional penetrou, também, nas artes. Mais do que nunca, o elemento cerebral predomina. Até o espontâneo e o caótico são calculados, desde a música eletrônica até a plástica de ferros retorcidos. Com isso não queremos julgar essas criações, mas apenas indicar-lhes o caráter.

Por outro lado, aparecem também nas artes inúmeros impulsos emocionais onde predomina o elemento luciférico. Raramente, porém, podemos dizer, frente a uma obra contemporânea, que achamos nela o perfeito equilíbrio entre o elemento "conteúdo" (que seria o equivalente de luciférico) e o elemento "forma" (elemento arimânico).

Passaremos agora para o campo extremamente vasto dos "passatempos", frisando, em primeiro lugar, o contra-senso dessa nova indústria.

A racionalização do trabalho deveria ter por objeto libertar o homem da escravatura do trabalho, dando-lhe o tempo e as forças necessárias para dedicar-se atividades superiores.

Como seria bom se o ser humano, dono da máquina, usasse realmente o tempo poupado para tornar-se mais digno e mais consciente das suas tarefas, aspirando a realizar valores novos e elevados!

Mas o que faz com o tempo economizado? Procura "matá-lo". Tomado de pânico de ficar a sós consigo mesmo, de ter que concentrar o seu espírito em algo mais elevado, ele se refugia nos passatempos: rádio, revistas, baralho, TV, leituras superficiais de livros "cativantes", festas, narcóticos. Esquecer e fugir de si próprio, eis o lema e a razão de ser da indústria de passatempos, umas das maiores vergonhas da humanidade, que tem por única finalidade tornar o homem inconsciente ou semi-inconsciente, alienando-o da sua tarefa primordial. Temos aqui a técnica acoplada à inconsciência, triste exemplo de colaboração de Árimã e Lúcifer.

Vejamos as mais recentes conquistas nesse domínio: a TV, as revistas de estórias em quadrinhos (essas caricaturas do mundo nas quais nem o esforço consciente da leitura é mais necessário...), o nível da média dos filmes, as viagens frenéticas, os jogos de azar... uma geração inteira que se afunda na alienação de si mesma. E o aspecto mais diabólico, é que as crianças são inundadas, desde o nascimento, pelas "benfeitorias" dessa indústria. Como é que uma geração de seres humanos maduros e conscientes pode nascer de crianças viciadas desde o berço?

A propaganda, sob todas as suas formas, constitui outro atentado contra a consciência. Apela habilmente para os instintos menos elevados - cobiça, vaidade, egoísmo, sensualismo - mas o faz subrepticiamente, dirigindo-se ao subconsciente, quando não trabalha cinicamente com efeitos subliminares. Triste espetáculo numa hora em que o homem devia estar sempre mais lúcido e consciente em todos os seus pensamentos e decisões.

Devemos dizer o mesmo dos slogans políticos ou sociais, das ideologias, dos falsos fanatismos e de tudo o que fortalece o espírito gregário, a mentalidade puramente emocional de grupos e, por isso mesmo, semi-inconsciente. Todas essas nefastas influências luciféricas contribuem para a esquizofrenia do ser humano moderno, que é atraído pelos extremos do materialismo e da abstração de um lado, e da embriaguez e da inconsciência da sua vida emotiva, de outro. Falta-Ihe o ponto de apoio, do meio. Parece que o ser humano moderno prefere a justaposição incoerente e chocante dos dois extremos em lugar da sua harmonização.

A polaridade Lúcifer/Árimã aparece até na configuração espiritual da nossa Terra.

Rudolf Steiner foi o primeiro a insistir no fato de que o mundo oriental (Rússia-Ásia) era caracterizado pelas emoções, pelo espírito de comunidade (em detrimento do eu individual) e pelo idealismo extático (Dostoiewski, o messianismo comunista), enquanto o Ocidente era dominado pelo intelecto, pelo individualismo extremo (muitas vezes em detrimento do amor pelo próximo) e pelo utilitarismo.

Poderíamos prolongar infinitamente essa lista de manifestações das influências de Lúcifer e Árimã. O leitor atento poderá continuar essa análise e chegar à mesma conclusão de que a nossa tão decantada civilização moderna contém em seu cerne os mais graves perigos para uma aberração definitiva da humanidade, a não ser que um número suficientemente grande de pessoas se torne consciente da existência desses perigos e faça os esforços necessários para combatê-los.

A Antroposofia quer fomentar essa consciência e despertar as contra-forcas. Ela identifica essa sua doutrina com um verdadeiro cristianismo que não tem por centro o Jesus Cristo adocicado e banalizado das religiões cristãs, mas o Ser Supremo sob cujo impulso devemos realizar nossos atos, sob pena de perder a dignidade humana.

Texto de R. Lenz

Fonte:
sociedade antroposófica brasileira
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